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Quem são os 30% do Bolsonaro?

Roberto Parizotti / Fotos públicas

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

Uma pergunta que tem tomado conta da militância de esquerda é quem são os cerca 30% que ainda consideram o governo Bolsonaro bom ou ótimo. Mesmo depois da saída de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, a família que ocupa a cadeira presidencial mantém o mesmo índice de popularidade de antes.

As pesquisas sempre indicaram que Moro é mais popular que o Presidente. Isto faz alguns pensarem que o ex-juiz levaria boa parte do eleitorado que votou em Bolsonaro.  Mas não foi o que aconteceu.

Bolsonaro perdeu seguidores nas redes sociais, mas ainda mantém milhares de pessoas dispostas a ir às ruas defender o governo, além dos insistentes 30% de apoio popular. Qual as explicação para isto?

Negacionistas, evangélicos e público da extrema direita

Pesquisas já informavam que o chamado “bolsonarismo” tem uma base sólida de 12% da população. São os que vão ficar com o governo até o fim. É a audiência da extrema direita no Brasil. É aquela camada da população mais machista, racista, homofóbica e elitista que a média da população. Especialmente elitista. O desprezo por tudo que vem das camadas populares é evidente. Eles se acham ou querem pertencem ao seleto grupo destinado a mandar no Brasil.

Esta camada da população é influenciada por uma fauna bizarra de subcelebridades digitais. Olavismo, monarquismo, saudosismo da ditadura, saudosismo da Idade Média, anarcocapitalismo, “masculinismo”, negacionismo científico, separatismo gaúcho e paulista, nazi-fascismo declarado, influência da extrema direita de outros países, entre outras coisas, formam o chorume ideológico em que eles estão afogados. Este grupo social é fruto de um país com passado escravocrata, baixo investimento em educação, forte segregação social e o ciclo reacionário que o país passa desde 2015.

Mas a audiência da extrema direita não é o suficiente para segurar Bolsonaro na presidência. Temos um público que deve ter migrado para o apoio ao governo recentemente, compensando a perda causada pela saída de Sérgio Moro. São os negacionistas da Covid-19. De acordo com o Datalhofa, 46% da população é contra o isolamento social. Desses, 67% apoiam Bolsonaro. Se cruzarmos esses dados, cerca de 30% da população é anti-isolamento e ao mesmo tempo apoia o governo. Ou seja, praticamente toda a base de Bolsonaro é negacionaista em maior ou menor grau. Entre os mais radicais estão os 25% da população que concordam com a ideia de que o isolamento tem que acabar mesmo que isto ajude a espalhar o vírus.

Pequenos empresários que tiveram seus negócios prejudicados, trabalhadores informais que estão passando por dificuldades, trabalhadores de carteira assinada que tiveram seu salário reduzido. De fato, muitos têm motivos concretos para rejeitar o isolamento. E Bolsonaro tem tido uma política esperta. Por um lado, não acaba com a quarentena pra não se responsabilizar pelas mortes. Por outro, critica as medidas de prevenção, jogando o desgaste nos governos estaduais. Estamos na fase mais difícil para defender a quarentena. A contaminação ainda não chegou a seu auge, mas os efeitos do isolamento já são sentidos. Bolsonaro surfa nessa onda.

O terceiro e último público que mantém a popularidade do ex-capitão são os evangélicos. Entre esse grupo, o atual Presidente teve 70% dos votos. E eles são cerca de 30% da população. A maioria dos pastores ainda mantém o apoio ao governo. O novo ministro da Justiça, André Mendonça, é evangélico, e tudo indica que ele será indicado para uma vaga no Supremo Tribunal Federal. Isto consolida a relação entre as lideranças evangélicas e a família presidencial.

Esse apoio vai se manter?

Não dá para saber. Daqui há alguns dias, todo evangélico vai saber o nome de um irmão de igreja que foi contaminado ou perdeu um parente para a Covid-19. Isso, somado à crise econômica, pode gerar uma pressão sobre os pastores e fazer com que alguns passem a ter uma postura mais distante em relação ao governo. Evangélico não é burro e é parte da sociedade.

O negacionismo contra a Covid-19 pode ser reduzido. Na medida em que a quarentena é relaxada, dezenas de milhares serão contaminados e milhares vão morrer. Quando as mortes deixam de ser números e passam a ser nomes, a coisa muda. O cidadão comum não se comove tanto com milhares de vítimas. Mas se comove quando vê um parente, vizinho ou amigo perder um ente querido. Infelizmente, muitos vão aprender sobre a gravidade da crise da pior forma.

Já o público de extrema direita, como dito antes, fica até o fim. Não será fácil reduzir o apoio a Bolsonaro. Esta é a má notícia. A primeira boa notícia é que, fora dos 30% de apoiadores, o governo é cada vez mais rejeitado e o desejo pela saída do Presidente aumenta. A segunda é que, desde que tomou posse, Bolsonaro nunca teve mais que um terço de aprovação.

Muitos dos que respondiam “razoável” nas pesquisas de avaliação do governo agora respondem “ruim” ou “péssimo”. Essa parcela começa a sair de cima do muro e parece andar em nossa direção. Mas ainda tem muita gente indecisa. Há muitas consciência a serem disputadas. E esta disputa será decisiva.