O PSol confirmou ser necessário
Publicado em: 4 de novembro de 2026
Coluna Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Coluna Valerio Arcary
Valerio Arcary
Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.
Ricardo Stuckert
Faz-se caminho ao andar
Provérbio popular português
1 O PSol teve em 2026 a maior vitória eleitoral de sua história, e superou a cláusula de barreira assegurando o acesso ao Fundo Partidário e ao tempo de TV a partir de 2027. A Federação PSol/Rede atingiu com folga o percentual nacional mínimo: fez 4,89%, um pouco aquém de 6 milhões de votos, contra os 2,5% exigidos. O partido elegeu 14 deputado(a)s federais e 27 estaduais. Na disputa majoritária para o Senado Federal, o PSOL registrou 8.028.938 de votos em âmbito nacional. O resultado consolida a presença do PSOL em 12 unidades da federação: Bahia, Ceará, Distrito Federal, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Sergipe. Mas enfrentava um obstáculo jurídico: precisava de pelo menos 1,5% dos votos em 9 estados, e havia alcançado essa meta em apenas 8. No Espírito Santo, a votação da Federação bateu na trave com 1,4913%. Faltaram 180 votos. O TSE adotou as normas de arredondamento da ABNT para aproximar o índice capixaba para 1,5%. Este desempenho do PSol, um triunfo eleitoral-jurídico, merece ser considerada, portanto, uma façanha política, quando consideradas as dificuldades, e provou que era possível obter uma votação suficiente para garantir uma existência independente.
Evidentemente, este desenlace foi uma derrota. Poderia ter sido evitada? Um debate será inescapável. Mas a verdade é que eleições têm uma dimensão irredutível de imprevisibilidade. De qualquer forma, este episódio não legitima a posição de que o PSol deve se integrar à Federação dirigida pelo PT. Ela obedecia a um cálculo político de mais fôlego sobre o destino da esquerda no Brasil, o papel do PT e o lugar do lulismo, mas estava fundamentada em um argumento central: a impossibilidade de cruzar a cláusula de barreira. Estava errada.
2 O contexto desta proeza tem importância. Na pesquisa Quaest de outubro de 2026, 25% dos entrevistados se declararam de esquerda: 20% se identificam como lulistas e 14% afirmam ser de esquerda não lulista. Na pesquisa Datafolha de julho de 2026, o Datafolha classificou 39% dos eleitores brasileiros no campo da esquerda ou centro-esquerda. A pesquisa Ipsos-Ipec (março de 2026) apontou o PT com 27% da preferência do eleitorado geral. Entre as demais siglas posicionadas à esquerda, o PSOL registrou 2% das menções, à frente do PSB. Mas o PSOL é o terceiro partido preferido dos brasileiros, segundo pesquisa Atlas/Arko, de abril de 2026: 8,3% dos entrevistados. Sim, o terceiro, somente atrás do PT e do PL bolsonarista. Entre o eleitorado feminino. 13,7% das mulheres entrevistadas, 13% entre os jovens de 16 a 24 anos, e entre os mais velhos, 14,7% dos entrevistados acima de 60 anos. Trinta e dois anos de luta não foram em vão. O “paradoxo” do quociente eleitoral foi que apesar da federação PSOL-Rede ter recebido cerca de 3,06 milhões de votos em São Paulo (o equivalente a 9 quocientes eleitorais), ela elegeu somente seis deputados no estado. Isso ocorreu porque, excetuando as lideranças eleitas, os demais candidatos da lista não atingiram a cláusula de votação nominal mínima exigida por lei (10% do quociente eleitoral, ou 33.821 votos) para herdar as vagas restantes. Evidentemente, este desenlace foi uma derrota. Poderia ter sido evitada? Um debate será inescapável. Mas a verdade é que eleições têm uma dimensão irredutível de imprevisibilidade. De qualquer forma, este episódio não legitima a posição de que o PSol deve se integrar à Federação dirigida pelo PT. Ela obedecia a um cálculo político de mais fôlego sobre o destino da esquerda no Brasil, o papel do PT e o lugar do lulismo, mas estava fundamentada em um argumento central: a impossibilidade de cruzar a cláusula de barreira. Estava errada.
a “onda vermelha” colocou em movimento uma nova geração e foi uma mobilização de baixo para cima, em grande medida espontânea, como são sempre os grandes ascensos que impõem uma nova correlação de forças, facilitada por uma frente única de esquerda improvisada na prática, indo além do comando da campanha Lula, favorecendo um giro na linha política
3 A superação com folga da cláusula de barreira trata-se de um feito porque, afinal, foi o único partido de esquerda com história e vínculos orgânicos com a luta da classe trabalhadora, além do PT, que o fez. Teve até mais votos do que o PT para deputado federal em São Paulo, algo acima de 3 milhões de votos, em função da votação de Erika Hilton de arredondados 1,6 milhão de votos. O PSB, liderado desde Pernambuco por João Campos, herdeiro da família Arraes, também, conseguiu, mas é bom lembrar que, embora se apresente como socialista, se trata do partido que recebeu Geraldo Alckmin, representante de uma ala do PSDB, que foi o partido mais importante da classe dominante durante vinte anos, entre 1994 e 2014. Esta vitória demonstrou que a existência legal do Psol é possível, mas também que é necessária. O desafio colocado é triplo: (a) a “onda vermelha” garantiu a virada eleitoral de Lula, mas deixou claro, também que, apesar da rocambolesca fuga de Flávio Bolsonaro, a extrema-direita não vai ficar acéfala por muito tempo, e mantém posições políticas fortes nos governos estaduais e no Congresso Nacional, além das polícias e igrejas neopentecostais; (b) a “onda vermelha” colocou em movimento uma nova geração e foi uma mobilização de baixo para cima, em grande medida espontânea, como são sempre os grandes ascensos que impõem uma nova correlação de forças, facilitada por uma frente única de esquerda improvisada na prática, indo além do comando da campanha Lula, favorecendo um giro na linha política; (c) esta foi a última eleição de Lula, o que atualiza e acelera a reorganização da esquerda, por dentro e fora do PT, como se vê pela discussão pública da possível expulsão de Quaquá no Rio de Janeiro.
>> Leia também: Segundo turno 2026: cronologia de uma vitória heroica
4 Caiu de 30 para 15 o número de partidos com presença no Congresso Nacional desde 2018. Nas eleições de 2026, 15 partidos ou federações elegeram representantes para a Câmara dos Deputados Nas eleições de 2022, 23 partidos políticos elegeram representantes. 30 partidos tinham eleito em 2018. Neste ano, os partidos deveriam atender a critérios que vão ficar ainda mais rigorosos: obter, no mínimo, 2,5% dos votos válidos nacionais para deputado federal, distribuídos em pelo menos nove unidades da Federação, com um mínimo de 1,5% dos votos válidos em cada uma delas, e eleger pelo menos 13 deputados federais, distribuídos em pelo menos nove Unidades da Federação. Nesta eleição, 12 partidos políticos e uma das federações não atingiram os critérios de desempenho definidos pela cláusula de barreira. No que podemos definir como um campo de esquerda, o PSTU, PCB e UP, embora tenham apresentado candidatos à presidência, não passaram. Samara Martins recebeu 122.911 votos (0,10% dos votos válidos). Hertz Dias recebeu 43.103 votos (0,04% dos votos válidos). Edmilson Costa recebeu 22.693 votos (0,02% dos votos válidos). O PCO tampouco conseguiu, Rui Costa Pimenta recebeu 15.024 votos (0,01% dos votos válidos) mas é cada vez mais difícil caracterizar a sua natureza. A definição do lugar do PDT é, também, muito controversa, porque embora seja herdeiro da tradição getulista, desenvolveu traços de um partido de aluguel. Na direita o Missão, Democrata, PRTB, DC, Agir, Mobiliza e Avante fracassaram e, talvez, somente o Missão permaneça.
No campo da classe dominante haverá uma luta entre o centrão, um campo reacionário, mas com os dois pés dentro do regime democrático-liberal, e a extrema-direita, com um pé insurrecional fora. No bloco da esquerda haverá uma disputa entre um campo mais moderado e outro mais radical.
5 A peculiaridade brasileira de um multipartidarismo “caótico” está sendo corrigida. Dois blocos sociais e políticos estão e estarão em disputa. Mas não serão dois blocos monolíticos, porque, por variadas razões objetivas e subjetivas, a representação de interesses de frações de classe, e projeto de país, não é possível um partido homogêneo. Durante duas décadas o PSDB cumpriu um papel de liderança aglutinador, mas foi destruído. No campo da classe dominante haverá uma luta entre o centrão, um campo reacionário, mas com os dois pés dentro do regime democrático-liberal, e a extrema-direita, com um pé insurrecional fora. No bloco da esquerda haverá uma disputa entre um campo mais moderado e outro mais radical. Diante do debate da tática para enfrentar a extrema-direita, ou dos perigos colocados pela luta anti-imperialista face a Trump, ou da necessidade de manter uma mobilização ininterrupta e governabilidade a quente, ou de projetos para a transição energética contra o aquecimento global, ou de estratégia de reformas que permitam ir além dos dogmas fiscalistas haverá luta. Nesse processo estará o desafio da reorganização e será nesse processo que se afirmarão os instrumentos de luta coletivos e as lideranças individuais.
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