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BRASIL

Uma polêmica com o texto publicado por Pedro Serrano na Revista Movimento

Deborah Cavalcante*
Reprodução

Nos dias 18 e 19 de julho, os e as filiadas do PSOL irão às urnas – se não houver agravamento da crise sanitária – em dez pontos da cidade de São Paulo para escolher seus porta vozes na disputa à Prefeitura, em 2020.

Por conta da pandemia, as eleições internas provavelmente se darão por meio do voto direto em urna e serão precedidas de debates online entre os projetos em disputa. Nessas condições, o exercício de apresentar abertamente as posições, como fez o Pedro Serrano na Revista Movimento, e de identificar os acordos e diferenças políticas, torna-se ainda mais importante.

Guilherme Boulos e Luiza Erundina: a melhor chapa para o PSOL em São Paulo

Há três candidaturas em debate: Guilherme Boulos com Luiza Erundina, Sâmia Bomfim com Alexya Salvador e Carlos Giannazi. Não temos dúvida que Boulos e Erundina são a melhor opção.

Luiza Erundina, nordestina e a primeira mulher a governar São Paulo, é reconhecida como a melhor prefeita que a cidade já teve. Isso não é menor. Pedro Serrano se refere ao tema como “apenas um resgate de boas medidas de ‘gestão’ já adotadas na cidade, mas dificilmente cogitáveis no atual período histórico”. Mas Erundina é lembrada por avanços em direitos sociais – como na auto-organização em mutirões populares para construção de moradias e na luta pelo IPTU progressivo -, na defesa da participação política e por governar ao lado de figuras como Paulo Freire. Erundina é uma parlamentar combativa, defensora do socialismo e traz as melhores experiências de seu governo. Isso fortalece a disputa por transformar São Paulo em uma trincheira contra o governo Bolsonaro.

Guilherme Boulos é a principal liderança do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que reúne dezenas de milhares de trabalhadores, majoritariamente negros, na base de suas ocupações. É uma alavanca para a organização independente de um setor da classe trabalhadora que condensa a condição sem-teto com uma inserção precária nas relações de trabalho. Com “níveis de enfrentamento elevados” mencionados por Pedro, o MTST arrancou vitórias dos governos e, desde 2013, se firmou como protagonista em São Paulo.

Boulos e o MTST fundaram a Frente Povo Sem Medo em 2015, um embrião importante da Frente Única de Esquerda, reunindo movimentos ligados ao PSOL, ao PCB, ao PT e ao PCdoB. Estiveram na linha de frente das lutas contra os ajustes de Dilma Rousseff e o crescimento do conservadorismo (2015), contra o golpe (2016), pelo Fora Temer e as reformas (2016/2017) e foram decisivos para manter os necessários embates nas ruas em um momento de defensiva política. Mais que um discurso revolucionário, Boulos mostra com ação que é possível construir uma “muralha” contra o avanço do bolsonarismo e da extrema-direita.

As outras candidaturas têm peso

Em um lado, Carlos Giannazi é um deputado que levanta uma trincheira na ALESP contra os ataques à classe trabalhadora. Em outro, Sâmia Bomfim é uma deputada federal conectada às lutas feministas e com uma atuação política e parlamentar que é referência para a esquerda. Ao lado de Sâmia está Alexya Salvador, mulher trans, negra e reverenda, que vem sofrendo inaceitáveis ataques transfóbicos desde o anúncio da sua entrada na corrida do PSOL em São Paulo – pelo que nos solidarizamos e com quem somamos esforços na luta LGBTQI+.

Em tempos de herança da derrota de ideias socialistas, de regressão ideológica da classe trabalhadora e de perda de referências para uma ação conscientemente classista e radical, o fato de ter pré-candidatos vinculados a diferentes setores e lutas da classe trabalhadora é motivo de orgulho para o PSOL SP.

O que explica a existência de três pré-candidaturas

Há diferenças. Certamente não no fato de Boulos ter se filiado ao PSOL em 2018 ou Erundina em 2016. Afinal, a luta por um partido de massas em São Paulo, objetivo com o qual concordo com o Pedro Serrano que devemos perseguir incansavelmente, se constrói também na sua capacidade de atração a movimentos sociais e lideranças diversas da esquerda socialista. Em um partido democrático e com pretensões de disputar o poder, também não deve haver distinção política baseada na ordem de ingresso.

Está na raiz das nossas diferenças o debate sobre a reorganização da esquerda brasileira e a política do PSOL para o período. Hoje nosso partido reúne cerca de 150 mil filiados, 10 deputados federais e audiência política e eleitoral nas principais vanguardas que se colocaram em luta nos últimos anos. Por isso, mesmo que minoritário na classe trabalhadora organizada, o PSOL é o principal vetor de um processo de reorganização da esquerda. Estamos no PSOL a serviço deste projeto, mas não colocamos um sinal de igual entre reorganização e o crescimento molecular do PSOL, como parece fazer Pedro Serrano e os companheiros do Movimento Esquerda Socialista.

O PSOL não pode se contentar em ser um partido que dispute eleições e progressivamente vai aumentando sua bancada. Precisa se converter em uma alternativa de direção para a classe trabalhadora no Brasil. Para isso é fundamental se conectar e manter sua aliança com os movimentos sociais com o MTST. Nesse sentido que muito nos orgulha ter Guilherme Boulos como um dos principais porta-vozes do nosso partido.

A política do PSOL e dos socialistas não pode passar inerte às mudanças desde o golpe de 2016

Em nossa opinião, o golpe sobre Dilma Rousseff abriu uma situação defensiva. O governo Temer ligou a motosserra sobre a classe trabalhadora e os povos oprimidos e a eleição de Bolsonaro em 2018 abriu passagem para um verdadeiro trator. A reorganização da direita evoluiu mais rapidamente com a substituição do PSDB como força dirigente da direita na polarização tradicional pelo Bolsonarismo, expressão do neofascismo com características militaristas/golpistas, conservadoras, reacionárias e ultra-liberais.

Por isso, reivindicamos que o PSOL tenha compreendido essa virada na conjuntura e traduzido isso na participação nas mobilizações contra a direita, contra o golpe e a retirada de direitos e pelo Lula livre junto à Frente Povo Sem Medo, à Frente Brasil Popular e ao Fórum das Centrais Sindicais. Qualquer setor da esquerda que tenha se confundido com as mobilizações verde-amarelas das direitas, com Sérgio Moro e a Lava-Jato ou com o antipetismo reacionário não contribui para armar a classe trabalhadora na luta contra a extrema direita, mas pelo oposto, fortalece ideologias que são contra toda a esquerda.

O PSOL avança quando nossa classe consegue barrar essa ofensiva

O destino dos socialistas é inseparável do destino da classe trabalhadora. A construção de uma alternativa ao PT não deve se contrapor à unidade para enfrentar a extrema-direita. Em nossa visão, o PSOL deve ter como primeira hierarquia de toda sua intervenção e política a tarefa de derrotar o neofascismo no Brasil.

Temos acordo em construir unidade de ação, inclusive com setores da burguesia, em base a pautas concretas de defesa da democracia (diferente do que se viu no manifesto “juntos pela democracia”).

A diferença está no papel da Frente Única de Esquerda – mobilização permanente entre movimentos e partidos da classe trabalhadora que, embora com estratégias diferentes, travam batalhas comuns em defesa de interesses fundamentais da classe trabalhadora contra a burguesia e o golpismo. Foi assim no Tsunami da Educação, na Greve dos Petroleiros e na convocatória do março de lutas em 2020.

Lutar para que o PT e o PCdoB façam parte de uma Frente Única de Esquerda conosco não nos “transforma em satélite na ‘grande família’ da esquerda”, como sugere Pedro Serrano. Ao contrário disso: não enxergar a necessidade de fazer Frente para barrar Bolsonaro e defender direitos pode ser um erro que nos leve à marginalidade ou que ajude a abrir espaço de vez para o neofascismo no Brasil. De nossa parte, lutaremos incansavelmente contra essas duas hipóteses.

O necessário programa radical para o PSOL

Pedro Serrano sugere que Sâmia seria mais capaz de expressar um programa radical do que Boulos. Menciona para isso a experiência da Vamos em 2018 como “exógena” ao PSOL, o que não corresponde à verdade. O programa de Boulos e Guajajara em 2018 foi construído com uma metodologia ampla, convidando diferentes sujeitos e movimentos a se incorporarem em Grupos de Trabalho que produziram juntos os seus resultados finais. O PSOL (ou aqueles que se dispuseram a tal dentro do PSOL) foi parte disso de começo ao fim. A própria autora desse texto encabeçou a construção do GT de programa para a juventude. Em outra passagem, Pedro parece concordar com essa metodologia e sugerir que Sâmia se dispõe a fazer o mesmo.

O programa no PSOL é sempre resultado de disputa. Os eventuais erros precisam ser corrigidos por meio do debate político. Foi assim com a campanha de Luciana Genro, da mesma corrente de Pedro Serrano, à prefeitura de Porto Alegre em 2016 quando defendeu parcerias público-privadas e a militarização das guardas municipais. Certamente o levante negro nos EUA contra a violência policial que se alastrou pelo mundo favorece a atualização positiva dessa posição. Foi assim no tema da dívida pública em 2018 que produziu esta reivindicação:

“Mudança no perfil da dívida pública federal visando o alongamento de prazos, a eliminação da indexação dos títulos emitidos às variáveis macroeconômicas SELIC, inflação e câmbio e, assim, a redução do pagamento de juros sobre a dívida e seu caráter concentrador de renda: realização de auditoria para evitar novos contratos lesivos ao povo brasileiro junto a instituições financeiras.”

A Resistência sustentou, de forma construtiva, a defesa do enfrentamento à dívida pública como um aspecto central do programa em 2018. Mas alguém tem dúvida que Boulos apresentou um programa radical nas eleições e o fará em 2020, se for escolhido?

A luta de classes é o principal teste pelo qual se forjam líderes políticos. No momento mais difícil da história brasileira desde a redemocratização, Guilherme Boulos tem se mostrado um ponto de apoio para a vanguarda de esquerda do país. Por isso é visto com simpatia e referência por simpatizantes de esquerda de diversos espectros políticos e é o candidato que pode unificar a maior parte do eleitorado de esquerda de São Paulo.

Os melhores resultados são sempre produzidos quando há sínteses de posições. Por isso, nos comprometemos a construir o programa e a campanha de qualquer um dos candidatos, caso eleito. E reivindicamos o compromisso estabelecido por Pedro Serrano em fazer o mesmo. A história dirá.

As eleições municipais de 2020 serão um importante terreno para o desenvolvimento do embate à extrema direita e ao projeto político-ideológico capitaneado por Bolsonaro. Estarão atravessadas por uma crise social brutal. Guilherme Boulos e Luiza Erundina poderão em São Paulo liderar a maior chapa que o PSOL já teve em São Paulo. Lutaremos nas prévias para isso.

 

*Deborah Cavalcante é advogada, mestra em Ciência Política pela UNICAMP e da Coordenação Nacional da Resistência/PSOL.

 

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