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BRASIL

A propósito dos delírios fracionalistas do MES

Uma resposta ao texto do Bruno Magalhães publicado na Revista Movimento

Deborah Cavalcante*, Henrique Iglecio* e Jorge Badauí*
Carlos Osório

Bandeira da Resistência, em caminhada em Porto Alegre (RS), em 2018

Bruno Magalhães, dirigente do MES/PSOL, escreveu um artigo revelador do método destrutivo e desleal acionado recorrentemente por sua corrente nas polêmicas e disputas internas na esquerda e no PSOL. É o método do vale tudo: falsifica posições, utiliza declaração oral de dirigentes em reunião internacional fechada a organizações trotskistas, lança suspeita sobre a moral de lideranças com décadas de militância revolucionária, como Valerio Arcary, e atribui argumentos políticos falsos às posições da Resistência/PSOL.

A intenção do dirigente do MES não é a de polemizar a sério com as posições políticas de outra corrente socialista do PSOL ou de colocar ideias à prova, o que é sempre saudável e bem-vindo. Não é assim que funciona o MES. O objetivo de Bruno é o oposto disso: causar confusão entre a vanguarda, entre os filiados do PSOL, para provocar discórdia entre os membros da organização com a qual polemiza. Para isso, lança mão de instrumentos desleais, diversionistas e nocivos no debate de diferenças políticas no interior da esquerda.

Especificamente em relação a colocar em causa a “sinceridade” de Valerio Arcary, trata-se de um ataque mais além de um argumento ad hominem. É um esforço, já sistemático e repetitivo, de colocar em cheque sua reputação, para desmoralizar suas ideias – o que não tem nada que ver com buscar demonstrar que elas estão erradas. É o método da desmoralização, de estimular a desconfiança para com o interlocutor, novamente em uma postura indigna de revolucionários sérios. Valério Arcary é o oposto disso: um dirigente sério e dedicado à luta revolucionária por mais de três décadas. Valério ensina às novas gerações sobre a importância de perseguir incansavelmente uma interpretação da realidade para a ação na luta de massas, o que em outros termos é a luta para tirar o trotskismo da marginalidade. Sua escrita é polêmica, rigorosa e educativa.  A resistência e toda sua militância tem orgulho de atuar nas mesmas fileiras que Valério Arcary e não medirá esforços na defesa de sua moral revolucionária.

Mas deve valer mesmo tudo no debate polêmico entre dirigentes e correntes revolucionárias? E na luta desesperada por ganhar a maioria no PSOL? Em nossa opinião, não. O arsenal de provocações e insinuações de que se vale o texto de Bruno corresponde a um debate de baixíssimo nível que deseduca e desagrega a vanguarda. Vivemos um período desafiador para o marxismo revolucionário, em que a marginalidade e as disputas fratricidas levam a terrível fragmentação.

A existência de diferentes opiniões e o exercício de pôr à prova tais opiniões perante a realidade e extrair balanços não pode ser confundido com um jogo sobre verdades e mentiras, digno de um jornal de fofocas sensacionalistas. A Resistência se recusa a descer a esse nível. 

Não há nada mais precioso do que sua moral para um revolucionário, do que sua palavra e sua ação. É o que se exige resgatar junto às novas gerações que despertam para luta política em uma realidade em que os horizontes ideológicos seguem profundamente afetados pela derrota histórica provocada pela restauração do capitalismo nos ex-estados operários. Em um contexto de fragmentação e marginalidade, em que as forças revolucionárias seguem reduzidas a pequenos agrupamentos de limitadíssima inserção de massas, é um fenômeno bastante comum que pequenos grupos socialistas considerem razoável reforçar seus elos internos através da autoproclamação de que são mais revolucionários que a pequena organização ao lado. A metodologia desleal de pescar em águas turvas é basicamente destrutiva para o marxismo revolucionário como um todo.

Em síntese, Bruno Magalhães insinua que a Resistência pode estar mentindo em um trecho recortado de uma declaração oral em uma reunião. É nesse ponto que a discussão, que tenta aparecer como “legítimo debate de ideias”, se desloca para o campo do levantamento de suspeitas morais. E é infrutífero apostar que alguma discussão sob essas bases possa levar ao esclarecimento de alguma questão séria.

O verdadeiro debate político polêmico entre a Resistência e o MES não começou nas últimas semanas e está fartamente documentado. Ele remete à interpretação do processo em que a burguesia brasileira derrubou Dilma Rousseff, dando início a uma brutal ofensiva sobre as conquistas da classe trabalhadora. Passou pela visão sobre o caráter da Operação Lava Jato e do juiz Sérgio Moro; pelo significado do antipetismo, pelo entendimento da situação política aberta com a eleição de Bolsonaro e por qual é a estratégia para combater o neofascismo – em outras palavras, pela validade da tese da Frente Única de Esquerda. Mais recentemente, passou pela questão da federação do PSOL com a Rede, em que o MES se posicionou ao lado das correntes majoritárias do PSOL e a Resistência se posicionou com as correntes da Oposição. Em nenhum desses momentos, a independência de classe foi critério para as posições políticas do MES.

Aos militantes e ativistas sérios e genuinamente interessados em conhecer essas discussões, recomendamos os seguintes textos:

Sobre os pontos chave das diferenças com o MES, que levam à localização distinta no PSOL:

https://esquerdaonline.com.br/2021/07/30/sem-a-analise-da-realidade-nao-chegaremos-a-lugar-nenhum/

Sobre a federação do PSOL com a Rede Sustentabilidade e Marina Silva:

Posição da Resistência contrária à Federação:

https://esquerdaonline.com.br/2022/03/29/o-psol-nao-deve-aprovar-a-federacao-com-a-rede/

Posição do MES favorável à Federação:

https://movimentorevista.com.br/2022/03/sobre-a-federacao-psol-e-rede/

A posição da Resistência sobre a tática eleitoral em 2022 está posta em mais de 20 artigos no EOL, mas divulgamos aqui dois deles:

https://esquerdaonline.com.br/2022/03/12/o-psol-deve-lutar-por-uma-frente-com-o-pt/
https://esquerdaonline.com.br/2022/02/16/um-governo-sem-golpistas-para-um-brasil-sem-golpe-lula-sim-alckmin-nao/

Bruno e sua corrente não terão sucesso algum em sua empreitada destrutiva. Ao inverso: um artigo como esse do MES só torna mais evidente, ao conjunto da militância socialista, a degeneração metodológica dessa corrente. É como tentar atravessar o Rio Amazonas a nado e contra a maré.

Quanto ao convite do MES para mergulharmos juntos no pântano da enfermidade fracionalista fica, nesta nota, recusado.

* Integrantes da Coordenação Nacional da Resistência/PSOL.