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BRASIL

Os mortos escondidos no país da ditadura de 1964 e os do bolsonarismo de hoje

O “ocultismo” como “Ciência” no Brasil dos empresários e generais

Coletivo TSTs Cariri, do Ceará

Telegrama durante a ditadura militar orienta a não divulgação de dados durante um surto de meningite

Ocultismo vem da palavra em latim occultus, que quer dizer escondido ou secreto. É a doutrina que se baseia na crença da existência de forças ocultas sobrenaturais governando o real. Após se negar a divulgar os dados da covid-19 no Brasil, o Ministério da Saúde do governo Bolsonaro recuou e disse, neste domingo (07/06), que voltará a publicar informações detalhadas em um novo portal de internet. Para Bolsonaro, o propósito da mudança na divulgação seria “evitar subnotificação e inconsistências”. Isso ocorre quando, no Brasil, o total de mortes por coronavírus passa de 37 mil. Contudo, vamos mostrar neste texto que essa manipulação dos dados não é inédita no Brasil. Aliás, foi uma das características dos governos dos generais – durante a ditadura empresarial-militar – omitir os dados sobre pobreza, doenças, pandemias, acidentes de trabalho e mortes no país. E o que há de comum entre esse período e o atual? São governos a serviço do empresariado e formado por militares.

O governo Bolsonaro já ultrapassou 2,8 mil integrantes das Forças Armadas (cerca de 1,5 mil são do Exército, 680 da Marinha e 622 da Aeronáutica). Só na pasta da saúde, comandada pelo general Eduardo Pazuello, são 20 militares ocupando postos-chave no ministério (apenas um tem formação em saúde, uma tenente-médica). O militares comandam sozinhos o governo? Não, o fazem junto com o grande empresariado. Quem controla a economia é Paulo Guedes, fundador e sócio majoritário da Br Investimentos (parte do grupo Bozano) e um dos quatro fundadores do Banco Pactual (atual BTG Pactual). Essa composição de militares e empresários no comando do governo é outro traço comum entre os 21 anos de ditadura e o bolsonarismo.

No início dos anos 1970, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici, adotou-se o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Nesse período, viveu-se o auge da repressão aos movimentos de oposição, acompanhado de indescritível controle midiático. Aqui vale dizer que a frase é uma imitação do slogan “USA, love or leave it”, usado pelo governo dos EUA no auge da Guerra do Vietnã. Essa atitude de sujeição é outra característica comum aos governos de militares-empresários brasileiros. Não à toa, em meio à pandemia, Bolsonaro ameaça seguir Trump e retirar o Brasil da OMS.

As estatísticas divulgadas em 1969, referentes ao ano de 1968, em pleno “milagre econômico brasileiro”, revelaram o Brasil como recordista mundial de acidentes de trabalho (isso apenas com dados dos segurados registrados junto ao INPS, excluindo os trabalhadores rurais, domésticos e os informais). Por óbvio, os números revelavam as péssimas condições de trabalho no país. A indústria que não parava de bater recordes de produtividade, era, de longe, o setor que mais lacerava, com 76% dos acidentes em 1970. A realidade era ainda mais dramática devido à prática patronal de não assinar a carteira de trabalho nos setores da economia que, frequentemente, usavam mão-de-obra não qualificada ou de baixa qualificação, de alta rotatividade, e em funções de grande risco, a exemplo da construção civil, onde ocorriam mais acidentes, que, em geral, não eram registrados oficialmente.

Contudo, como os cemitérios não mentem, os números mostravam que sob o período do  mal denominado “Milagre”, a classe trabalhadora foi a parcela da sociedade brasileira mais brutalmente atingida pela política econômica imposta pelo regime – uma significativa elevação da produtividade com base em arrocho salarial, adoecimento e mortes no trabalho. Vale lembrar que à subnotificação, sobretudo dos acidentes de menor gravidade, era a regra e, desse modo, os dados oficiais de acidentes precisavam ser multiplicados por 3 para se ter uma ideia do real. Eis aqui algo muito similar as subnotificações dos casos de Covid-19.

Na época, a divulgação de que o Brasil era o campeão mundial de acidentes de trabalho acabou sendo noticiado pela mídia internacional como uma “vergonha”, e para além da negação, o governo e o empresariado tiveram que demonstrar certo comprometimento em resolver a questão e, assim como hoje, os trabalhadores foram considerados os grandes culpados pelos males que sofriam. Para Geisel, o sucessor de Médici, caberia ao trabalhador “capacitar-se de sua responsabilidade pessoal em sua própria proteção, como agente e paciente que é, ao mesmo tempo, as mais das vezes, no processo acidentário”.

A mesma conduta criminosa de ocultamento se observou em 1974 quando uma epidemia de meningite castigou o Brasil. O assunto se tornou de “segurança nacional” e somente alguns poucos sabiam da existência da epidemia, pois o governo dos militares e empresários procurou esconder o problema ao máximo para “não causar pânico na população”, nem fazer “alarme” com qualquer notícia considerada “tendenciosa”. Eis aqui mais um arremedo – os mesmos pretextos usados pela ditadura foram incorporados ao vocabulário bolsonarista. Em março, Bolsonaro ao lado do ministro da Saúde declarou “Há um alarmismo muito grande por grande parte da mídia” em alusão a pandemia do novo Coronavírus.

Passados 35 anos do momento em que os governos militares autocráticos saíram de cena, sem festa nem glória, mas apenas melancolia e malefícios, eis que, uma vez mais, em um governo no qual o militarismo adquire incontestável notoriedade, tenta se esconder a realidade, turvando a informação e insultando a inteligência. Agora como antes, é preciso deter a farsa e evidenciar o real. Hoje, como ontem, é o modo mais eficaz de se defender a vida.

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ditadura nunca mais