Manifesto do Festival de Cultura e Resistência Antirracista


Publicado em: 11 de novembro de 2025

Comissão Organizadora do Festival Antirracista

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Nossos passos vêm de longe: das que ergueram os quilombos e arrancaram a abolição com as próprias mãos; em 2015, na Marcha das Mulheres Negras,  parte das vozes que abriram caminhos quando o país insistia em fechar portas. Na pandemia, enquanto o presidente genocida nos negava vacina, nós fomos às ruas e construímos redes de solidariedade para dizer que não morreríamos nem de fome, nem de bala, nem de covid. Viemos lembrar que não há democracia com racismo, não há justiça sem a escuta das mulheres negras, das mães que perdem seus filhos para a bala do Estado, das travestis e pessoas trans, das LGBTs negras que fazem da existência um ato político. Em tempos de ofensiva da extrema direita e do supremacismo branco e racista, estamos no front antirracista nos levantando em todo mundo!

Reunidos neste Festival de Cultura e Resistência Antirracista, afirmamos que nós temos um projeto de vida para o povo brasileiro. Nos levantamos contra o consórcio da morte e as chacinas para  apresentar alternativa para bem viver, porque o tempo da reparação é agora. –  Exigimos a aprovação da PEC da Reparação, não como favor, mas como um primeiro passo no cumprimento de um dever histórico — uma política de Estado que reconheça o que foi arrancado e construa o que ainda nos falta. Lutamos contra a escala 6×1, porque o povo negro e trabalhador precisa de tempo para viver, amar e criar. Defendemos tarifa zero, porque  transporte público é direito, e quem não pode se mover, não é livre.

A luta pela titulação das terras quilombolas é urgente: mais de 1,3 milhão de quilombolas ainda vivem sem o reconhecimento formal de seus territórios. Embora o governo tenha destinado 120 mil hectares em 2024, o ritmo atual levaria mais de dois milênios para garantir todos os direitos pendentes. Titular é reparar!

Também afirmamos nossa responsabilidade com a agenda de justiça climática, especialmente em tempos de COP30. A crise climática não é neutra: ela tem cor, classe e endereço. O racismo ambiental é uma realidade que massacra nosso povo com secas severas, enchentes, deslizamentos e eventos climáticos extremos cada vez mais graves.   Defender o direito à terra,  a reforma agrária  é defender o povo negro, indígena e periférico que sempre soube cultivar equilíbrio e cuidado. Construir uma reforma urbana, que garanta o direito à moradia digna para cada brasileiro. Proteger e valorizar povos e comunidades tradicionais de religiões de matriz africana, que são responsáveis por proteger nossas matas e florestas e por apresentar um outro modo de relação com a natureza, de Bem Viver. Falamos em soberania nacional para lembrar que a independência só será plena quando as decisões deste país nascerem das vozes do povo, e não das mãos do capital.

O povo negro ainda é vítima de um verdadeiro genocídio: quase 90% das vítimas da letalidade policial são negras, e entre elas, a juventude negra é a que mais sangra — alvo preferencial de um Estado que insiste em negar-lhes o direito à vida, ao futuro e à liberdade. 

Quantos mais tem que morrer pra essa guerra acabar? Exigimos o fim da violência racial e policial e a presença verdadeira do Estado em nossas comunidades — com saúde, educação, cultura e oportunidades dignas. Rejeitamos um Estado que só aparece com fuzis nas mãos: o povo negro não pode seguir refém do crime organizado nem de um Estado que perpetua chacinas e nega nossa humanidade. Denunciamos a violência política de gênero e raça que matou Marielle Franco — mulher negra, favelada, bissexual, símbolo de uma geração que não se cala. Marielle é semente, não exceção. Cada mulher negra, cada corpo dissidente, cada trabalhador que sonha com justiça social carrega em si a política do cuidado e da reconstrução.

Afirmamos nossa luta antirracista e internacionalista, por uma Palestina livre e por um mundo que que não colonize nem África nem as Américas. Este manifesto é um chamado: por uma bancada negra em 2026, que leve para o Senado, o Congresso e para as assembleias estaduais a voz coletiva das ruas, das quebradas, das periferias, dos assentamentos e dos quilombos rurais e urbanos. Nenhum minuto de paz aos inimigos da liberdade!

Enquanto houver desigualdade, haverá resistência.

E que ela siga sendo negra, feminina, trans, periférica — e profundamente brasileira.


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