O pai de família ou a família sem pais?

Douglas Rodrigues Barros
B. J. Duarte

Dia dos pais,

A creche pública de minha filha, a qual faço questão de defender, através do conselho dos pais, do qual faço questão de participar, decidiu chamar esse dia de “dia de quem cuida”. A primeira vista, algo, talvez, “politicamente correto” demais. Só a primeira vista. Basta uma pequena pesquisa para se dar conta de que a “família tradicional” na periferia é algo minoritário e sei que muitas crianças ficam triste nessa data

Sentem-se:

Eu mesmo tive três pais, nenhum efetivamente cuidou de mim. O primeiro, Pai Rui – “pai de criação” – que me olhou do zero aos cinco anos de idade porque minha mãe tinha que ir trabalhar em “casa de família” ou na fábrica. Depois de trabalhar anos a fio na Goodyear, como fina flor do proletariado nacional, decidiu se aposentar e se tornou “empresário”; abriu um boteco. O que pai Rui não esperava é que o boteco seria usado pelos seus frequentadores como biqueira e numa batida policial, a polícia encontraria drogas no seu já afamado estabelecimento, naturalmente, sem poder entregar os verdadeiros traficantes, teve que ficar engaiolado por um ano e seis meses, com breve passagem pelo Carandiru antes deste desativar.

O segundo: Vadico – meu pai biológico. Imagina aí, um negão retinto de quase dois metros de altura que adorava samba. Ora, foi justamente num desses bons sambas que sendo da turma do “deixa disso” tomou um tiro que nem lhe era endereçado ao apartar uma briga. Um tiro de 22, dado pelo próprio parceiro bêbado. Vocês que não conhecem a polissemia das armas saibam: uma bala de 22 dificilmente é letal, o problema mesmo é o estrago que causa. No caso de meu pai, a bala andou em seu corpo, atingiu a coluna cervical e o deixou paraplégico. Quando o conheci, eu já tinha seis anos, isso porque ficou esse tempo internado. Ele, entretanto, me ensinou a gostar de ler, me deu carinho e me fez descobrir o olhar do racista. Como diziam seus “amigos”: ser preto já era foda, ser preto e aleijado gostando de samba…” Vadico desistiu de viver quando eu tinha onze anos. Foi, minha primeira grande perda.

Meu último pai. Doba. Amasiou-se com minha mãe quando eu tinha três anos. Tornando-se meu padrasto. E de todos, foi o que mais conviveu comigo. Me detestou até minha maioridade, me punia sempre com espancamentos, xingos e maus tratos de toda espécie. Severo, me tratava com rigor militar. Acordar cedo. Arrumar a cama. Obedecer. Obedecer. Obedecer. Porrada. Infância infernal ao som do Amado Batista e disputa de quem tinha o mais alto aparelho no cortiço em que morávamos. Vai ver, é por isso que amo o silêncio e a contemplação. Hoje, mais velho, apesar de todos os pesares, nos damos muito bem e sempre lhe ligo para saber como está. Estão chocados com essa tranquilidade com a qual narro a redenção e o perdão cristão ao Doba? É porque vocês não conheceram sua infância miserável com mãe prostituta, abandono de pai e criança de rua que foi. “Mas justamente por isso ele devia ser mais compreensível”, você deve ter pensado… Fácil falar…

Pois é, dia dos pais ontem… A única coisa boa disso, é eu mesmo ter me tornado pai de uma menina linda chamada Rosa e saber da ideologia contida na palavra família.

Rosa é, entretanto, afinal, minha redenção dostoievskiana, um entremeio feliz nessa história toda.

Mãe, feliz dia dos pais!
Avós, de toda quebrada, feliz dia dos pais também!

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