Narrativas LGBTQIAP+ sob ataque: arte e cultura no centro da guerra política
Publicado em: 13 de maio de 2026
Vivemos um tempo em que a disputa política ultrapassa as urnas, os parlamentos e os tribunais. Ela acontece também nos livros, nas escolas, nos palcos, nas bibliotecas, nas redes sociais e em todos os espaços onde narrativas são construídas e compartilhadas. A ofensiva da extrema direita contra a população LGBTQIAP+ não se limita à tentativa de restringir direitos civis ou de estimular a violência física. Trata-se também de uma batalha simbólica, travada no campo da cultura e da imaginação.
Além de atacarem nossos corpos e direitos, querem nos retirar das histórias. Tentam silenciar nossas vozes, impedir que elas sejam publicadas, encenadas, filmadas ou ensinadas. Atacam as narrativas que afirmam a legitimidade de nossas existências. É por isso que a arte e a literatura ocupam um lugar central nessa disputa.
A guerra cultural como estratégia política
A extrema direita compreendeu que quem controla o imaginário social conquista uma poderosa vantagem política. Por isso, investe em uma guerra cultural, voltada a censurar conteúdos que questionem o patriarcado, o racismo, a LGBTfobia e outras formas de opressão. No Brasil, isso se expressa em ataques recorrentes a livros, exposições, filmes, peças de teatro, editais e conteúdos pedagógicos.
Um levantamento realizado pela conectas.org apontou que, entre 2019 e outubro de 2024, foram apresentados 437 projetos de lei anti-LGBTQIAP+ no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas estaduais, evidenciando que os direitos dessa população seguem sob forte pressão institucional. Uma grande parcela desses projetos propõe a proibição da linguagem neutra, censura escolar, proibição de debates sobre gênero e restrições à publicidade e a eventos culturais. Ou seja, são projetos que representam ataques diretos no campo artístico, cultural e simbólico.
Quando os livros se tornam alvo
No campo da literatura, obras que abordam gênero, sexualidade e questões raciais têm sofrido constantes ataques e tentativas de censura. Livros com personagens LGBTQIAP+, autorias dissidentes ou perspectivas críticas passam a ser retratados como ameaça à infância ou como instrumentos de “doutrinação”.
No campo da literatura, obras que abordam gênero, sexualidade e questões raciais têm sofrido constantes ataques e tentativas de censura. Livros com personagens LGBTQIAP+, autorias dissidentes ou perspectivas críticas passam a ser retratados como ameaça à infância ou como instrumentos de “doutrinação”. Há tentativas de retirar livros de bibliotecas e escolas, ou ataques em eventos literários.
Um caso emblemático ocorreu na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, em 2019, quando o então prefeito Marcelo Crivella tentou recolher exemplares da graphic novel “Vingadores: A Cruzada das Crianças”, da Marvel Comics, porque a obra continha a imagem de um beijo entre dois personagens masculinos, Wiccano e Hulkling.
A censura contemporânea nem sempre se apresenta como proibição explícita. Muitas vezes ela ocorre por meio do desfinanciamento, da intimidação moral e da perseguição institucional. Durante o governo Bolsonaro, mecanismos de apoio à cultura, como a ANCINE, foram alvo de pressões ideológicas, com ataques diretos a produções audiovisuais que abordavam diversidade sexual e de gênero. O recado era claro: certas narrativas não deveriam receber apoio público.
Além disso, o governo Bolsonaro também cometeu a audácia de extinguir do Ministério da Cultura, demonstrando seu desprezo por todo esse setor, pois sabe que a cultura é um terreno em que muitas vozes resistem.
Por que querem censurar?
Há uma razão por trás dos ataques no campo cultural. A arte e a literatura têm o poder de gerar identificação e empatia no público. Identificação, pois as pessoas leitoras LGBTQIAP+, principalmente crianças e jovens, podem se enxergar em músicas, histórias e personagens de livros, filmes, séries e HQs, entendendo suas experiências como algo verdadeiro e válido. E empatia, pois as pessoas que não são LGBTQIAP+, ao entrarem em contato com essas narrativas, podem compreendê-las e naturalizá-las. Ao acompanhar a trajetória de uma mulher trans, de um casal lésbico ou de um jovem gay, a pessoa leitora é convidada a habitar experiências que muitas vezes lhe eram desconhecidas. Essa travessia pode produzir empatia e romper preconceitos.
Além disso, a violência simbólica prepara o terreno para a violência física. O Brasil continua registrando centenas de mortes violentas de pessoas LGBTQIAP+ a cada ano. Quando um livro é censurado, uma peça é cancelada ou uma artista é atacada, reforça-se a mensagem de que determinadas vidas são menos legítimas, menos dignas de reconhecimento e proteção.
A arte, para eles, é perigosa, pois realiza um gesto radicalmente democrático. Ela amplia a capacidade de imaginar o outro e de reconhecer sua humanidade. Afirma que nossos corpos merecem ser narrados, que nossos afetos merecem ser celebrados e que nossas histórias têm lugar no mundo.
Fake news e a disputa pelas narrativas
À medida que nos aproximamos de um novo ciclo eleitoral, a tendência é que a polarização se intensifique e que temas relacionados à sexualidade, gênero e diversidade sejam novamente instrumentalizados para mobilizar o conservadorismo. Nos últimos anos, a extrema direita utilizou com enorme eficácia a disseminação de fake news. Narrativas falsas, como o “kit gay”, foram construídas para provocar pânico moral, transformando a existência de pessoas LGBTQIAP+ em ameaça imaginária.
Essas mentiras também são, assim como os ataques às artes, uma disputa de narrativas. Da mesma maneira que um livro é apresentado como perigo, ou uma exposição como afronta moral, nas eleições surge a ameaça do kit gay. O objetivo é impedir que narrativas baseadas na realidade e na experiência concreta das pessoas LGBTQIAP+ circulem com legitimidade.
Por isso, o combate à desinformação é uma tarefa do campo cultural intrinsecamente conectada ao debate político. Significa fortalecer redes de checagem, o jornalismo comprometido com os direitos humanos, ampliar a educação midiática, exigir responsabilidade das plataformas digitais e, sobretudo, produzir nossas próprias narrativas.
Isso também significa que as pessoas LGBTQIAP+ precisam habitar o campo das eleições com artistas, linguagens, estéticas próprias, reafirmando nosso universo simbólico. Vamos combater o pânico moral e a desinformação, mas sem nos esconder. Vamos disputar sentidos, afetos e imaginários.
A extrema direita disputa narrativas por meio da censura e da mentira. Nossa resposta precisa ser ainda mais potente, produzindo arte, literatura, conhecimento e verdade.
A extrema direita disputa narrativas por meio da censura e da mentira. Nossa resposta precisa ser ainda mais potente, produzindo arte, literatura, conhecimento e verdade. Contar nossas histórias é um ato de resistência. Toda vez que uma pessoa LGBTQIAP+ escreve um poema, publica um livro, sobe ao palco ou realiza um filme, ela desafia um projeto político que preferiria vê-la em silêncio.









