Como o fascismo funciona hoje: uma reflexão sobre Trump como Jesus Cristo.
Publicado em: 1 de maio de 2026
A imagem de um jovem Donald Trump, colocando a mão na testa de um homem doente ou à beira da morte, já foi sepultada no cemitério dos memes. Quando você ler este texto, outra já terá tomado o seu lugar, e depois outra, e assim por diante. Esse é um dos objetivos desta enxurrada de imagens geradas por IA: desviar a atenção. Ao dar atenção a ultrajes óbvios — a suposta blasfêmia de uma imagem de Trump como Jesus Cristo —, o público tende a ignorar problemas maiores, porém menos divulgados, como o afrouxamento dos limites de emissão de poluentes, os cortes em pesquisas sobre doenças e, claro, a guerra. Mas há outra estratégia de comunicação igualmente importante em ação, e ela está bem à vista de todos: a insipidez ou o apelo kitsch. Essa é a linguagem do fascismo hoje em dia.
Iconografia
Apesar de toda a controvérsia que gerou, o meme é pouco coerente. Trump veste uma toga branca folgada por baixo de um poncho vermelho, embora este último se assemelhe tanto a um quimono (por ter mangas) quanto a um típico suéter de jogador de golfe colocado descontraidamente sobre os ombros. Raios de luz emanam da cabeça do homem deitado, sugerindo que ele seja a figura sagrada e Trump apenas um enfermeiro ou auxiliar de enfermagem verificando a temperatura do paciente. O presidente segura uma esfera de luz na mão esquerda, como as “fadas do Nunca” da Disney, que capturam e seguram raios de sol.
Ao redor do homem doente ou à beira da morte, há outras quatro personagens. No sentido horário, a partir do canto superior esquerdo: um homem de meia-idade com boné de beisebol, barba e bigode brancos bem aparados – no vocabulário queer, um “daddy” ou um “urso”; um fuzileiro naval jovem e barbeado; uma jovem enfermeira – minúscula em comparação com o gigantesco Trump; e outra jovem sem ocupação aparente, com cabelos castanhos repartidos ao meio. Mulheres de meia-idade ou mais velhas não foram convidadas para esta festa — o que não surpreende, considerando o anfitrião. As mãos direitas enrugadas, à esquerda e à direita da imagem, sugerem dois outros homens aparentemente ajoelhados, com as cabeças abaixo do nível da cama do hospital. Será que são enfermeiros limpando o chão com a outra mão?
Por fim, temos os soldados flutuando no céu, como as tropas de Napoleão entrando em Valhalla na famosa pintura de 1801 de Girodet-Trioson. O do meio parece estar em retirada e vestido de drag, usando uma coroa como a da Estátua da Liberdade e carregando dois estandartes. Também neste céu movimentado, há um par de águias-carecas e três caças arriscando se chocarem no ar ou colidirem com os pássaros. Abaixo, estão a Estátua da Liberdade, o Lincoln Memorial e outro edifício de aparência clássica ao fundo à esquerda – possivelmente uma representação bagunçada do Capitólio dos EUA gerada por inteligência artificial. A razão pela qual a imagem foi controversa é porque foi entendida por alguns cristãos como blasfêmia. De acordo com os quatro evangelhos canônicos, Cristo curava os enfermos regularmente: “E percorria Jesus todas as cidades e aldeias, ensinando nas sinagogas deles, e pregando o evangelho do Reino, e curando todas as enfermidades e moléstias entre o povo” (Mateus 4:23). Seus pacientes sofriam de hidropsia (edema), paralisia, cegueira e lepra. Jesus também ressuscitou os mortos. Não é correto representar um político – até mesmo um presidente – como Cristo. O primeiro dos Dez Mandamentos diz: “Não terás outros deuses além de Mim”. Um presidente que irradia luz e cura por meio do toque é um presidente santo.
A associação de Jesus com um médico ou curandeiro é fundamental para a iconografia pictórica cristã. Entre as representações mais antigas de Jesus, anteriores até mesmo às cenas da crucificação, está a de um curandeiro. A Catacumba de Pedro e Marcelino em Roma (século IV d.C.) contém um afresco que ilustra um episódio do livro de

Marcos (o primeiro evangelho): “E certa mulher que, havia doze anos, tinha um fluxo de sangue. E que havia padecido muito com muitos médicos, e despendido tudo quanto tinha, nada lhe aproveitando isso, antes indo a pior.” (Marcos 5: 25-26). Após se ajoelhar e tocar a bainha da toga de Cristo, ela foi curada.
Mais de mil anos após a pintura da Catacumba, o tema ainda estava muito enraizado na iconografia cristã. Existem inúmeros exemplos, incluindo Cristo Curando o Cego (c. 1570), de El Greco, no Metropolitan Museum of Art, em Nova York, que ilustra as passagens de João (9:1-41) e de Marcos (8:22-26). A obra compartilha com o meme de Trump a razão da mão tocar a testa, junto da arquitetura clássica e do céu ao fundo – mas sem caças da Força Aérea.

Dado que frequentemente Trump promete criar um plano de saúde melhor que o Obamacare, é compreensível que ele afirme que o meme controverso se refira à sua capacidade médica, e não espiritual. Ele falou a um entrevistador: “Supostamente, é para ser [eu], como médico, curando as pessoas. E eu realmente as curo. Realmente as curo.” Segundo o presidente, a imagem o mostra curando milagrosamente o “povo” americano – o corpo político – e não apenas uma única pessoa deitada.
Poucos dias depois, Trump contradisse seus próprios protestos contra a acusação de blasfêmia ao publicar outro meme. Desta vez, ele não era Jesus, apenas um homem escolhido e tocado por Jesus. Trata-se de um retrato duplo, na altura do busto, de Jesus com uma toga branca, com o braço esquerdo estendido ao redor do ombro do presidente e a mão direita em seu peito. Assim como os de Cristo, os olhos de Trump estão fechados ou voltados para baixo, como se estivesse em oração ou dormindo. (A fonte desta foto de Trump deve ter vindo de uma reunião de gabinete). O aspecto enevoado da imagem é intencional – ou Trump sonha com Cristo, ou Cristo sonha com Trump.

Em termos de composição, a segunda imagem assemelha-se à Italia und Germania (1828), de Friedrich Overbeck, uma pintura que celebra a suposta proximidade entre estas duas culturas. Durante a década de 1930, a obra tornou-se um símbolo da aliança germano-italiana, nórdica-mediterrânica, nazista e fascista. Foi também usada como um exemplo da arte alemã saudável, em contraste com a arte “entartete” (“degenerada”) de modernistas como Picasso, Chagall e Modigliani.

Protótipo nazista para o curandeiro e salvador
Embora muitos líderes nacionais e ditadores tenham usado a linguagem da medicina e da salvação como metáforas políticas, poucos o fizeram tão frequentemente ou de forma tão impactante quanto Adolf Hitler. Ele era descrito como o “arzt der Deutschen volk” (médico do povo alemão) e gostava de ser fotografado colocando as mãos sobre os doentes ou feridos, acariciando as mãos ou as cabeças de crianças pequenas e, em pelo menos um caso, verificando o pulso de uma criança. Em sua autobiografia e manifesto, Mein Kampf (1925), Hitler escreveu sobre a “doença social”, a “doença moral”, a “doença política” e a “doença hereditária”. Era tarefa do verdadeiro líder – o próprio Hitler – “reconhecer a natureza da doença… e realmente tentar curá-la”.

Hitler e seus seguidores transformaram essas metáforas em realidade. Eles acreditavam que judeus, bolcheviques, homossexuais, ciganos, doentes mentais e deficientes físicos eram uma praga para a nação e precisavam ser exterminados – fosse por meio de genocídios, de eutanásias (o cruel assassinato de pessoas com deficiências ou doenças hereditárias) e de esterilizações forçadas. E assim como Hitler se via como médico, também se considerava o salvador do povo e da nação alemã. “Somos, sem dúvida, poucos em número”, escreveu ele em 1919, logo após deixar o serviço militar: “Mas certo dia um homem se levantou na Galileia, e hoje seus ensinamentos dominam o mundo inteiro”. Um tempo depois, ele profetizou que, após sua morte, seria descrito como: “Um homem que nunca capitulou, que nunca desistiu, que nunca fez concessões, que conhecia apenas um objetivo e o caminho para alcançá-lo, que tinha uma grande devoção chamada ‘Alemanha’”. O que Cristo começou, escreveria este biógrafo imaginário do futuro, “Hitler alcançaria”.
A associação de Trump com Hitler – como a clara apropriação dos discursos do Führer – está bem documentada. Em 2024, em um comício do Dia dos Veteranos em New Hampshire, Trump prometeu “erradicar os comunistas, marxistas, fascistas e bandidos da esquerda radical que vivem como vermes dentro dos limites de nosso país”. Hitler escreveu em Mein Kampf: “[O judeu] mantém-se como um eterno parasita, um parasita que, como uma bactéria terrível, se espalha cada vez mais assim que um meio favorável o permita fazê-lo.” Duas décadas depois, perto do fim da Segunda Guerra Mundial, Hitler fez um balanço dos anos anteriores e resumiu seus objetivos: “Exterminar os vermes em toda a Europa”.
Insipidez ou kitsch como forma e significado
O discurso do presidente de 2024 sobre “vermes” e outros semelhantes – assim como os memes atuais de Trump/Jesus – são provocações, o que terapeutas infantis chamam de “comportamentos de busca por atenção”. Para Trump e seu regime, são também um jogo de dissimulação, como sugerido anteriormente, uma manobra de desinformação que esconde alguns dos programas e políticas mais perversos que o país já conheceu. Mas as redes sociais e outras imagens de Trump também devem ser entendidas como parte de um aparato representacional maior que engloba retratos presidenciais, faixas, comícios, pôsteres, selos, moedas, a decoração dourada da Casa Branca, o salão de baile planejado, o arco do triunfo e os NFTs. Estes últimos incluem representações bregas e absurdas do presidente corpulento e quase octogenário como caubói, rei, mafioso, boxeador, motociclista e herói de ação.
Uma campanha recente do Ministério do Trabalho nas redes sociais é igualmente brega e desprezível. Ela apresenta imagens – perfeitas para a impressão em pôsteres — de trabalhadores e suas famílias, em sua maioria homens brancos e loiros. Remetendo às pinturas de Norman Rockwell, aos pôsteres nazistas e ao realismo socialista soviético, essas imagens sugerem que o futuro em breve se assemelhará a um passado americano imaginário de patriarcado inquestionável, patriotismo, fé cristã, supremacia branca e famílias conjugais (nucleares). Assim como os memes de Trump/Jesus, essas campanhas atraíram uma publicidade negativa considerável.

Todas essas imagens consagram estereótipos e clichês, ou, em uma palavra, kitsch – e todos têm noção disso. Elas convidam as pessoas a acreditarem que foram apresentadas a uma estratégia de mídia – como de fato foram. São pessoas que participaram de uma piada contada às custas de outros: democratas ou políticos progressistas, negros, latinos, imigrantes, LGBTQIA+ ou mulheres. A estigmatização é clara para todos.
A cruzada ofensiva e insípida de memes de Trump, portanto – assim como sua decoração kitsch da Casa Branca, seu gigantesco salão de baile, seu arco do triunfo e todo o resto – cumpre seu papel ideológico não pedindo às pessoas que admirem ou aceitem a mensagem ofensiva, mas convidando-as a compreenderem o jogo que está sendo jogado, para melhor satisfazerem suas capacidades individuais de discernimento estético e político. Em suma, pede-se que se alienem com obras e as naturalizem. É assim que o fascismo entra na casa da democracia capitalista – pela porta da frente.
O que Trump e seus cúmplices desencorajam é qualquer crítica às políticas do presidente ou à sua própria persona, exceto talvez uma leve reprovação às suas artimanhas. E é por isso que o meme de Trump como Jesus Cristo foi rapidamente retirado de circulação – ele não conseguiu ser totalmente insípido. Enquanto o kitsch oferece fluidez (falsa resolução de contradições), essa imagem, como sugerido anteriormente, era estranha e dissonante, remendada como uma colcha de retalhos. Suas personagens eram difíceis de identificar; seus clichês ameaçavam colidir entre si – como as águias-carecas e os caças. Seu significado religioso era pior do que ofensivo – era indefinido. A imagem fascista deve ser íntegra e completa; esta era fragmentada. Assim, o próprio regime, atolado em uma guerra estrangeira, sobrecarregado pelos elevados preços, reduzido acesso da população à saúde e aumento das taxas de seguro, corre o risco de sofrer com a ira ou, pior, com o afastamento de seus fiéis.
Stephen F. Eisenman é professor emérito da Northwestern University e pesquisador honorário da University of East Anglia. É autor de doze livros, sendo o mais recente (em coautoria com Sue Coe) intitulado “The Young Person’s Illustrated Guide to American Fascism” (OR Books, 2014). É também cofundador da Anthropocene Alliance. Stephen aceita comentários e respostas pelo e-mail [email protected].
Traduzido por Anderson M. Santana, do Esquerda Online









