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Eleições de 2022 e redes sociais: quatro observações

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

Existem vários fenômenos que explicam a vitória de Bolsonaro em 2018. Um deles foi o uso que sua campanha fez das redes sociais. Em 2022, a Internet será definitivamente a mídia que mais vai influenciar as eleições. Não podemos ser pegos de surpresa outra vez. 

Mais de três anos depois, muita coisa mudou no meio virtual. Não podemos pensar que tudo que aconteceu nas últimas eleições vai se repetir. Não é possível prever como será a batalha eleitoral na Internet. Mas já dá para fazer quatro observações:

Acabou o amadorismo nas redes sociais 

Windersson Nunes era um jovem do Piauí que na década passada fazia vídeos para o Youtube em sua casa. O cenário era seu quarto, a câmera era a de seu celular, a edição era simples e o material que ele produzia era uma série de piadas sobre o cotidiano. Ele se tornou o maior fenômeno da Internet brasileira e hoje tem milhões de seguidores, sendo uma grande celebridade. Quais as chances de isso acontecer em 2022? Bem menores do que quando o youtuber começou sua carreira. 

Em primeiro lugar, as redes sociais mudaram. A principal página de Facebook que impulsionou as grandes mobilizações no Egito há cerca de 10 anos era a do movimento 6 de abril, com 70 mil “likes”. O MBL, principal organizador do movimento pelo impeachment de Dilma em 2015, começou com uma página de 10 mil “likes”. Nos dois casos, as fan pages conseguiram mobilizar um público grande e crescer de forma rápida. 

Mas hoje, com um perfil de 50 mil seguidores no Instagram ou no Facebok não é possível pautar um debate nacional. Em 2012, se alguém tivesse 100 mil “likes” no Facebook, qualquer postagem chegaria automaticamente a cerca de 25 mil usuários. Hoje não chega nem a mil. Em resumo, os algoritmos criaram dificuldades para que um influenciador pequeno cresça. 

E a internet se tornou totalmente dependente de algoritmos, que são os programas que decidem pela pessoa o que vai aparecer em sua tela. As redes sociais antigas, como o Facebook, tinham mais opções de comandos e configurações, dando uma certa autonomia ao usuário. As novas redes sociais, como o Tiktok, são diferentes. Por exemplo, no Tiktok não é possível salvar um vídeo para ver depois ou montar uma lista de vídeos, como no Youtube. Via de regra, o usuário só vê aquilo que o algoritmo empurra até ele. O Instagram funciona de forma parecida. 

Em resumo, a internet está se tornando uma “televisão”, onde o usuário só tem a opção de ver ou não ver o que é empurrado até ele. Para este tipo de conteúdo funcionar, é necessário estimular emoções fortes e não a capacidade de raciocínio. E em geral são emoções egoístas. Esta estrutura de consumo favorece o discurso individualista e preconceituoso. Mas não é só isso. Estudos mostram que os algoritmos favorecem descaradamente conteúdos de direita. Qual deve ser a ideologia política preferida dos bilionários donos das grandes empresas de tecnologia? O Facebook, por exemplo, excluiu a mídia progressista de suas parcerias. 

Em um ambiente hostil, não se pode agir de forma amadora. Não se faz mais um vídeo em casa com o celular esperando ter milhões de visualizações. As chances de isso acontecer são pequenas. No Tiktok, o algoritmo ainda é “generoso” com influenciadores pequenos, mas mesmo assim não compensa agir de forma espontânea e querer se transformar no próximo Windersson Nunes. 

Nossos inimigos se tornaram mais profissionais. Aquela comentarista tosca que espalha Fake News sobre a vacina não ficou famosa do nada. Existe uma máquina de distribuição de conteúdo sob o comando do bolsonarismo. Em alguns casos, os “digital influencers” são ajudados com consultorias ou têm pequenas equipes. 

Qual a conclusão disso? O trabalho na internet só é eficiente se for planejado e organizado de forma coletiva. O “achismo” deve ser trocado pela pesquisa com rigor científico. Já existe uma produção teórica sobre as redes sociais, que deve ser lida. O produtor de conteúdo tem que ter um domínio razoável da ferramenta antes de usá-la. É necessária uma estrutura mínima de recursos para começar um trabalho. A esquerda já está muito atrasada em montar seu “gabinete do ódio ao fascismo”. Faz muita falta uma “Cambridge Analytica vermelha”. 

Ainda haverá casos de jovens que se tornam fenômenos a partir vídeos feitos espontaneamente. Mas não será isso que vai vencer a disputa de narrativas. Acabou a época em que dava para dominar a Internet com um celular na mão e uma ideia na cabeça. 

 

Instagram é a principal rede. TikTok e Telegram estão em ascensão 

O Facebook ainda é a rede social com o maior número de usuários no Brasil. Quem já tem uma página consolidada não pode abandonar o trabalho. Mas o Instagram se tornou a rede social com maior engajamento. Quem investir nela agora pode colher frutos nas eleições. 

O Youtube ainda tem grande importância, especialmente por dar dinheiro aos produtores de conteúdo, que ficam com parte do que é arrecadado em anúncios. No entanto, o Tiktok está em forte ascenso. Cresceu de modo fabuloso durante a pandemia e já tem 1 bilhão de usuários, sendo a terceira maior rede social do mundo.  Quem quer se candidatar a algum cargo em 2022 e ainda não tem um perfil no aplicativo já está em desvantagem. 

A rede social chinesa tem forte engajamento na juventude e com certeza vai inflamar a disputa política de 2022 com sua linguagem simples e informal. E não é só de dancinhas que vive o Tiktok. As empresas de jornalismo já produzem conteúdo para o aplicativo, que também tem dado visibilidade a quem tem um discurso um pouco mais “sério”. 

E o Whatsapp? O aplicativo de mensagens com certeza terá uma grande importância em 2022. Foi considerado o maior “culpado” pela eleição de Bolsonaro em 2018. Durante as eleições, milhões de mensagens inundaram os celulares dos eleitores com mentiras, como a “mamadeira de piroca”. Mas a Meta, empresa dona do popular “zap zap”, restringiu os disparos em massa, o que atrapalha um pouco o trabalho do bolsonarismo. 

No entanto, o campo inimigo aposta no Telegram. O aplicativo é comandado por um russo que não se importa com regulamentações. Canais com milhões de participantes, disparos em massa, crimes, tudo é permitido. E Bolsonaro já está à frente neste espaço, com mais de um milhão de pessoas em seu canal. Lula, por exemplo, tem menos de 40 mil (Saiba mais). 

Para quem acha que o Telegram não é relevante, ele já é usado por 45% dos brasileiros e está em franco crescimento. Quem ainda não usa o aplicativo de mensagens russo, também está em desvantagem. Ele será bastante importante para a guerra que teremos em 2022. 

Polarização será mais violenta que em 2018

Os bolsonaristas estão mais disciplinados, organizados e têm a máquina do governo nas mãos. Isto compensa em grande parte a perda de apoio popular. Eles irão para a ofensiva, com um jogo mais sujo que em 2018. 

Já tivemos uma prévia no início do ano. Bolsonaro foi internado por não ser capaz de mastigar um camarão. Mas sua milícia digital fez questão de ressuscitar a teoria da conspiração sobre a facada que ele levou em 2018. Bolsonaro com certeza terá “problemas de saúde” em momentos estratégicos da campanha eleitoral para tentar comover a população. 

Adélio Bispo, que deu a facada, ainda não foi assassinado, o que foge muito dos padrões milicianos. Isto é bastante suspeito. Indício de que ele pode ser usado de alguma forma em uma “bomba” dias antes das eleições. 

Mentiras, provocações, acusações falsas, tudo será pior que em 2018. O gabinete do ódio aprimorou suas técnicas. E hoje ainda existe o Deep Fake, que pode colocar o rosto de uma pessoa no corpo de outra em um vídeo. Podemos esperar “filmes pornôs” falsos de candidatas de esquerda usando esta técnica. Ou conversas forjadas. As possibilidade são enormes. 

Bolsonaro não vai abrir mão de agradar sua base fiel, composta por negacionistas, fascistas, fundamentalistas religiosos, incels, além da banda podre da polícia e da ala mais reacionária do agronegócio. É com esses que ele quer chegar ao segundo turno. E no segundo turno vai apostar na desqualificação do adversário, que muito provavelmente será Lula. 

Quem ainda acha que é possível uma eleição de alto nível pautada pelo debate está totalmente fora da realidade. Será um disputa suja, que pode inclusive se degradar para a violência. O fascismo de Bolsonaro não é capaz de conviver com a democracia. E no desespero de perder as eleições e talvez ser preso, ele vai partir para o tudo ou nada. 

Os bolsonaristas não vão mudar de ideia. O foco é nos indecisos

Quem é ativo na defesa de Bolsonaro até agora vai estar com ele até o fim. São pouco mais de 10% dos brasileiros. E eles conseguem ganhar mais uma parcela da população para o lado deles por meio do assédio político. 

Depois de 600 mil mortes, sabotagem da vacina, corrupção evidente, incompetência escancarada e com o povo amargando a inflação e o desemprego, esse pessoal não vai mudar de ideia. É bom “sair da bolha”, mas não podemos perder tempo com quem não vale a pena. E não vale a pena discutir com quem é “fechado com Bolsonaro”. 

É claro que não devemos apenas pregar para convertidos. Quem vai definir a eleição é a enorme parcela do eleitorado que não está totalmente decidida. É aquela pessoa que defende os valores religiosos, mas também quer direitos por ser trabalhadora. Ou aquele eleitor que não gosta de Bolsonaro, mas ouve o que ele diz.  Enfim, existe uma série de escalas intermediárias entre quem é bolsonarista de um lado e quem odeia o presidente do outro. 

O bolsonarismo já sabe disso e vai ter uma narrativa para os indecisos. O auxílio emergencial, que o Presidente foi obrigado a sancionar depois de ser aprovado no Congresso, será usado como arma pelo inimigo. O antipetismo será outra. Do nosso lado, temos que saber identificar cada indeciso e qual parte de nossas propostas pode atraí-lo. 

 

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