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“O dilema das redes” e a desigualdade na Internet

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

O “O dilema das redes” foi lançado recentemente na Netflix e teve uma grande repercussão. O filme fala dos chamados algoritmos, programas de computador que coletam nossos dados e descobrem quais são os nossos gostos. Por exemplo, se uma pessoa curtiu uma postagem sobre a morte do guitarrista do Van Halen no Instagram, a rede social tende a mostrar para esta pessoa mais postagens sobre rock, guitarra ou instrumentos musicais em geral. Com isto, o usuário tende a ficar mais tempo no Instagram e vê mais anúncios, que são a fonte de financiamento da empresa.

O problema é quando uma pessoa que já tem uma desconfiança sobre as vacinas começa a acessar conteúdo a respeito de teorias conspiratórias. Os algoritmos vão empurrar para esta pessoa um conteúdo cada vez mais radical sobre o movimento anti-vacina. Esse indivíduo se tornará um fanático contra a vacinação incapaz de ouvir os argumentos contrários. 

É recomendável ver o documentário da Netflix. Mas como diz o ditado, o buraco é mais embaixo. Algumas questões importantes sobre como a Internet interfere no debate público foram deixadas de lado no filme. Especialmente se levarmos em conta a realidade brasileira.  

Internet e desigualdade social 

As redes sociais não são a mesma coisa para pessoas de classes sociais diferentes. No início dos anos 2000 muitos achavam que a Internet seria uma ferramenta que daria voz igualmente a todos. Afinal, tanto o rico quanto o pobre têm o mesmo poder de fazer um perfil no Twitter e falar o que pensa. Esta é uma ideia errada. 

Para começar, nem toda a população acessa a Internet. Ainda temos 42 milhões de brasileiros que nunca tiveram contato com a rede mundial de computadores. São pessoas totalmente excluídas do debate digital. Não é difícil adivinhar que essas pessoas estão entre as mais pobres. 

E entre os que têm acesso, há desigualdades. 85% das pessoas das classes D e E acessam a Internet apenas pelo celular. Quase todas as pessoas de classe A também tem um laptop, Smart TV e uma boa banda larga em casa, podendo ficar horas vendo ou fazendo lives. 

As pessoas de menor renda em geral têm um pacote limitado de dados. Não dá nem para clicar em um link de uma notícia mandada pelo Whatsapp. Nos bairros de periferia, a conexão é pior mesmo que o usuário tenha o mesmo plano que um morador dos bairros centrais. 

Com menos acesso, as pessoas de renda mais baixa têm menos voz nas redes. Postam menos, comentam menos, participam menos do debate. Têm câmeras de qualidade inferior em seus celulares, e suas fotos serão menos atraentes para que outros usuários possam curtir. Se tornam menos relevantes. 

Mas os chamados algoritmos estão aí para piorar a situação. O Instagram foi acusado de reduzir a relevância de fotos de pessoas negras. O Tik Tok esconde vídeos de pessoas consideradas “feias”. Já dá para imaginar qual o critério para definir pessoa “feia” para os empresários que controlam a rede, não é mesmo? Isto faz com que as pessoas dentro dos padrões de “beleza” tenham mais curtidas, comentários e suas postagens apareçam para mais gente. Quando estas pessoas mais “bonitas” postam sua opinião sobre política, alcançam um público maior. 

Mesmo se não fossem os algoritmos, provavelmente a foto de uma menina dentro dos padrões racistas de beleza, com roupas caras e com a Disneylândia ao fundo iria ter mais curtidas e comentários que a foto de uma menina negra na laje de sua casa. Infelizmente somos um mundo preconceituoso. Além de produzir desigualdades, a Internet reproduz as desigualdades da vida real. 

Um empresário ou um profissional liberal não tem medo de falar o que pensa em seu Facebook, mesmo que de forma agressiva. Um assalariado tem medo de ficar desempregado. Hoje as empresas fuçam as redes sociais de candidatos a uma vaga de trabalho. Na sociedade em que vivemos, a opinião de um médico sobre história costuma ter mais legitimidade que a opinião de um historiador sobre história. Status social gera relevância nas redes. 

Uma pessoa de classe média em geral comete quase a mesma quantidade de erros gramaticais que uma pessoa de baixa renda. Mas não tem vergonha destes erros. Está acostumada a se expressar, desde a infância foi criada para exercer sua cidadania. Com uma pessoa de renda mais baixa é diferente. Ela em geral tem mais constrangimento em dizer o que pensa. É mais criticada por seus erros.

Outro fator de desigualdade é o tempo disponível na internet. O garotão de 32 anos sustentado pela mãe que ainda não decidiu o que quer da vida pode ficar horas postando sua opinião sobre o desemprego no país. Quem tem que acordar 5 horas da manhã para pegar ônibus para ir ao centro da cidade entregar currículo não tem a mesma oportunidade. 

Em resumo, é errado achar que cada cabeça tem o mesmo valor na chamada “disputa de narrativas” na Internet. As pessoas socialmente privilegiadas conseguem uma visibilidade bem maior que seu peso numérico. Os algoritmos fortalecem preconceitos, como aponta a professora da Universidade de Columbia Cathy O’Neil em seu livro Weapons of Math Destruction (Armas de Destruição Matemática, na tradução livre).

A direita é favorecida nas redes sociais 

Os mais ricos, os brancos, os homens, os heterossexuais, enfim, as pessoas em condições sociais de vantagem, ganham maior relevância nas redes sociais. Por isto é fácil ser preconceituoso na Internet. É fácil espalhar notícias falsas que trabalham o machismo, o racismo e a homofobia. Mas os algoritmos também ajudam nisto. 

Conteúdos que provocam nossos instintos mais básicos, como medo e ódio, ganham mais relevância nas redes sociais. Isto é bem explicado no documentário “O dilema das redes”, da Netflix. E estes sentimentos são uma arma para fortalecer preconceitos arraigados na sociedade. E que lado da disputa política ganha com isso? A direita. 

Não é difícil usar a homofobia em nossa sociedade para espalhar a mentira de que existe um Kit Gay a ser distribuído nas escolas. Não é difícil usar o preconceito contra pessoas de baixa renda para dizer que quem luta por moradia ou reforma agrária é terrorista. Estas narrativas fortalecem políticos como Bolsonaro no Brasil, ou Donald Trump, nos Estados Unidos. 

Por ter mais contatos com o meio empresarial, a militância de direita chegou primeiro nas redes sociais. Estas redes já são desenvolvidas de forma a favorecer a iniciativa individual, o youtuber que em poucas horas monta sozinho seu canal para ganhar dinheiro com anúncios de vídeos. A esquerda, mais acostumada a grandes iniciativas coletivas que demoram a se desenvolver, não conseguiu tomar a dianteira. 

Os primeiros influenciadores digitais políticos eram de direita e acabaram ocupando um protagonismo que hoje é difícil de ser retirado. E, claro, eles têm mais financiamento para comprar dados das pessoas ilegalmente, fazer disparos em massa e usar robôs. Os grandes empresários garantem este patrocínio. 

O ambiente das redes sociais já é elitista e favorece o preconceito. Os militantes de direita chegaram primeiro e são mais bem financiados. A Internet é uma mídia que não foi criada com base na solidariedade coletiva, mas no consumo individual. Você não interage com um ser humano real, mas com um perfil virtual. O próprio meio facilita a mensagem de egoísmo e falta de empatia. Não tem como a esquerda ter mais engajamento. As redes sociais não são neutras. Elas têm lado. E não é necessário ser um gênio para concluir que é o lado dos bilionários que as controlam. 

O que fazer?

O autor desta coluna já abordou este assunto em um texto em 2017 e outro em 2018. O Esquerda Online tem uma ótima série de vídeos sobre o livro “Big Tech – A ascensão dos dados e a morte da política”. A primeira arma é se informar melhor sobre o tema. Tarefa obrigatória de todo militante. 

Em segundo lugar, devemos ter esperança. A Internet é um ambiente hostil, a vida dentro das relações de trabalho capitalista é hostil, a situação social nas periferias é hostil. Mas isso não é motivo para desistirmos da luta. Nunca vamos estar em vantagem enquanto existir capitalismo. 

Nossos inimigos sempre serão maioria em quantidade de curtidas, comentários, seguidores, inscritos e todos os outros números que as empresas de monitoramento usam para medir relevância na Internet. Na quantidade, não podemos disputar. Mas podemos disputar na qualidade. E ganhar. 

Temos um espaço de cerca de 30% na sociedade, pejorativamente chamado de “bolha”. Não podemos desprezar este público. Quase um terço da população não é pouca gente. Se parte desse contingente é mobilizado, teremos milhões nas ruas. O suficiente para se derrubar um governo. Em caso de eleição, 30% é o suficiente para evitar uma vitória de nossos inimigos no primeiro turno. E em um segundo turno, com muito mais gente no “vira voto” do que em 2018, é possível barrar a vitória do fascismo. 

E sejamos realistas. Dentro da Internet não dá para sair dessa “bolha” dos 30%. Temos que munir as pessoas que já são próximas de nossas ideias com bons argumentos. Essas, por sua vez, vão conseguir fazer a discussão em seus locais de trabalho, estudo ou moradia. A comunicação deve ser feita em dois degraus. 

Temos que manter nosso pessoal afiado. E motivado. Entre os nossos estão os setores historicamente silenciados da sociedade. Podemos incentivar estas pessoas a se expressar. Subir o moral da tropa, como se diz no jargão militar. 

Para sair da “bolha” é necessário sair da Internet. Que todo militante esteja ansioso para não tirar o pé da rua quando a bendita vacina sair. As ruas não têm algoritmos, e é nelas que podemos formar uma maioria social contra o fascismo. As redes sociais são uma importante ferramenta para que nosso público esteja unido, mobilizado e munido do melhor discurso. Mas para ganhar a classe trabalhadora para a luta, ainda não há substituto para o bom e velho trabalho de base.

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