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A sociedade está doente

Cid Benjamin

Líder estudantil nos movimentos de 1968, figura destacada na guerrilha urbana contra a ditadura e dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro, Cid Benjamin viveu a clandestinidade, a prisão e a tortura. Libertado em troca do embaixador alemão, sequestrado pela guerrilha, passou quase dez anos no exílio. De volta ao Brasil, foi fundador e dirigente do PT e, depois, participou da criação do PSOL. Jornalista e professor, trabalhou em sindicatos, faculdades e veículos como “O Globo” e “Jornal do Brasil”. Foi, também, superintendente de Comunicação da OAB-RJ e editor-chefe da revista Socialismo e Liberdade, da Fundação Lauro Campos, do PSol. É autor dos livros “Hélio Luz, um xerife de esquerda” (Relume Dumará, 1998), “Gracias a la vida” (José Olympio, 2014) e “Reflexões rebeldes” (José Olympio, 2016). Organizou, ainda, a coletânea “Meio século de 68 – Barricadas, história e política” (Mauad, 2018), juntamente com Felipe Demier.
Seus textos são publicados também no Jornal do Brasil e na revista Fórum

O que manda o bom senso quando ocorre um sequestro como o de terça-feira (20) num ônibus na Ponte Rio-Niterói? Negociar, negociar e negociar. Cansar o sequestrador, mostrando-lhe que o mais sensato é a rendição. Para tal, múltiplas iniciativas podem ser tomadas. Convocar psicólogos e especialistas em negociação, levar a família e pessoas do entorno do sequestrador para auxiliar no convencimento etc. E ter paciência, muita paciência.

Claro, se há ataque a algum refém ou algum gesto do sequestrador que coloque em risco imediato a vida de alguém, justifica-se que seja “abatido”, para usar uma expressão ao gosto do governador Wilson Witzel. Mas o fato de o sequestrador ter amarrado as mãos dos reféns e estar com gasolina não configura essa situação.

Não se configurou risco mediato aos reféns. O sequestrador chegou a sair do ônibus e ficar a poucos metros dos policiais, conversando com eles.

Por isso, erra quem afirma que a polícia agiu corretamente ao matá-lo. Aliás, não foram tiros característicos daqueles disparados por um sniper. O sequestrador recebeu seis disparos, um deles na perna. Em geral, o sniper, quando entra em ação, faz um único disparo, certeiro, imobilizando o alvo.

Assim, ao contrário do que tem sido dito, não foi uma ação correta da polícia, do ponto de vista profissional.

E pergunto eu: a polícia não dispõe de armas que disparam projéteis com tranquilizantes, semelhantes aos usados por alguns caçadores? Se não tem, deve providenciá-las.

A ação policial na ponte foi algo bem ao estilo cowboy do governador.

E, depois, o comportamento de Witzel, foi chocante.

Morto o sequestrador e encerrado o episódio, o governador entra num helicóptero, vai ao local acompanhado de assessores que filmavam sua performance e sai dando pulos e socos no ar, como fazia Pelé ao comemorar um gol.

Em seguida, anunciou a promoção por bravura (!!!!) dos policiais envolvidos na operação. O que é isso se não o estímulo à letalidade das ações policiais?

É espantoso como as críticas a esse comportamento doentio ficaram restritas às redes sociais.

Que o governador agisse assim, não foi surpresa. Já é conhecido o seu estilo.

Que não houvesse uma dura reação da sociedade, é preocupante.

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Wilson Witzel