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Diferenças entre o fascismo e o neofascismo: provocações iniciais para o debate

Direita Volver

Coluna dedicada ao acompanhamento semanal das ações e absurdos dos representantes da extrema direita. Por Ademar Lourenço.

O termo “neofascismo” é muito usado para definir governos como o de Jair Bolsonaro no Brasil, Victor Orban na Hungria, Donald Trump nos EUA, entre outros. Mas é um termo ainda bem vago. Não existe uma obra acadêmica de grande porte definindo exatamente o que é este tal neofascismo.

Em primeiro lugar, devemos nos questionar porque usar o termo “neo”, já que estes governos de retórica nacionalista, conservadora, violenta e de ataque às minorias poderiam simplesmente ser caracterizados como fascistas, dispensando o prefixo. Isto se seguirmos a definição de Umberto Eco em sua pequena mas importante obra “O fascismo eterno”.

Mas as coisas não são tão simples. Movimentos como o de Mateo Salvini na Itália, Marine Le Pen na França ou o Vox espanhol têm características diferente e até mesmo contraditórias com o fascismo clássico. Os princípios e objetivos são os mesmos de Hitler e Mussolini: esmagar a classe trabalhadora com violência e implantar uma ditadura brutal em favor da burguesia. Mas há algumas diferenças nos métodos.

É necessário começar o debate para uma definição mais precisa do que é o neofascismo. É uma tarefa que consumirá pesquisas, teses de doutorado e estudos aprofundados. Mas, a fim de fazer uma pequena provocação inicial, podemos apontar algumas diferenças visíveis entre o fascismo e o neofascismo:

  • O neofascismo não é nacionalista como o fascismo. Bolsonaro não pratica o “Brasil acima de tudo”. Ele é submisso às ordens de Donald Trump, seu maior alidado. Nem na Europa vemos os líderes neofascistas querendo isolar seus países do mundo. Para o neofascismo, as alianças internacionais são fundamentais. Seria um fascismo “internacionalista”? Não. Os neofascistas em seus discursos separam bem o que seriam nações “do bem” das nações “do mal”. Eles exaltam a supremacia da sociedade ocidental e branca. Para eles, a sociedade perfeita é guiada pelos ideias clássicos do direito romano e da religião cristã. E isto deve ser estabelecido independente de fronteiras. O nacionalismo de cada estado é trocado por uma espécie de pan-nacionalismo branco, cristão e ocidental. E é com base neste nacionalismo estendido que as alianças são firmadas. Por isto o discurso fortemente anti-islâmico. Eles não pregam uma guerra entre países, pregam uma guerra entre “civilizações”.
  • É uma característica de qualquer movimento fascista o uso da violência como linguagem política. A violência não é vista apenas como um meio para se atingir um fim, ela é um fim em si mesmo. Os fascistas clássicos armam milícias, com uniformes padronizados e hierarquia bem definida. Eram os camisas pardas, os camisas pretas, os camisas verdes e assim por diante. O neofascismo também tem a violência como princípio, mas age de outra forma. Seus líderes excitam os instintos violentos de suas bases de maneira difusa, e a resposta são ataques de pequenos grupos ou indivíduos sem uma ordem expressa. Quando Bolsonaro vai para a TV falar em “fuzilar a petralhada” durante as eleições, seus militância recebe a mensagem e coloca ela em prática da maneira que quiser. O resultado foram os mais de 50 episódios de violência durante o processo eleitoral, incluindo o assassinato do mestre Moa. A violência pode vir da pessoa que se senta na mesa ao lado em um bar, do carro que atravessa a rua, do vizinho, de qualquer um que esteja estimulado pelas mensagens do líder neofascista. Sabemos bem que estes líderes têm dados detalhados sobre o perfil psicológico de sua audiência e podem mandar mensagens personalizadas para cada tipo de público. Com isto, é fácil estimular os mais mentalmente perturbados a usar a violência, tendo um exército de malucos que pode ser ativado a qualquer momento.

 

  • A retórica do fascismo clássico era voltada para a classe trabalhadora. Os fascistas até se apropriavam de símbolos da esquerda, que na década de trinta tinha uma grande audiência. Mussolini tinha um discurso antielitista e voltado para o “homem comum”. Os fascistas se diziam antiliberais e criticavam a ganância do que eles chamavam de burguesia antipatriótica. Na prática, eles favoreciam a burguesia que os financiava e atacavam duramente os movimentos de trabalhadores. O neofascismo conseguiu promover as pazes entre economia de mercado e estado totalitário. Ele consegue unir a violência e o autoritarismo típico do fascismo ao discurso do empreendedorismo. O “homem ideal” do neofascismo é aquele que trabalha da hora que acorda até a hora que dorme para enriquecer sem pedir favores ao estado. Isto pode mudar de país para país

 

  • O fascismo clássico tinha uma retórica de ódio contra os judeus. O objetivo de Hitler era uma Europa sem os judeus, que, segundo o líder alemão, eram uma raça que sabotava a nação. Agora o neofascismo gira sua carga de ódio contra os muçulmanos. Em alguns casos, ainda há uma dose de antissemitismo. Em outros, as pazes com os judeus é sacramentada com o apoio a Israel (EUA e Brasil são os casos mais notórios). Afinal, os judeus já saíram da Europa e agora apoiam a “civilização ocidental” contra os árabes muçulmanos, sendo aliados táticos. O preconceito contra muçulmanos em geral é estimulado em uma retórica de “guerra de civilizações”. Tal como no fascismo, as tensões sociais são desviadas para a luta contra o “inimigo da nação”. O que o neofascismo faz é trocar de “inimigo”.

 

  • O fascismo tem um discurso de negação das individualidades. Ele é “coletivista” na medida que contrapõe uma “nação” contra a outra. Na prática, as pessoas continuam se odiando e a solidariedade é vista como um ilusão inútil. Mas as pessoas da mesma “raça” e “nação” devem se unir contra o inimigo em comum. O fascismo nunca foi realmente coletivista, mas pregou a união pelo ódio. Por isto o culto à hierarquia e à disciplina. No neofascismo, o desprezo pela solidariedade social é mais evidente. Nem sequer uma união de “raça” e “nação” eles pregam. Apenas a comunhão pelo ódio ao inimigo. Fora este ódio, que as pessoas continuem competindo de maneira bárbara. Claro, existem nuances de país para país. EUA e Brasil são os casos de neofascismo mais bem definido. Na Europa, ainda há elementos do fascismo clássico. Em todos os casos, os neofascistas fazem as pazes com o individualismo burguês. Competição selvagem dos membros da “nação eleita” entre si, e união da “nação eleita” contra o inimigo comum: os muçulmanos, o imigrantes, os LGBTs, as feministas e as minorias em geral. Este é o eixo da ideologia neofascista.

Como dito no início, isto é apenas uma provocação para o debate. Há muito estudo a ser feito. Mas fazendo uma análise superficial do que sabemos sobre neofascismo, estes elementos podem ser um fio da meada para o início de uma pesquisa séria.

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