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Boulos e Erundina merecem apoio como candidatos do PSOL. Por quê?

Divulgação

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

O destino de Bolsonaro passa pela ação direta de massas nas ruas. Não sabemos quando existirão condições sanitárias para poder iniciar o confronto e medir forças para derrubá-lo. Mas a luta contra Bolsonaro vai passar, também, pelas eleições para as prefeituras. Seria um grave erro, apesar dos tormentos da pandemia, da perspectiva de uma crise social no horizonte quando for suspenso o auxílio emergencial, e da crise política de desdobramentos imprevisíveis abertos pela prisão de Queiroz, minimizar a disputa eleitoral. Derrotar Bolsonaro e seus candidatos nas principais cidades do país vai ser uma batalha eleitoral dura.

A disputa em São Paulo será, talvez, entre todas as capitais, a mais importante. Após a desistência de Datena são, por enquanto: Joice Hasselmann (PSL), Levy Fidelix (PRTB), Artur do Val, o Mamãe falei (Patriotas), na extrema direita, Felipe Sabará (Novo), Celso Russomano (PRB), Bruno Covas (PSDB), Andrea Matarazzo (PSD) pela direita liberal, talvez Marta Suplicy (Solidariedade), Márcio França (PSB, PDT, Rede, PV), pela centro-esquerda, além de Jilmar Tatto (PT), Orlando Silva (PCdoB), Antonio Carlos Mazzeo (PCB), Vivian Mendes (UP), uma candidatura do PSTU e uma do PSOL.

Teremos uns quinze candidatos, mas serão somente três grandes campos políticos. O bolsonarismo, a oposição liberal, e a oposição de esquerda, mas somente dois deles irão para o segundo turno. Não se sabe, por enquanto, quem Bolsonaro irá apoiar. Na extrema-direita a fúria de Joice, enfrentará o aloucado Levy, e o delirante Mamãe falei. No meio do caminho entre a direita dura e os liberais, em função da posição diante de Bolsonaro, estarão o demagógico Russomano e o milionário Sabará. No campo da oposição liberal Covas disputará com Matarazzo. No meio do caminho entre Covas e a esquerda, França e Marta. Finalmente, os cinco candidatos da esquerda.

Estas eleições serão diferentes de todas as outras eleições, desde 1986. Porque na presidência da República está um neofascista que tem como estratégia um autogolpe para a máxima concentração de poder. Vamos ter que conversar com milhões de eleitores para explicar que as mortes da pandemia, o desemprego em massa, a pobreza crescente têm responsáveis, não foram uma fatalidade, mas um desastre provocado por Bolsonaro.

O desafio para a esquerda é levar uma de suas candidaturas para o segundo turno, uma batalha difícil, mas possível. E, pela primeira vez, em sua história, em São Paulo, o PSOL pode conquistar a honra, mas, também, a responsabilidade de representar toda a esquerda com a candidatura Boulos/ Erundina, em um segundo turno.

Mas o PSOL terá, provavelmente, eleições prévias em São Paulo, a menos que as condições sanitárias se agravem ainda mais. Há três pré-candidaturas: Boulos/Erundina, Sâmia Bonfim, e Carlos Giannazi. Todos merecem o nosso respeito e admiração. Sâmia é uma jovem feminista que estabelece uma ponte do PSOL com uma nova geração de mulheres que assumiu um lugar na primeira linha das lutas contra Bolsonaro. Giannazi é uma liderança entre os movimentos de professores que estabelece uma ponte entre o PSOL e a defesa da educação pública.

O direito de disputar a indicação é um direito democrático. Mas exercê-lo é uma escolha. Porque o projeto do PSOL não é o de oferecer uma legenda eleitoral para carreiras políticas solo. O PSOL é um partido de esquerda socialista que reconhece o direito de organização de correntes internas.

Embora seja um direito a disputa das candidaturas, parece um exagero a movimentação de milhares de ativistas para a realização de prévias em plena pandemia. E há o perigo desta disputa acirrar os ânimos, e comprometer, irreparavelmente, uma campanha unificada, o que seria muito grave. Então, por que temos três pré-candidaturas? A explicação repousa na existência de diferenças substantivas.

O PSOL foi uma oposição de esquerda coerente aos governos de coalizão liderados pelo PT, mas não hesitou em se posicionar unificado contra o impeachment. Ter ocupado este lugar político aumentou a autoridade política do PSOL na esquerda. No entanto, uma grave diferença de apreciação sobre a operação LavaJato o dividiu: uma maioria denunciou o papel de Sergio Moro e uma minoria a apoiou.

Desde 2017, com a abertura de uma situação reacionária, e como desdobramento das diferenças sobre a LavaJato, o PSOL esteve dividido em dois grandes campos políticos. A diferença se concentrou em torno de uma polêmica aguda. Qual deveria ser a relação com o PT, considerando o lugar que o partido de Lula passou a ocupar na oposição, diante de governos como o de Temer e, mais grave ainda, de Bolsonaro?

Esteve certo ou errado o PSOL ao defender uma Frente única de esquerda para a ação nos movimentos sociais, em especial, com o PT contra Temer e, no último ano e meio, contra Bolsonaro? Esteve certo ou errado o PSOL em lutar pela liberdade de Lula em 2018/19? Estes balanços atravessam a disputa pela candidatura à Prefeitura em São Paulo.

Foram estas posições que permitiram a Aliança que se construiu em torno da candidatura de Guilherme Boulos/Sonia Guajajara à presidência da República em 2018. E foi a partir desta campanha, e do perfil de uma candidatura de esquerda vinculada com os movimentos sociais, e que elegeu Bolsonaro como o principal inimigo que o PSOL conquistou uma audiência nacional que alavancou a eleição de dez deputados federais, além de mais de duas dezenas de estaduais

O PSOL com Boulos/Guajajara foi uma expressão dos movimentos que se reforçaram, desde as jornadas de 2013: populares como o MTST, negros e de periferia como a articulação nacional Quem mandou matar Marielle?, de mulheres como a campanha pelo #elenão, de direitos humanos como Onde está Amarildo?, de juventude como as ocupações secundaristas, de LGBT’s pelo Fora Feliciano, ambientalistas e dos povos indígenas em defesa da Amazônia,

A candidatura Boulos/Erundina é herdeira legítima destes combates. É herdeira pelo seu lugar na luta política e pelo seu perfil. Mas é também, a candidatura que tem maior potência política e eleitoral para acumular força no processo de reorganização da esquerda brasileira. Porque ela une o vigor de duas gerações de lutadores. Luíza Erundina derrotou o malufismo em São Paulo em 1988. Foi uma das maiores façanhas eleitorais da esquerda brasileira. E Guilherme Boulos se afirmou como uma das maiores lideranças da esquerda brasileira. Por isso, foi ameaçado de perseguição por Bolsonaro e identificado com um dos seus principais inimigos em vídeo no primeiro discurso depois de eleito.

Boulos e o MTST assumiram a responsabilidade da convocação, ao lado do PSOL, da primeira manifestação de rua no MASP depois da eleição de Bolsonaro em novembro de 2018. Boulos e o MTST foram, também, ao lado do PSOL, os primeiros que se somaram às torcidas antifascistas nas primeiras manifestações de rua contra Bolsonaro depois do inicio da pandemia. Ninguém melhor do que ele pode nos representar. Não deve ser subestimado que seja a candidatura melhor posicionada nas pesquisas. Foram muitos anos de luta para chegar até aqui.