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OPRESSÕES

A necropolítica e sua naturalização

David CJ, de Suzano, SP
Tânia Rego / Arquivo Agência Brasil

No Brasil, 75,5% das vítimas de assassinatos são [email protected], segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no país, isso significa 63 mortes por dia, que totalizam 23 mil vidas negras perdidas pela violência letal em um ano. A juventude negra está sendo exterminada e é isso que significa genocídio.

O IPEA também aponta que 75% da população mais pobre é negra; 79,4% de pessoas analfabetas são negras; 62% das crianças que estão fora da escola são negras; em média a renda dos negros é de 40% menor que a dos brancos. E isso revela que o racismo e a desigualdade social não são produzidos por ações individuais, mas sim, da própria lógica das relações objetivas de classe e sócio-históricas que ESTRUTURAM a sociedade e formam o campo subjetivo, isto é, os olhares e a não importância que a vida negra ganha.

De cada 10 mortos pela polícia, sete são negros; são eles também que compõem grande parcela da população carcerária (38% tem de 18 a 29 anos e 67% são negros). E isso sinaliza que o Estado brasileiro é responsável pelo extermínio dessa população e perpetuador de toda essa lógica de opressão. E é por isso que nós temos que denunciá-lo!

O cruel assassinato de João Pedro é mais uma forte demonstração das mãos do estado sob as periferias do Brasil, o que aos olhos da sociedade está́ se tornando algo cada vez mais natural. A repetição desses fatos, não está́ causando incômodo. A forma como a família do João reagiu, é um claro exemplo da naturalização das mortes de corpos periféricos. E foi tendo isso em vista, que o pai de João disse: “meu filho nunca tirou uma nota vermelha” e “Meu filho é um estudante, um servo de Deus. A vida dele era casa, igreja, escola e jogo no celular”… como uma tentativa de dizer à sociedade que, mesmo o seu filho tendo sido morto de forma cruel em sua própria casa, ele não merecia. Isso é em sua essência, um pedido de socorro. Os moradores das periferias de todo o Brasil, tentam a todo momento mostrar um currículo de boas ações (aos olhos da sociedade), para que não justifiquem suas mortes.

A reorganização da sociedade pós a Abolição formal, nega nosso direito a vida. A importância dessas vidas não é igualada com o restante da humanidade. Como forma de manter o status quo e o establishment vigente, seguiu-se, através de outras instituições vendendo-se nossos corpos a preços mais baratos e consequentemente o nosso sangue escorrendo, dia após a dia só chocou e choca determinados setores minoritários da sociedade. E denunciar o genocídio promovido pelo estado, parece cada vez algo como repetir um exercício que não gera comoção.

A palavra “Genocídio”, utilizada na história da humanidade para citar crimes terríveis contra seres humanos, parece que cada vez está mais longe de ser compreendido como algo que deveria ser inaceitável. Na última sexta-feira (15) no Rio de Janeiro morreram 12 pessoas vítimas de uma chacina policial no complexo do alemão, e já teve tenente dizendo que “foi um sucesso” a operação. Mais uma vez esses jovens, nos lembrando que se morremos aos milhões pelo mundo afora vítimas de uma operação, pandemia ou de fome, isso nada mais é do que a manutenção da necropolítica e não tem importância.

O extermínio da juventude negra e pobre nesse país não está em quarentena

A violência policial tem crescido desde as eleições de 2018 e seguirá crescendo. Segundo estatísticas do Núcleo de Estudos da Violência da USP e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, mesmo Goiás não tendo divulgado nenhum dado, o país teve 5.804 assassinatos cometidas por policiais em 2019, contra 5.716 em todo o ano de 2018 e na realidade esses números devem ser muito maiores, já que a polícia age também, não deixando rastros nos casos gerais, revelando o impacto material dos discursos moral-conservador como “bandido bom é bandido morto”.

Apesar das diferentes formas de opressão policial por estado, a regra é clara, exterminar corpos pretos e periféricos como um setor que atrapalha o funcionamento do todo. Isso é uma lógica da necropolítica consciente e que não tem fim dentro das nossas relações econômicas e sociais, ao qual perdura a carne negra e periférica a mais barata do mercado ou até mesmo sem valor nenhum, onde quem cresce e se beneficia com a violência policial é o crime organizado, perpetuando essa regra de violência justificada pela narrativa de combate as drogas e ao crime organizado. É preciso entender que somos vítimas de uma reorganização histórica de uma lógica de opressão fundada nas relações de classe da escravidão. Não somos apenas números programados para morrer, somos pessoas perdendo a vida, somos famílias e amigos perdendo entes queridos, e isso dói e nos machuca terrivelmente, nós não podemos ficar a vida toda em luto, nós não podemos e não conseguimos transformar sempre essa dor em LUTA, nós queremos viver, nós queremos que os nossos vivam.

E é importante lembrarmos: O EXTERMÍNIO DA JUVENTUDE NEGRA E POBRE NESSE PAÍS NÃO ESTÁ EM QUARENTENA, continuamos morrendo agora por um vírus, mas também e principalmente pelas mãos do Estado.

#VidasNegrasImportam
#ParemDeNosMatar
#PeloFimDoGenocidio

 

*David CJ é Militante do Afronte e da RESISTÊNCIA Suzano.

Marcado como:
genocídio negro