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“Essencialmente” descartável: o trabalho na construção civil em tempos de COVID

Da série: Relatos da Linha de Frente (Dispatches from the Frontline of Care)

lucia_lucci/stock.adobe.com/Spectre

Relatos da linha de frente

Esse espaço se propõe a receber relatos das trabalhadoras e trabalhadores dos serviços essenciais. Devemos ouví-los, aprender e lutar com eles. Essa iniciativa se inspira no espaço aberto pela nova Revista Marxista estadunidense Spectre, que, sob a coordenação de Tithi Bhattacharya, tem recebido uma série de relatos em língua inglesa dos trabalhadores do cuidado de todo o mundo, chamada Dispatches from the Frontlines of Care. Pretendemos nos somar à iniciativa de Bhattacharya, mas também contribuir para que a sociedade brasileira possa ouvir e compartilhar esse momento de crise tão profunda com aquelas e aqueles que estão todos os dias se expondo para garantir nossa sobrevivência. Se você trabalha na linha de frente e quer compartilhar seu cotidiano para que essa história seja conhecida, envie um e-mail para [email protected]. Os relatos enviados podem ser anônimos.

Tradução: Márcio Musse. Revisão técnica: Carolina Freitas


Megan Kinch – 02 de maio
Megan Kinch é eletricista na construção civil e escritora.
Graduação escolar interrompida e mãe solteira, ela escreve de Toronto, Canadá.

 



Estou ficando chocada. Estou usando uma bandana no rosto. Acho completamente idiota que, em pleno 2020, tudo o que consigo achar para proteger meu rosto seja um pedaço de tecido. Estou em um elevador lotado, respirando o mesmo ar que todos os outros. A maioria das pessoas está tirando sarro de mim ou agindo como se eu fosse uma doida paranóica. Mas um trabalhador que não conheço bem, supervisor de outra seção, olha nos meus olhos com compaixão. Percebo que ele também leva a sério essa questão.

Ele sussurra para mim: “Vocês não têm máscaras?” Eu digo: “Não, não consigo uma máscara N95 há meses” (nós os usamos no setor regularmente no trabalho, para concreto e outras poeiras). Ele me diz: “Temos algumas”.

Eu o sigo do elevador e entro em seu escritório, onde ele me deu não apenas uma, mas uma pilha de cinco preciosas máscaras N95. Estou quase chorando pelo ato altruísta de solidariedade de um homem que eu sequer conheço. Digo a ele que só estou trabalhando porque sou a última pessoa da minha família e comunidade que ainda tem um emprego.

Mais tarde, esse supervisor deixa o local, levando toda sua equipe com ele. Ele colocou seu emprego em risco para proteger seus trabalhadores. Estou muito emocionada. Fico pensando se deveria fazer o mesmo.

Esperamos o fechamento a qualquer dia. No dia 25 de março, o estado de Ontário encerra todos os locais de trabalho “não essenciais”, no entanto, toda construção é considerada essencial. Continuamos trabalhando. As escolas estão fechadas, os restaurantes estão fechados, encontros com mais de cinco pessoas são proibidos, e aqui estamos, trabalhando junto a centenas de pessoas, respirando umas sobre as outras, com banheiros limitados, com pessoas voltando das férias de março direto para o local de trabalho. E algumas ainda estão tossindo.

“Mais tarde, esse supervisor deixa o local, levando toda sua equipe com ele. Ele colocou seu emprego em risco para proteger seus trabalhadores. Estou muito emocionada. Fico pensando se deveria fazer o mesmo.”

“Mais tarde, esse supervisor deixa o local, levando toda sua equipe com ele. Ele colocou seu emprego em risco para proteger seus trabalhadores. Estou muito emocionada. Fico pensando se deveria fazer o mesmo.”

Voltando ao início de março – um mundo diferente. Tivemos uma reunião de segurança no meu canteiro de obras. O representante de segurança leu um relatório bastante detalhado descrevendo o novo coronavírus e como os locais de trabalho deveriam adotar procedimentos especiais de lavagem das mãos e saneamento. Então ele parou e acrescentou seu próprio comentário: “Isso é uma gripe, pessoal. Vocês estão notando que as pessoas estão enlouquecendo por causa de gripe”.

Eu não pude evitar e gritei do fundo da sala: “Não é gripe! É SARS!”. Trabalhamos em Toronto, que lidou com um surto contido de SARS-1 em 2003, mas foi muito confuso, e a cidade chegou perto de ter transmissão comunitária real. O representante de segurança reafirmou com convicção: “É a gripe! A gripe é realmente muito séria, você parece não entender isso”. Eu apenas balancei minha cabeça.

Sentado ao meu lado, um trabalhador chinês se levantou. Ele fez um breve discurso, com um inglês truncado, sobre como a ameaça do COVID-19 era muito real, que sua família na China havia sido afetada e como deveríamos estar instalando desinfetantes para as mãos nas entradas da obra. Nos canteiros de obras, em geral, os trabalhadores asiáticos enfrentam muita discriminação no local de trabalho; então, ele foi incrivelmente corajoso ao se colocar dessa forma. O representante de segurança não lhe deu atenção, disse que ele não sabia do que estava falando e se recusou a colocar desinfetantes nas entradas.

Poucas semanas depois, esse representante de segurança demitiria o mesmo trabalhador chinês, porque sua esposa havia sido exposta ao vírus em seu local de trabalho. Foi, até onde eu sei, a única ação de segurança que o representante tomou – demitir um trabalhador chinês que tinha muito mais conhecimento e preocupação com o vírus do que ele.

Esse incidente foi um precursor de como a contenção de vírus ocorreria no meu local de trabalho e dentro do setor de construção civil como um todo. A política geral era continuar trabalhando como de costume, acompanhados de práticas sanitárias terríveis. A gerência responsável pela segurança não pôde ou não quis fazer nada para lidar com esse novo e muito presente risco à nossa saúde.

A indústria da construção civil é dura; mesmo quando somos sindicalizados, o emprego é sempre precário. Somos basicamente diaristas, apesar de alguns de nós ganharem 90 mil CAD (Dólar Canadense) por ano, enquanto outros trabalhadores da construção civil, no mesmo local, vivem em abrigos para sem-teto. Com os locais de trabalho mudando constantemente, as pessoas dependem de conexões familiares, redes étnicas e amizades pessoais para o próximo trabalho. Os sindicatos ajudam a atenuar parte dessa instabilidade, especialmente relativa à faixa salarial, mas não a eliminam, e você sempre pode ser demitido por uma “falta de serviço”.

Nesse ambiente de insegurança no emprego, falar sobre segurança do trabalho é sempre um risco enorme. Se você se pronuncia, arrisca seu emprego. Você corre o risco de ser rotulada como causadora de problemas e incluída na lista de perseguidos. Você está fazendo rotineiramente um trabalho perigoso e está preocupada com o fato de que, se o inspetor de segurança passar, seu emprego também corre risco por causa dele. Na orientação, você é instruída a não trabalhar em uma escada e, em seguida, recebe uma escada e recebe a tarefa de instalar luzes no teto. E se você cair da escada, será multada por ignorar a regra de segurança que recebeu na orientação. Agora, pegue esse setor, acostumado a lidar com riscos físicos, como cair ou ser esmagada sob um muro desabado, e acrescente uma nova ameaça biológica que ainda é pouco conhecida.

Ao longo de março, outros setores da economia continuaram sendo fechados. Restaurantes e cafés foram fechados. Todos os shows e grandes encontros foram cancelados. Mas nós continuamos indo ao trabalho. Nossa atividade foi marcada como “essencial”. Meus colegas de trabalho, por meio de grupos privados do WhatsApp e mensagens de texto, começaram a expressar suas dúvidas: construir um cassino é “essencial”? A reforma de um escritório que não será usado é “essencial”? Construir um condomínio com unidades de um milhão de dólares, que são principalmente oportunidades de investimento e não moradias, é “essencial”? O que dizer de um novo tribunal que não seria concluído em menos de dois anos? Somos olhados com reprovação na rua quando andamos juntos para tomar café sem distanciamento social, e ainda assim estamos trabalhando literalmente um em cima do outro, o dia inteiro.

Nossos banheiros estão sempre imundos. Às vezes nem temos banheiros; especialmente os trabalhadores que recebem por peça, que frequentemente precisam urinar em garrafas deixadas por todo o local. Não é incomum encontrar uma pilha de merda humana em uma escada ou um armário. Eu conhecia um trabalhador que, todos os dias, aparecia para trabalhar bêbado e vomitava todas as manhãs, em todas as varandas inacabadas. Os banheiros químicos nos canteiros acabam com pilhas de merda que se acumulam em cima dos assentos, e as pessoas agacham-se no assento para acumularem ainda mais. As trabalhadoras geralmente ficam trancadas nos banheiros das mulheres quando existem (e geralmente não existem) e as trabalhadoras trans enfrentam muita discriminação e falta de acesso a quaisquer instalações. E esses são locais com presença sindical em grandes empregos, com as melhores condições da categoria.

“o mesmo representante de segurança demitiria o mesmo trabalhador chinês porque sua esposa havia sido exposta ao vírus em seu local de trabalho. Foi, até onde eu sei, a única ação de segurança que o representante tomou – demitir um trabalhador chinês que tinha muito mais conhecimento e preocupação com o vírus do que ele.”

“o mesmo representante de segurança demitiria o mesmo trabalhador chinês porque sua esposa havia sido exposta ao vírus em seu local de trabalho. Foi, até onde eu sei, a única ação de segurança que o representante tomou – demitir um trabalhador chinês que tinha muito mais conhecimento e preocupação com o vírus do que ele.”

Para mim, o pior aspecto da questão dos banheiros é que somos trabalhadores da construção civil. Podemos facilmente construir banheiros temporários ou estações de lavagem das mãos com o mínimo de esforço – usando tubos de água temporários, construir uma cabana de madeira e instalar iluminações são tarefas simples para nós. Mas eles não nos permitem construí-los. Às vezes, construímos banheiros em suítes e, quando se tornam funcionais, eles os trancam, deixando-nos sem alternativa, apesar do fato de estarmos literalmente construindo banheiros. Enquanto isso, a equipe de supervisão tem seus próprios banheiros separados e limpos com água corrente. Tudo isso leva à revolta e ao ressentimento, como expresso pelos grafites nas paredes e por alguns trabalhadores expressando suas frustrações cagando e mijando nas coisas, e às vezes destruindo os banheiros toscos que existem.

Enquanto isso, nos é dada outra “orientação sobre segurança”. “Certifique-se de lavar as mãos”, diz o representante de segurança, “especialmente se tossir ou tocar seu rosto, ou antes de comer”. Não há uma pia a duzentos metros de nossa cantina. Há apenas um punhado de banheiros para centenas de trabalhadores. Assinamos formulários dizendo que lavaremos as mãos, embora saibamos que não temos onde lavar as mãos.

O banheiro das mulheres é escuro como breu porque a iluminação temporária não funciona e ninguém vai consertar. A pia é de plástico ruim e tem duas bases quebradas por algum motivo (talvez alguém tenha subido nela em uma tentativa fracassada de consertar a luz). Alguém a apoiou nas duas bases restantes e agora a água não está drenando. Como está escuro, esqueci acidentalmente meu alicate no banheiro e um dos trabalhadores o roubou (ouvi isso de outro trabalhador). Me parece que as coisas estão, de uma forma geral, desmoronando.

O fato é que, de acordo com o Green Book (Livro Verde), o código de segurança no Canadá, os representantes de segurança do trabalho devem ser eleitos, mas isso nunca acontece. Deveria haver um conselho de segurança de diferentes empresas que se reunisse semanalmente e impulsionasse ideias, enumerasse problemas de segurança e apontasse sua solução na sequência. Tal conselho até existe, mas ele não faz nada; existe um representante, mas não é eleito e todos estão aparentemente amarrados a ele. O sindicato deveria proteger nossa saúde e segurança, mas eles assinaram contratos com cláusulas anti-greve e parecem desinteressados ​​no que está acontecendo ou no que é de fato necessário.

Um colega meu sofreu um choque elétrico bastante grave. Já é péssimo que ele tenha que ir  ao hospital para checar seu coração. O Ministério do Trabalho e o sindicato normalmente aparecem para fazer uma inspeção nesses casos. Eles selam a área com faixa isolante amarela para a investigação, mas ninguém apareceu. Meu colega se demitiu do emprego. Ele diz que foi a segunda vez que levou um choque no local. Ele disse, com lágrimas nos olhos, que antes de ter uma família, não tinha razão para viver e não se importava se levasse choques, mas agora ele tem, e por isso não vai mais trabalhar lá.

Eu e alguns outros aprendizes estamos movendo caixas. Temos que atravessar dois prédios, pegar elevadores lotados com muitos outros trabalhadores e levar as caixas pelas ruas movimentadas da cidade. Em um prédio, o operador do elevador está usando uma máscara N95 e há sinais limitando o número de pessoas que podem usar os elevadores. Mas no outro prédio onde temos que trabalhar, ninguém tem máscaras e dezenas de trabalhadores amontoam suas ferramentas no elevador de carga. Nos dois prédios, as pessoas estão frenéticas. “Olhe para esta foto, mano”, diz um trabalhador para outro. “Meu amigo está trabalhando em outro local e ele diz que esse cara estava com febre, tossia bastante e desmaiou no local! Eles mandaram uma ambulância e o levaram embora! E todo mundo continua trabalhando! Ele me enviou essas fotos da ambulância”. De alguma forma, é esperado de nós que continuemos trabalhando e sendo produtivos nessas condições.

“Olhe para esta foto, mano”, diz um trabalhador para outro. “Meu amigo está trabalhando em outro local e ele diz que esse cara estava com febre, tossia bastante e desmaiou no local! Eles mandaram uma ambulância e o levaram embora! E todo mundo continua trabalhando! Ele me enviou essas fotos da ambulância”. De alguma forma, é esperado de nós que continuemos trabalhando e sendo produtivos nessas condições.

“Olhe para esta foto, mano”, diz um trabalhador para outro. “Meu amigo está trabalhando em outro local e ele diz que esse cara estava com febre, tossia bastante e desmaiou no local! Eles mandaram uma ambulância e o levaram embora! E todo mundo continua trabalhando! Ele me enviou essas fotos da ambulância”. De alguma forma, é esperado de nós que continuemos trabalhando e sendo produtivos nessas condições.

Ouvimos dizer que nosso sindicato fez um acordo com as empresas para permitir demissões temporárias e que obtenhamos seguro de emprego, e mesmo assim ainda estamos trabalhando. As pessoas estão abandonando o local de trabalho. Uma equipe de colocadores de piso foi embora (o pessoal do piso! Logo eles, que não são famosos por se preocuparem com segurança).

Se a indústria da construção se preocupa com a segurança, é apenas por causa dos processos que podem vir a responder, não por nossa saúde. Os empreiteiros gerais que constroem o prédio e os subempreiteiros para os quais trabalhamos parecem estar em uma queda de braço para ver quem cancelará primeiro. Enquanto isso, nossas vidas estão em risco, e temos que tomar decisões individualmente sobre o quanto de risco podemos correr.

Um aprendiz, com menos de um ano de atividade, fez uma piada irônica: “Se ao menos houvesse algum tipo de órgão que cuidasse de nossa segurança enquanto os contratantes e subcontratantes não o fazem”. Outro trabalhador respondeu: “Sim, algum tipo de organização … como um sindicato de pessoas trabalhando juntas!”.

Somos trabalhadores sindicalizados e, no entanto, durante essa crise global de saúde, parece que somos apenas indivíduos. Agora está claro que qualquer organização que aconteça será feita pela base, com os trabalhadores conversando entre si. Respeito muito esse tipo de experiência de organização. Mas, pessoalmente, não quero estar nesse tipo de união de base agora, pois quero estar em algo poderoso e organizado, com dinheiro, advogados, representantes sindicais. Supostamente, sou membro de algo assim, mas de alguma forma acabo não me percebendo como tal.

No dia 25 de março, Ontário encerrou todas as “construções não essenciais”. No entanto, eles classificam qualquer construção como essencial. Certamente, o hospital Vaughn, que está quase pronto, é essencial. Mas tenho amigos trabalhando em um cassino, reformando escritórios que nunca abrirão e construindo condomínios. Mais tarde, no dia 3 de abril, mais canteiros de obras foram fechados, mas não construções residenciais ou quaisquer trabalhos que sejam para o governo. Ter trabalhadores andando em prédios ocupados, junto com centenas de pessoas, para fazer obras de reformas que permitirão aos proprietários aumentarem o aluguel depois de despejarem a pessoa que está morando lá é considerado “essencial”.

Estou tentando trabalhar usando uma máscara facial e minhas luvas de trabalho; mas tenho décadas de hábitos arraigados em usar luvas para proteção física, não para riscos biológicos, por isso acabo removendo-as incorretamente. Estou tendo problemas para me concentrar no trabalho: o que é um problema, pois meu trabalho é perigoso. Estou ficando desatenta porque estou constantemente tentando encontrar formas de fazer esse trabalho de uma maneira que não me exponha ao vírus.

Tantas perguntas me passam pela cabeça: onde eu vou almoçar? Não há um lugar que seja “limpo”; todo o ambiente de trabalho está potencialmente contaminado. Também estou exausta porque comecei a ir ao trabalho de bicicleta para evitar o trânsito, o que não estou acostumada. Além disso, tenho que comprar mantimentos, fazer o jantar e cuidar da minha filha quando chego em casa. Comprar mantimentos agora envolve longas filas; todos os restaurantes estão fechados. Eu nem me sinto segura em tomar um café, mas aqui estou trabalhando junto a uma centena de outros trabalhadores.

Em que sentido somos essenciais? Essenciais para a economia? Certamente, há algumas construções que são absolutamente essenciais, como um hospital na zona norte de Toronto que está quase pronto. Mas a maior parte do trabalho que estamos fazendo simplesmente não é essencial.

Mesmo ter um emprego agora parece uma responsabilidade terrível. Como posso deixar meu emprego quando não sei se vou conseguir outro? Eu me qualificarei para o seguro de emprego se eu “desistir”, já que meu local de trabalho ainda está em operação? Serei incluída em alguma lista de perseguidos? Sou nova neste local e ninguém me conhece. E sou uma mulher em um setor com menos de 3% de mulheres, o que me deixa duplamente vulnerável.

Mas ao final, eu acabei indo embora.

“Um aprendiz, com menos de um ano de atividade, fez uma piada irônica: “Se ao menos houvesse algum tipo de órgão que cuidasse de nossa segurança no momento em que os contratantes e subcontratantes não o fazem”. Outro trabalhador respondeu: “Sim, algum tipo de organização … como um sindicato de pessoas trabalhando juntas !!” Somos trabalhadores sindicalizados e, no entanto, durante essa crise global de saúde, parece que somos apenas indivíduos”

“Um aprendiz, com menos de um ano de atividade, fez uma piada irônica: “Se ao menos houvesse algum tipo de órgão que cuidasse de nossa segurança no momento em que os contratantes e subcontratantes não o fazem”. Outro trabalhador respondeu: “Sim, algum tipo de organização … como um sindicato de pessoas trabalhando juntas !!” Somos trabalhadores sindicalizados e, no entanto, durante essa crise global de saúde, parece que somos apenas indivíduos”

Agora, estou em casa em um lockdown parcial. Não sei se acabei sendo incluída por culpa minha na lista de perseguidos por falar sobre as condições do setor. Não sei quando poderei voltar ao trabalho, ou mesmo se haverá uma economia para trabalhar no futuro.

Acontece que eu posso receber o benefício de emprego do Canadá, mas é menor do que o que eu normalmente obteria com o seguro desemprego. Estou escrevendo artigos e fazendo entrevistas nas mídias sociais e rádio e TV sobre segurança na construção civil. Estou preocupada em entrar na lista de perseguidos e nunca terminar este último ano do meu aprendizado. Estou preocupada que meu setor seja um grande centro de epidemias.

Observo meus amigos mais chegados, o pai do meu filho, meus antigos colegas de trabalho, ainda arriscando suas vidas para trabalhar na construção. Por quê? Não somos essenciais, não estamos salvando a vida das pessoas, não somos uma parte crítica da cadeia logística que fornece alimentos ou itens essenciais. Agora, as pessoas estão ligando para as centrais de denúncias e tirando fotos dos trabalhadores da construção por não adotarem o distanciamento social correto. Obviamente, é impossível distanciar-se socialmente: assim como com a segurança “normal” da construção civil, o trabalhador é solicitado a fazer coisas que não pode e depois é culpado quando não cumpre as normas de segurança.

É sempre culpa do trabalhador individual e, de alguma forma, as grandes empresas e instituições que deveriam estar fazendo algo sobre a sua segurança simplesmente não o fazem. Incluindo o governo, que decidiu nos sacrificar no altar da economia.