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Como Boulos e Erundina chegaram ao segundo turno em São Paulo?

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles Ninguém disse que seria fácil (2022), pela editora Boitempo.

Foram muitos anos de luta para chegar até aqui.

A disputa em São Paulo foi e será entre todas as capitais, a mais importante. Dois desafios grandiosos estavam colocados para toda a   esquerda. Tirar a extrema direita do segundo turno e conquistar o seu lugar. Ao que parece, por esta pesquisa, conseguimos. Enfim, uma vitória política inequívoca!!! A candidatura Boulos/Erundina era a que melhor representava a resistência a Bolsonaro.

O destino de Bolsonaro passa pela ação direta de massas nas ruas. Não sabemos quando existirão sanitárias para poder iniciar o confronto e medir forças para derrubá-lo. Mas a luta contra Bolsonaro passava, também, pelas eleições para as prefeituras. Teria sido um grave erro, apesar dos tormentos da pandemia, e da perspectiva de uma crise social no horizonte quando for suspenso o auxílio emergencial, ter  minimizado a disputa eleitoral.

O PSol foi uma oposição de esquerda coerente aos governos de coalizão liderados pelo PT, mas não hesitou em se posicionar unificado contra o impeachment. O PSol defendeu uma Frente única de esquerda para a ação nos movimentos sociais, em especial, com o PT contra Temer e, no últimos dois anos, contra Bolsonaro. O PSol não hesitou em lutar pela liberdade de Lula em 2018/19. Ter ocupado este lugar político aumentou a autoridade política do PSol na esquerda.

Foram estas posições que permitiram a Aliança que se construiu em torno da candidatura de Guilherme Boulos/Sonia Guajajara à presidência da República em 2018. E foi a partir desta campanha, e do perfil de uma candidatura de esquerda vinculada com os movimentos sociais, e que elegeu Bolsonaro como o principal inimigo que o PSol conquistou uma audiência nacional que alavancou a eleição de dez deputados federais, além de mais de duas dezenas de estaduais

O PSol com Boulos/Guajajara foi uma expressão dos movimentos que se reforçaram, desde as jornadas de 2013: populares como o MTST, negros e de periferia como a articulação nacional Quem mandou matar Marielle?, de mulheres como a campanha pelo #elenão, de direitos humanos como Onde está Amarildo?, de juventude como as ocupações secundaristas, de LGBT’s pelo Fora Feliciano, ambientalistas e dos povos indígenas em defesa da Amazônia,

A candidatura Boulos/ Erundina é herdeira legítima destes combates. É herdeira pelo seu lugar na luta política e pelo seu perfil. Mas é também, a candidatura que tem maior potência política e eleitoral para acumular força no processo de reorganização da esquerda brasileira. Porque ela une o vigor de duas gerações de lutadores. Luísa Erundina derrotou o malufismo em São Paulo em 1988. Foi uma das maiores façanhas eleitorais da esquerda brasileira. E Guilherme Boulos se afirmou como uma das maiores lideranças da esquerda brasileira. Por isso, foi ameaçado de perseguição por Bolsonaro e identificado com um dos seus principais inimigos em vídeo no primeiro discurso depois de eleito.

Boulos e o MTST assumiram a responsabilidade da convocação, ao lado do PSol, da primeira manifestação de rua no MASP depois da eleição de Bolsonaro em novembro de 2018. Boulos e o MTST foram, também, ao lado do PSol, os primeiros que se somaram às torcidas antifascistas nas primeiras manifestações de rua contra Bolsonaro depois do inicio da pandemia.

Foram muitos anos de luta para chegar até aqui.