Boulos e Erundina merecem um lugar no segundo turno
Publicado em: 3 de novembro de 2020
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Valerio Arcary
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Duas semanas nos separam do primeiro turno das eleições municipais. No Brasil a luta eleitoral se concentra nestes últimos quinze dias, ou até menos. Viradas estonteantes de perder o fôlego podem acontecer. Mas essa incerteza gera a ilusão de que qualquer coisa pode acontecer. Não é assim. A luta política não é como o futebol. A luta eleitoral tem margens de indefinição, mas essa margem ela é relativa. As grandes tendências estão estabelecidas antes do início das campanhas.
Desde 2016 a classe dominante está na ofensiva e, nesse marco, em 2018 a extrema-direita atingiu o ápice de sua influência. Ao longo de 2020 o governo Bolsonaro foi acumulando um lento, mas contínuo desgaste, sobretudo, nas maiores regiões metropolitanas, mais acentuadamente no sudeste que no sul. No triângulo estratégico de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte candidatos bolsonaristas não deverão sequer chegar ao segundo turno.
Quem se fortaleceu mais foram as forças políticas que fazem a representação política tradicional da burguesia. O bloco PSDB/MDB/DEM e seus satélites. Não será uma surpresa a provável vitória de Kalil ainda no primeiro turno, e a presença de Covas e Eduardo Paes no segundo. Era previsível que fosse assim. O deslocamento do voto de Bolsonaro para a centro-direita responde ao movimento da própria classe dominante e das camadas médias e sua força de arraste.
Mas, embora a esquerda brasileira ainda esteja na defensiva, em função de um processo de acumulação de derrotas sociais e políticas da classe trabalhadora e dos oprimidos, ela não foi esmagada. Não ocorreu derrota histórica como em 1964. Houve uma derrota grave, mas a esquerda não foi destruída.
E dentro da esquerda as relações políticas de força entre PT, PSol e PCdB estão se alterando. Manuela D’Ávila deve conquistar posição no segundo turno em Porto Alegre, assim como Boulos em São Paulo e Edmílson Rodrigues em Belém. O PT disputa um lugar no segundo turno em Fortaleza, Recife e Vitória. Este desenlace tem uma história e ela deixou lições. Mas será que aprendemos algo com a derrota eleitoral de 2018?
Não perdemos porque o PSol lançou a candidatura de Boulos no primeiro turno. A candidatura de Boulos/Sonia Guajajara cumpriu um papel insubstituível para atrair para a esquerda uma nova geração de jovens que despertaram para a vida política depois de junho de 2013, e já não se identificavam com o PT como a geração mais madura.
O PSol foi porta-voz da necessidade de uma esquerda que expressa a luta do movimentos feminista e negro, dos povos indígenas e LGBT, do ambientalismo e cultural, da juventude e dos direitos humanos. Agregou forças, impulsionou o #elenão e, no segundo turno, esteve na primeira linha do vira-voto.
Não perdemos, tampouco, porque o PT insistiu em apresentar a candidatura de Lula até o último momento, mesmo ele estando preso. Essa decisão do PT foi legítima e essencial para garantir a transferência de votação para Fernando Haddad para garantir um segundo turno.
A situação política evoluiu de forma tão desfavorável entre 2016 e 2018 que a hipótese mais provável era, sobretudo depois do episódio da facada em Juiz de Fora, o perigo de não existir um segundo turno, portanto, uma vitória de Bolsonaro em condições ainda mais adversas.
Não perdemos porque Ciro Gomes não chegou ao segundo turno. A hipótese contrafactual que sustenta que Ciro Gomes poderia ter derrotado Bolsonaro é uma fantasia de desejo de quem não entendeu muito bem a derrotas que aconteceram desde o impeachment de Dilma Rousseff. Mas não perdemos, também, porque Ciro Gomes e o PDT se abstiveram de fazer a campanha por Fernando Haddad, embora essa decisão tenha sido obtusa. Foi a inversão geral da situação política que potencializou a vitória de Bolsonaro.
Mas tem uma imensa audiência na esquerda a ideia de que as massas votam, essencialmente, em pessoas, como se a luta política fosse um mercado eleitoral, e as candidaturas produtos. Esta percepção é ingênua. A questão decisiva não é o perfil das candidaturas, embora elas tenham o seu peso.
O que é decisivo na definição das disputas eleitorais é a variação nas relações sociais de força entre as classes que determina a conjuntura política. Mas esta variável exige uma análise em nível de abstração mais elevado, portanto, mais complexo. Quando prevalece a confiança em si mesma e nas suas lutas, as massas populares votam na esquerda. Mas quando o que predomina é a insegurança, o medo, a divisão e a confusão a direita abre o caminho.
Acontece que o vocabulário político oscila e flutua de acordo com a mudança nas relações sociais de força. Quando a situação política é reacionária tudo se desloca para a direita. Quando a situação é revolucionária tudo se desloca para a esquerda.
Interpretar que Márcio França seja de esquerda, seja qual for o sentido que se queira dar ao conceito, não é honesto. Márcio França foi um braço direito de Alckmin durante dez anos. Dez longos anos. O único argumento é que França mantém filiação ao PSB. Acontece que o PSB é uma legenda de aluguel. A prova irrefutável é que Paulo Skaf, o chefe da Fiesp, já usou o PSB. O próprio Ciro Gomes já passeou pelo PSB
A divulgação pública agora de reunião em setembro, portanto, há dois meses, entre Lula e Ciro Gomes foi interpretada por muitos na esquerda como positiva porque estaria sinalizando a possibilidade de um terreno de maior unidade na luta contra Bolsonaro. Trata-se de uma ilusão.
Ciro Gomes quer disputar com a esquerda o espaço da oposição a Bolsonaro, porque aposta que o Bloco PSDB/MDB/DEM chegará em 2022 desgastado pelo apoio crítico a Bolsonaro, assim como Alckmin chegou condenado em 2018 pelo apoio a Michel Temer. Ciro Gomes, como um malabarista camaleônico, quer apoio na esquerda mas sem romper pontes ou se indispor com o núcleo duro da burguesia paulista.
A divulgação do encontro com Lula foi uma manobra de Ciro Gomes. Ciro está interessado em diminuir a repulsa que acumulou na esquerda porque se recusou a participar da campanha contra Bolsonaro em 2018. Pretende ganhar simpatia do eleitorado de esquerda para Sarto em Fortaleza, Marta Rocha no Rio de Janeiro e Márcio França em São Paulo. Seu objetivo é explorar a ideia de que os candidatos que apoia devem ser empurrados para o segundo turno com voto útil porque são os que podem derrotar o Capitão Wagner, Eduardo Paes e Bruno Covas. Não merece confiança.
Márcio França, em um segundo turno, seria um sócio-parceiro fazendo “escada” para Covas.
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