Correlação de forças: entre a análise e a ação


Publicado em: 28 de abril de 2026

Coluna Paulo Pasin

Paulo Pasin é metroviário aposentado do Metrô de São Paulo (SP) e ex-presidente da Fenametro (Federação Nacional dos Metroviários).

Coluna Paulo Pasin

Paulo Pasin

Paulo Pasin é metroviário aposentado do Metrô de São Paulo (SP) e ex-presidente da Fenametro (Federação Nacional dos Metroviários).

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Crédito Paulo Pinto/Agência Brasil
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Uma caracterização precisa e objetiva das relações de forças, considerando os diversos momentos e graus intrínsecos à sua composição, é fundamental para definir ações políticas, estratégias e táticas adotadas pela classe trabalhadora e seus aliados. No entanto, dois equívocos comuns devem ser evitados.

Por um lado, é comum superestimar a força da nossa classe e de seus aliados e subestimar a dos inimigos, propondo ações e políticas descoladas da realidade e separando, assim, os elementos politicamente ativos do conjunto da classe. Essa é uma marca registrada das organizações da “esquerda radical” que, enfrentando dificuldades para ter relevância na luta social porque suas propostas não são aceitas pela classe como um todo, preferem concentrar o debate na questão subjetiva (direção), em detrimento dos elementos objetivos. Alegam elas que a luta não progride simplesmente porque as direções não querem; contudo, a questão revela-se mais complexa do que se imagina. Numerosos são os entraves ao avanço da luta, abrangendo direções reformistas e burocratizadas, mas também outros fatores objetivos e subjetivos. Desconsiderar isso é minimizar a relevância da Frente Única dos trabalhadores e da união em prol da classe trabalhadora contra seus inimigos.

Para esses indivíduos radicalizados, o imperialismo está à beira do abismo e o bolsonarismo está enfraquecido e próximo de ser derrotado, não havendo mecanismos de dominação ideológica de classe ou de repressão que possam atrasar a chegada da revolução; basta que as massas ouçam os ensinamentos dos “autênticos revolucionários”. Como escreveu Trotsky no artigo Sectarismo, Centrismo e a IV Internacional: “Quem não é capaz de transcender oportunamente os limites desta existência limitada se transforma em um sectário conservador. Para o sectário, a vida social é uma grande escola e ele seu professor. Em sua opinião, a classe operária deveria deixar de lado as questões de pouca importância e agrupar-se ao redor de sua tribuna professoral. Assim as tarefas se realizariam”.

Por outro lado, outra abordagem igualmente falha, mas com orientação oposta, consiste em transformar o debate sobre análise e caracterização da correlação de forças em um fim em si mesmo, servindo, por vezes, como pretexto para não implementar medidas mais estruturais contra o grande capital, devido ao caráter de conciliação de classes do atual governo.

Embora relacionadas, análise, caracterização e política são categorias distintas. A mera análise e caracterização da correlação sem ação política pode conduzir a uma perspectiva catastrofista. De acordo com Lênin, a correlação de forças deve ser determinada por meio de uma análise detalhada da realidade, uma avaliação concreta de uma situação concreta, mas não é estática; é dinâmica, e alterá-la requer ação política consciente, organização e intervenção oportuna, em vez de simplesmente aguardar condições ideais. Isto significa que desenvolver os aspectos positivos e neutralizar os negativos para a nossa classe exige uma ação planejada, tornando relevante iluminar as mobilizações emergentes para expandi-las.

Escreve Gramsci: “Lê-se com frequência, nas narrações históricas, a expressão genérica: relações de força favoráveis, desfavoráveis a esta ou àquela tendência. Assim, abstratamente, esta formulação não explica nada ou quase nada, pois não se faz mais do que repetir o fato que se deve explicar, apresentando-o uma vez como fato e outra como lei abstrata e como explicação. Portanto, o erro teórico consiste em apresentar um princípio de pesquisa e de interpretação como uma ‘causa histórica'”.

“Leninismo não é avançar, avançar, avançar, a qualquer custo, não importando os riscos. Mas não é tampouco quietismo, cuidado, cuidado e mais cuidado”

Ao analisar situações complexas que envolvem várias relações de força, é essencial discernir antes de reduzi-las a uma simples relação de força favorável ou desfavorável. No contexto político atual, é essencial “discernir” e “precisar” que, após a restauração do capitalismo na ex-URSS e no Leste Europeu, e perante a ofensiva imperialista neofascista para enfrentar as múltiplas crises do sistema capitalista, a “arte da política revolucionária” está em encontrar reivindicações transitórias, anticapitalistas e ecossocialistas adequadas para este momento histórico que mobilizem a classe trabalhadora e os oprimidos, sendo crucial ter habilidade e flexibilidade tática para avançar e recuar em consonância com as massas, sem se separar delas, como fazem os “ultras”. Como escreveu Valério Arcary na revista Jacobin, em 22/04/2025: “Leninismo não é avançar, avançar, avançar, a qualquer custo, não importando os riscos. Mas não é tampouco quietismo, cuidado, cuidado e mais cuidado”.

Décadas de democracia liberal burguesa nos levam a esquecer que, mesmo sob a repressão violenta da ditadura militar, onde uma simples distribuição de panfletos convocando para o Primeiro de Maio poderia resultar em prisão e tortura, a vanguarda da classe trabalhadora resistia clandestinamente, utilizando todos os meios possíveis (igrejas, festas familiares, associações culturais, clubes de futebol de várzea, abaixo-assinados em sessões sobre questões mínimas, comunidades de bairro, escolas e universidades, etc.). Assim sendo, quando as greves do ABC irromperam, elas também foram consequência de uma jornada edificada com paciência e perseverança.

Não obstante a gravidade da situação atual, as mudanças no regime político brasileiro ainda são de ordem quantitativa e não qualitativa; vale dizer, não estamos sob uma ditadura, o que nos permite atuar dentro da legalidade (nos sindicatos, no parlamento e nas organizações dos movimentos populares) para difundir ideias revolucionárias em larga escala junto à classe trabalhadora. É imperativo que procedamos com determinação enquanto essa possibilidade ainda existe. Conforme mencionado anteriormente, a identificação e participação ativa em mobilizações que gerem avanços, mesmo que mínimos, são essenciais.

Houve lutas até no movimento sindical, que não está passando por um bom momento. O DIEESE registrou 1.006 greves no Brasil em 2025, um aumento de 14% em relação às 880 mobilizações de 2024. Atualmente, mais de 50 universidades encontram-se em greve, os funcionários da USP realizaram uma vitoriosa paralisação e os estudantes continuam em greve, além de diversas mobilizações de servidores públicos nas três esferas do governo — em grande parte motivadas pela aprovação do “Descongela” e “Somos todos professores” —, do Breque dos Apps e do envolvimento da sociedade no debate sobre o 6×1. É importante lembrar que desde 1988 não houve redução na jornada de trabalho no Brasil, sendo que naquela época a redução foi exatamente nas mesmas 4 horas agora propostas. Isso evidencia que a relação entre correlação de forças e caráter da reivindicação não é formal, mas sim dialética. Quem imaginaria que uma ousada, mas solitária, campanha para vereador no Rio gerasse um debate sobre Vida Além do Trabalho, com repercussão internacional? Pedro Sánchez, presidente da Espanha, citou a luta por vida além do trabalho no Encontro Internacional em Barcelona. Uma perspectiva política rotineira sugeriria que essa pauta deveria ser discutida em um contexto político mais conveniente, ou seja, quando a “correlação de forças” política fosse mais benéfica.

É evidente que, como sucede com qualquer conquista, caso seja efetivada — o que exige imenso esforço da classe trabalhadora no contexto atual do capitalismo, onde há uma tendência global de concentração de capital mediante a espoliação dos trabalhadores —, pode constituir um avanço temporário. Tal cenário se complica com a previsão de um contra-ataque patronal se a “pejotização ampla, geral e irrestrita” for aprovada no STF. Ainda assim, fica o aprendizado de que somente mediante a luta se promovem mudanças na vida e se valoriza a organização.

A mesma lógica se aplica à nossa luta contra as privatizações no Estado de São Paulo. Realizamos uma corajosa greve política e um plebiscito popular contra a privatização da SABESP, CPTM e Metrô, sendo que apenas a ameaça relativa ao Metrô não se concretizou. As privatizações da SABESP e da CPTM foram efetivadas, mas as ações de massa que levamos a cabo permitem que a denúncia da má qualidade dos serviços e das tarifas altas tenha maior repercussão.

Em síntese, diante do neofascismo imperial, não basta apenas resistir; é fundamental impulsionar propostas avançadas que inspirem nossa classe, especialmente a juventude.


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