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Unidade de ação e Frente Ampla são duas táticas diferentes

Valerio Arcary

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Hoje é Primeiro de Maio. O dia internacional em que defendemos a luta e celebramos a independência política da classe trabalhadora. Em qualquer situação política é necessário, em primeiro lugar, responder a uma pergunta: qual é o nosso inimigo central? Esse é sempre o centro de uma definição tática. Porque não é possível lutar contra todos, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade. Se todos os inimigos são prioritários, não há prioridade. O problema se colocou de forma aguda durante as eleições de 2018, e agora novamente.

Se Bolsonaro é o líder de uma ala neofascista de um governo de extrema direita que tem como projeto impor uma derrota histórica à classe trabalhadora, subverter a partir da presidência o regime liberal-eleitoral, anulando as já limitadas liberdades democráticas, e destruir a esquerda não deveria haver dúvidas. Ele é o inimigo central.

A estratégia central que a esquerda brasileira pode resgatar da experiência histórica é a necessidade da Frente Única de Esquerda, operária e popular para derrotar o neofascismo. Ela é indivisível da perspectiva de um governo de esquerda. Associada a ela, desdobram-se várias táticas.

Por quê? Por uma razão fundamental: de classe, que remete à questão do poder. Nenhuma fração da classe dominante merece confiança. Preferem aceitar as monstruosidades de Bolsonaro, se sentirem que podem vir a ser ameaçados pela esquerda, ou estiverem diante do risco de mobilizações de massas incontíveis. Toda e qualquer aliança com setores burgueses em dissidência com Bolsonaro será pontual.

A tática de unidade na ação é um recurso legítimo e necessário, em especial, quando a defesa das liberdades democráticas, ou uma causa humanitária como salvar vidas diante de uma pandemia devastadora, está em disputa. Mas há uma diferença enorme entre a unidade de ação pontual, e uma Frente Ampla sobre um programa. A primeira é uma alavanca, a segunda uma armadilha. A primeira é, estritamente, defensiva. A segunda envolve uma perspectiva policlassista de luta pelo poder. A primeira fortalece a estratégia, a segunda a enfraquece.

Estamos diante de uma confusão perigosa entre unidades de ação que podemos fazer, e Frentes Amplas que devemos evitar. E temos exemplos de que a esquerda não deve entrar na contramão. Um exemplo: o maior perigo não é o abuso de poder do STF contra Bolsonaro, mas a concentração de poder nas mãos de Bolsonaro. Outro exemplo: não é possível, no 1º de Maio, unidade da CUT e Força Sindical para garantir a presença de FHC, Dória, Wizel, Maia e Alcolumbre, sem uma divisão com a Frente Povo Sem Medo, o MTST, o PSol, PCB,  a Intersindical, CSP/Conlutas.

Portanto, quando Bolsonaro avança para tomar controle da Polícia Federal, a política da esquerda não pode ser defender o seu “direito” de nomear quem quiser porque foi “eleito”. Direitos são limitados por outros direitos. Não existem em abstrato, fora da cruel disputa política de interesses em sociedade fragmentada. O direito democrático de nos protegermos de Bolsonaro é anterior, e muito mais importante. O seu poder bonapartista aumentaria, absurdamente, tendo o controle da Polícia Federal. Devemos estar em unidade de ação pontual com a decisão do STF contra a nomeação de Ramagem.

Creio que todos sentimos uma profunda repulsa e enorme desconfiança quando a judicialização da política se agiganta. A operação LavaJato levou essa usurpação de poder até ao limite máximo, ao condenar e prender Lula impedindo que fosse candidato em 2018. Mas, sejamos lúcidos, e mantenhamos sentido das proporções: “uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa”. Se o perigo representado por Bolsonaro é real e imediato, e deve ser levado a sério, não o defendemos diante do STF, seja ou não monocrática a decisão. A forma da decisão parece ser igual aquela de Gilmar Mendes contra a nomeação de Lula para ministro da Casa Civil de Dilma, mas o conteúdo é oposto. A decisão de Gilmar Mendes foi decisiva para preparar o golpe do impeachment. A decisão de Alexandre de Moraes freia o apetite bonapartista de Bolsonaro.

Podemos evitar armadilhas como a arquitetura de um 1º de Maio em Frente Ampla. FHC, e até Maia e Alcolumbre, que estão paralisados diante da ofensiva de Bolsonaro, foram convidados, embora não tenham comparecido. Fazê-lo, justamente, no dia 1º de Maio, a data mais simbólica da história do movimento sindical, quando cinco milhões de trabalhadores já estão sofrendo as consequências de políticas aprovadas pelo Congresso, parece um erro grotesco.

Resultado: não ganhamos nada, e o movimento sindical rachou. Um desastre.