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Relatos da Linha de Frente: “Não somos super-heróis, somos seres humanos”

A enfermeira Ana Carolina, de 31 anos, descreve as tensões vividas por ela e pelos colegas no atendimento de casos suspeitos de coronavírus

Sara Eshleman / Wikipedia

Relatos da linha de frente

Esse espaço se propõe a receber relatos das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços essenciais. Devemos ouví-los, aprender e lutar com eles. Essa iniciativa se inspira no espaço aberto pela nova Revista Marxista estadunidense Spectre, que, sob a coordenação de Tithi Bhattacharya, tem recebido uma série de relatos em língua inglesa dos trabalhadores do cuidado de todo o mundo, chamada Dispatches from the Frontlines of Care. Pretendemos nos somar à iniciativa de Bhattacharya, mas também contribuir para que a sociedade brasileira possa ouvir e compartilhar esse momento de crise tão profunda com aquelas e aqueles que estão todos os dias se expondo para garantir nossa sobrevivência. Se você trabalha na linha de frente e quer compartilhar seu cotidiano para que essa história seja conhecida, envie um e-mail para [email protected]. Os relatos enviados podem ser anônimos.

“Eu tenho dois vínculos [empregatícios]: Trabalho numa universidade estadual, a nível ambulatorial, e trabalho numa universidade federal, dentro do hospital universitário. Atendo diretamente suspeitos e confirmados com COVID-19 nos dois casos.

Na universidade estadual, a gente faz a testagem dos profissionais da saúde com sintomas de COVID-19. No hospital universitário, eu já estou atendendo no setor específico para COVID-19, para aqueles que precisam de internação.”

Equipamentos de Proteção Individual

“Nesses dois setores, por questões óbvias, a gente tem insumos: Avental impermeável, touca, máscara N95* e óculos de proteção. Só que eu quero comentar um pouco sobre as máscaras N95, que têm nos trazido muita preocupação. Como se já não bastasse toda a pandemia, a gente ainda tem que se preocupar com os EPIs.

Essa máscara tem uma quantidade de horas de uso. Existem algumas normativas da Anvisa e do Ministério da Saúde que estão prolongando essas horas.

Isso nos preocupa primeiro porque o fabricante não garante a eficácia da máscara fora do tempo de uso que preconizado por ele. Segundo, o armazenamento dessa máscara que, se potencialmente contaminada, [vai ser levada] dentro de bolsa, para sua própria casa, né? É uma preocupação que a gente fica. Aí a gente faz uma reflexão: a vida e a proteção do trabalhador não são baseadas em evidência científica, pelo governo. Ela é meramente econômica.

Deslocamento

“No meu caso, eu tenho carro. Então, [o problema com o deslocamento] é minimizado. Mas eu tenho relatos de muitos colegas que precisam pegar transporte público e que estão vivendo um caos. Como se não bastasse o temor, a insegurança de ter que sair de casa para trabalhar e voltar para casa potencialmente contaminado, podendo contaminar a família, ainda se vive a questão do transporte público, que no Rio de Janeiro foi diminuído drasticamente.

“Tenho colegas de trabalho que estão tendo que gastar duas a três passagens a mais para fazer baldeação, para conseguir chegar à cidade do Rio de Janeiro porque são de outros municípios.”

Se já era difícil pegar uma condução às 5h30, 6h da manhã em tempos normais, imagina agora com a redução da condução. Esses meus colegas estão gastando o que podem e o que não podem com motoristas de aplicativos para conseguir estar às 7h da manhã no plantão. E ainda tem as barreiras intermunicipais para as pessoas que moram em outros municípios.”

“Com relação a universidade federal em que eu trabalho, eles colocaram um ônibus para pegar os moradores da Baixada Fluminense. Mas na universidade estadual, não. Tenho colegas de trabalho que estão tendo que gastar duas a três passagens a mais para fazer baldeação, para conseguir chegar à cidade do Rio de Janeiro porque são de outros municípios. Fora o gasto com motorista de aplicativo.

É um momento em que os profissionais de saúde estão vivendo muita tensão e gasto financeiro para além do que você já estava tendo para trabalhar e que não vai ser reposto, não tem previsão nenhuma para repor. É algo que me preocupa muito e preocupa meus colegas.”

Campanhas midiáticas

“Se fala muito que nós somos super-heróis. Tem até uma figura com vários super-heróis, e no meio deles tem um profissional da saúde com uma máscara cirúrgica, um gorro e um capote. Essa é uma imagem que me angustia muito.”

“Nós não somos super-heróis, somos seres humanos como quaisquer outros. E a gente não quer ser super-herói”

“Nós não somos super-heróis, somos seres humanos como quaisquer outros. E a gente não quer ser super-herói”

“Isso porque, o que você pensa quando se fala em super-herói? Que ele, por si só, se basta. Ele não precisaria de proteção. Com o próprio corpo dele, ele já resolve a parada. Então, esse tipo de comparação me causa muito desconforto. Nós não somos super-heróis, somos seres humanos como quaisquer outros. E a gente não quer ser super-herói. O trabalho na saúde é um trabalho como qualquer outro. A gente está trabalhando porque a gente precisa de salário. Então, essa questão de tratar o trabalhador de saúde como super herói me irrita, na real.”

Políticas de saúde

Hoje, você tem uma política pública de saúde que, na verdade, ficou voltada para a COVID-19. Estou falando do meu cenário, tá? Porque a gente sabe que tem grandes emergências, inclusive UPAs, Clínicas da Família, que atendem casos de COVID e não tem essa realidade de EPIs que a gente tem nos hospitais universitários.

Dentro dos hospitais universitários, todos os insumos foram canalizados para os setores que recebem COVID-19 diretamente e o resto do hospital ficou desabastecido. Isso é gravíssimo porque a gente tem outras doenças que também são infectocontagiosas e que adoecem o trabalhador [de saúde].

Na universidade estadual, a gente atende profissionais sintomáticos para fazer o teste de COVID-19. Qual a nossa experiência? Primeiro, a gente percebe que a qualquer momento pode ser a gente nesse lugar. Segundo, como é um atendimento ambulatorial, as pessoas estão mais hígidas e menos graves. Não tem o desenvolvimento mais grave da doença, a princípio.

Mas o desespero e o temor dos colegas profissionais de saúde nos deixam consternados com a situação. Porque eles falam que onde trabalham não tem EPI suficiente e sequer ofereceram teste para eles, apesar de ser uma unidade de saúde.

Então, nesse momento, a gente tem que fazer o questionamento e a reflexão da importância de um SUS gratuito. Você pega o colega da iniciativa privada, hospital ou a clínica que sequer ofereceu um teste para o trabalhador. Ele foi parar onde? No SUS. O hospital privado encaminhou o profissional para fazer o teste no SUS.”

“Se não fosse o SUS hoje, quantos de nós não estaríamos morrendo sem atendimento?”

“Se não fosse o SUS hoje, quantos de nós não estaríamos morrendo sem atendimento?”

“Então, a gente tem que fazer a discussão da importância de ter o SUS de qualidade. Se não fosse o SUS hoje, quantos de nós não estaríamos morrendo sem atendimento? Porque a iniciativa privada quer saber de lucro. Não quer saber de juramento para isso ou para aquilo. Não existe juramento para a empresa, né? Empresa é empresa. Então é uma coisa que a gente precisa muito discutir com a população, a valorização do SUS. A importância de ter profissionais concursados e servidores públicos com todas as garantias de direitos.

Além disso, sobre como é atender os colegas profissionais de saúde, tem uma questão que é importante colocar: na unidade em que eu trabalho, a gente só faz o teste em profissionais da saúde sintomáticos. Os meus colegas chegam, sintomáticos, e normalmente levam seus parentes. Esposas, filhos… E a gente tem que dizer que não vai testar o familiar daquela pessoa porque é disponibilizado o teste só para o profissional de saúde.

Você pode imaginar o grau de tensão e inconformidade que a gente vive na ponta, ao dizer para um colega que não vamos testar o parente dele porque não tem teste suficiente para todo mundo. Aí ele te fala “mas essa pessoa fica com o meu filho, com a minha mãe idosa, eu preciso saber para organizar o isolamento na minha casa”. E você tem que dizer que não pode fazer porque não tem teste para todo mundo. É uma sensação de impotência. Porque, apesar de ter para o seu colega, você não pode testar o resto da população.”

“Você pode imaginar o grau de tensão e inconformidade que a gente vive na ponta, ao dizer para um colega que não vamos testar o parente dele porque não tem teste suficiente para todo mundo.”

“Você pode imaginar o grau de tensão e inconformidade que a gente vive na ponta, ao dizer para um colega que não vamos testar o parente dele porque não tem teste suficiente para todo mundo.”

“A gente recebe a população que diz que ficou sabendo que tem o teste lá, que está apresentando sintomas. Gente com pessoas idosas em casa, ou que é de fato idosa, e a gente não pode testar essas pessoas. Profissionais de outras categorias que são essenciais tanto quanto a saúde: Motoristas de ônibus, profissionais de segurança, de supermercados. E a gente sem poder testar essas pessoas porque os nossos testes são só para profissionais da saúde. Isso é um absurdo de dimensão que eu não consigo nem descrever.”

 

*N95 é o modelo de máscara recomendada para profissionais de saúde durante a pandemia. Ela protege quem a utiliza da contaminação por gotículas no ar.

 

Entrevista: Tatianny Araújo
Transcrição e edição do relato: Paula Nishizima.
Revisão: Bruna Martins e Rhaysa Ruas
Equipe: Bruna Martins, Carolina Freitas, Karine Afonseca, Rhaysa Ruas, Tatianny Araújo e Paula Nishizima.
Seguimos ouvindo quem encara a pandemia da COVID-19 na linha de frente. Clique aqui e saiba mais sobre a iniciativa Relatos da Linha de frente!

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enfermagem / EPIs