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Malcolm X, sinônimo de resistência

Matheus Gomes

Matheus Gomes é historiador, servidor do IBGE e ativista do movimento social há mais de 10 anos. Sua coluna mostra a visão de um jovem negro e marxista sobre temas da política nacional e internacional, especialmente dos povos da diáspora africana.

Ontem, 19, foi o aniversário de Malcolm X. A grandeza de sua história justifica o registro de algumas reflexões. Nascido em 19 de maio de 1925, foi assassinado em 21 de fevereiro de 1965, no lendário auditório Audubon Ballroom. Nesses tempos difíceis, sua trajetória é fonte de inspiração em vários aspectos. A execução do jovem João Pedro nessa madrugada me faz lembrar, de imediato, a sua coragem pra resistir a repressão de Estado e a violência paramilitar. O que ele disse em “O voto ou a bala” é, infelizmente, atual nos dias de hoje: vai ser liberdade ou morte e temos que estar prontos pra pagar esse preço.

Essa foto já retrata um Malcolm distante dos ideais da Nação do Islã, seita religiosa milionária que considerava o homem branco o “demônio na terra”, mas que foi a responsável por transformar, no interior do sistema penitenciário, o jovem “malandro” de Detroit num abnegado defensor do povo negro. Quando Malcolm incorpora as vestimentas africanas é o período em que sua mente se metamorfoseia numa dinâmica incrível. Ele se converte ao islã ortodoxo e passa a ver a religião como um tema de interesse particular. Viaja profundamente pelo continente africano, entra em contato com nacionalistas, marxistas e as revoluções anti-coloniais e anti-capitalistas que varriam o continente. Malcolm começou a desenvolver um tipo de internacionalismo distinto, multicultural e multirracial. Os EUA tremiam ao seu intuito de denunciar o racismo estadunidense na ONU, naquele período em que o mundo fervilhava anti-imperialismo.

Acho que ninguém conseguiu encarnar as suas ideias. Quando ele morreu, elas estavam num grau de maturação que só permitia que ele as expressasse. Seus próprios discursos finais tem tons distintos, nuances políticas e ideológicas diversas. Sua faceta anti-capitalista é mais destacada por nós, marxistas. É verdade que Malcolm nutriu relações com trotskistas estadunidenses quando rompeu com a Nação do Islã, teve contato com Che Guevara, Fidel Castro e os marxistas do continente africano. É correto dizer, a partir das suas ideias, que ele caminhava para um programa anticapitalista, mas é errado pensá-lo apenas assim nessa lógica. Buscar entender seu pensamento de forma global é o desafio mais instigante para pensar suas contribuições hoje.

Cito duas questões para exemplificar essa lógica. Primeiramente, sua consciência da violência como instrumento libertador, no sentido do potencial criador de consciência que se referia Fanon, é um elemento de reflexão necessária para o enfrentamento da onda neofascista a nível nacional e internacional. Outro aspecto: ao fundar a Organização da Unidade Afro-Americana, Malcolm rompe com o sectarismo racial e religioso, mas, reforça a necessidade de auto-organização negra, ao passo que começa a pensar de forma mais intensa as alianças com outros segmentos sociais a partir daí. É um tema fundamental para a nossa geração de movimento negro, a dialética entre unidade e enfrentamento.

Enfim, Malcolm X é sinônimo de resistência, sua obra precisa ser conhecida pelos povos do mundo inteiro, especialmente a maioria não-branca, explorada e oprimida! Viva Malcolm X!

 

Referências bibliográficas:

Malcolm X – O voto ou a bala

Malcolm X – uma vida reinvenções. Manning Marable

O legado de Malcolm X – Ahmed Shawki

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