A Folha não falha na defesa dos poderosos
Publicado em: 24 de fevereiro de 2026
“Trabalhador brasileiro
Trabalha igual burro e não ganha dinheiro
Trabalhador brasileiro”
Seu Jorge na música Trabalhador
Na edição impressa de domingo, 22 de março, a Folha de São Paulo abriu a caixa de ferramentas patronal/escravocrata para atacar o fim da jornada 6X1. Para dar um viés “técnico” publicou um “estudo” do pesquisador Daniel Duque do FGV Ibre. Como sabemos, não existe neutralidade na linguagem e também nos números. Ambos podem ser utilizados de acordo com os objetivos e interesses de quem os manipula. Segundo a “pesquisa” o brasileiro não trabalha muito pois a jornada semanal no Brasil é de 40,1 hs ante a média mundial de 42,7 num universo de 160 países.
“O diabo mora nos detalhes” é um provérbio popular alemão bem adequado neste caso. O detalhe aqui é o universo da comparação: ao fazê-la com 160 países (o que em si já é um problema para um estudo sério) isso permite que se introduzam países com trabalho muito precário e jornadas altíssimas que, obviamente, farão a média aumentar. É o caso do Butão com jornada semanal de 56,1 hs; Sudão com 50,8 hs; Emirados Árabes Unidos com 49,4 hs, entre muitos outros. Nos Emirados Árabes, inclusive, 88% da mão de obra é expatriada e temporária vinda do sul da Ásia e de países árabes pobres.
Uma comparação séria é verificar a nossa jornada de trabalho dentre as 20 maiores economias do mundo. O Brasil tem oscilado entre a décima e décima primeira economia dentre as 20. Nessa comparação os brasileiros trabalham muito, bem mais que a maioria. Somos o décimo primeiro em média de horas semanais trabalhadas, 39 hs, praticamente empatado com a Rússia e Indonésia na sequência, segundo a OIT. Nossa jornada é bem superior ao do Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Coreia do Sul e dos EUA, para citar alguns. Isso a Folha não fala. E não fala porque quer impedir a aprovação do fim da cruel e desumana jornada 6X1.
A matéria logo no 1º.parágrafo faz uma conclusão: ”o brasileiro não trabalha muito. Nem pode ser considerado particularmente esforçado”. Um eufemismo para dizer que o brasileiro é preguiçoso. Mais adiante, o artigo informa que, segundo o pesquisador Duque, o que explica “é uma questão cultural, uma preferência (do brasileiro) por maior quantidade de lazer”. É a retomado do “mito da índole preguiçosa do brasileiro”, tão utilizado na nossa história pelas perversas elites dominantes para escravizar e super explorar a mão de obra. Talvez o Duque – pesquisador – (perdoem-me pela piada) tenha se contaminado pela coincidência do seu sobrenome com os antigos duques, condes e adjacências que nunca trabalharam e viviam às custas da exploração do trabalho alheio. Nosso Duque poderia fazer uma experiência que sem
dúvida o ajudaria como pesquisador. Trabalhar algumas semanas no comércio na jornada 6×1 pegando 2 a 3 hs de trem, ônibus e metrô lotados na ida e na volta, ou uma semana como motoboy tentando sobreviver sem acidente. Há outras opções como as estafantes jornadas na educação básica, na construção civil, nas fábricas e muito mais. Experiências práticas assim muitas vezes auxiliam no importantíssimo e fundamental trabalho da pesquisa.
O cancioneiro popular brasileiro tem um arsenal de músicas sobre o trabalho. Todas feitas por gente do povo, operários da palavra e da arte. Nestas canções se revelam a dura vida de quem trabalha pesado para sobreviver: “Está na luta, no corre-corre, no dia-a-dia. Marmita é fria mas se precisa ir trabalhar. Essa rotina em toda firma começa às sete da manhã. Patrão reclama e manda embora quem atrasar” são bem reais os versos da música “Trabalhador” do seu Jorge. Assim como o trecho: “Trabalhador brasileiro, trabalha igual burro e não ganha dinheiro” poeticamente nos remete a profunda desigualdade social do nosso país. O Brasil, apesar de estar entre as 20 maiores economias do mundo e de ter uma das maiores jornadas de trabalho dentre elas, é o 5º. pior em desigualdade social no mundo. Uma vergonha terrível devido à altíssima e brutal concentração de renda nas mãos de uma elite econômica. Somam-se a isso os baixíssimos salários, pequeno investimento em educação, saúde e demais questões sociais. E quando se tentam medidas, pequenas que sejam, para tentar melhorar um pouco a situação do povo trabalhador, estas mesmas elites poderosas vêm ao ataque através dos seus meios de comunicação.
Mas com muita luta e com a ajuda da arte, como diz a canção do saudoso Renato Russo do Legião Urbana na música “Fábrica”: “Nosso dia vai chegar. Teremos nossa vez. Não é pedir demais. Quero justiça. Quero trabalhar em paz. Eu quero o trabalho honesto. Em vez da escravidão”. Assim vamos botar nosso bloco na rua para dobrar os poderosos e pressionar os deputados que trabalham em jornada bem reduzida a votar a favor da maioria dos brasileiros.
Porque nós queremos trabalho e também, como diz a canção dos Titãs: “A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”.
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