Bordel Brasil (Parte 2)

Paulo César de Carvalho

Paulo César de Carvalho, o Paulinho, é bacharel em Direito (USP), mestre em Linguística e Semiótica (USP), professor de Língua Portuguesa (lecionou na ECA-USP) e autor de materiais didáticos de Gramática, Redação e Interpretação de Texto. Publicou seis livros de poesia, constando em antologias literárias no Brasil e em Portugal (como em É agora como nunca, da Companhia das Letras, organizada por Adriana Calcanhoto). Compositor, tem canções gravadas por diversos músicos da cena contemporânea. Foi militante da organização trotskista Convergência Socialista.

 

 

4 – Puteiro de classe

As palavras sempre dizem mais do que supõe a vã filosofia dos enunciadores. Para explicar a paráfrase, recordemos que alguns dos adjetivos qualificadores do rito condenatório de Lula foram “obsceno”, “imoral” e “indecoroso”. Não foram poucos os que usaram o substantivo “estupro” para nomear o “desrespeito” aos valores democráticos do Estado de Direito, chamando a decisão judicial de “atentado ao pudor” e denunciando a “promiscuidade” das relações entre os Três Poderes. Não são poucos, também, os que avaliam o quadro geral como uma “putaria” institucionalizada, caracterizando o país como um grande “bordel”, em que a “sacanagem” corre livre. Quantos não lamentam a “degeneração moral” do país, argumentando que a “suruba” rola solta, que o “bacanal” entre os poderes é escancarado, que políticos e juízes perderam a “vergonha”? Evidentemente, todas esses termos e expressões foram empregados em sentido figurado: a sua dimensão metafórica, entretanto, não só não esconde, mas deixa ainda mais evidente a fonte literal em que beberam os discursos críticos. Se alguém não consegue entender o que isso significa, vamos tentar explicar de uma outra maneira, lembrando uma imagem muito emblemática: a foto do dono do maior puteiro do Brasil no dia da condenação de Lula. Se, como ensina a sabedoria popular, “uma imagem vale mais do que mil palavras”, esta revela com nitidez o “retrato do Brasil”. Em 6 de abril, quando foi confirmada a sentença condenatória de Lula e decretada a sua prisão, Oscar Maroni, proprietário do Bahamas Hotel Club, promoveu um ato-festa para comemorar a decisão judicial. No fatídico dia, o “magnata do sexo” distribuiu nove mil latas de cerveja para cerca de três mil pessoas que participaram do evento. Na bizarra “performance” encenada em frente ao seu bordel de luxo, as fotos mostram o cafetão fantasiado de “irmão metralha” com a mão na boca de uma mulher, depois grotescamente bolinando os seus seios, após jogá-la no chão. Compondo o cenário, foi montado um “altar” para louvar as “divindades” do judiciário, representadas pelas fotos de Sérgio Moro e Carmen Lúcia (que antecedeu Dias Toffoli na Presidência da Corte Suprema): nesse teatro farsesco, Maroni rendeu homenagens ao juiz de Curitiba e à ministra de Brasília para exaltar os respectivos tribunais onde começou e terminou a “via crucis” de Lula. O justiceiro Moro (que se tornaria ministro da injustiça do fascista Bolsonazi), aliás, chegou a ganhar até um presente especial do “Metralha”: um passaporte “vitalício” para frequentar o Bahamas, enquanto – é óbvio – o magistrado “não tiver problema de ereção” (a ressalva falocêntrica é do próprio anfitrião). Como se não bastasse, em vídeo para divulgar o evento, o “próspero empresário” ainda ofereceu um prêmio a quem matasse Lula na prisão: “aí a cerveja vai ser de graça o mês inteiro”. Para refrescar a memória do leitor, lembrando a “ficha” do canalha, Maroni foi condenado em primeira instância, em 2011, a uma pena de onze anos e oito meses de prisão, “por favorecimento à prostituição e manutenção de local destinado a tais encontros”. Dois anos depois, porém, ele foi absolvido pelo Tribunal de Justiça, sob o argumento de que o Bahamas não se caracterizaria como um local de prostituição. Se o julgamento ocorresse hoje, essas fotos de abril certamente não serviriam de prova para ratificar a condenação: os “meretríssimos” as desqualificariam, sustentando que as imagens não seriam “reais”, mas “representações”. Em outros termos, o que as fotos estariam mostrando seria apenas uma “encenação teatral”: a exibição de uma mulher pelada no meio da rua não seria um “atentado ao pudor”; a opressão machista não teria acontecido “na vida real”. Aos olhos “imparciais” dos juízes, quem estava fantasiado de “bandido”, na verdade, era um bem-sucedido “empreendedor” (como o “Dr. Sabino”, protagonista de O Casamento, de Nelson Rodrigues): uma “atriz” no papel de “garota de programa”, portanto, não poderia ser considerada “vítima” de atos de “violência contra a mulher”. O vídeo em que o crápula apareceu acompanhado de suas “funcionárias” nuas, oferecendo um prêmio a quem assassinasse Lula, também não serviria de prova de outro crime: afinal, Maroni estaria apenas exibindo seu talento de “ator”, representando o “papel” de um mafioso que encarna o “poder paralelo” à ordem jurídica. Enfim, o silêncio dos juízes que o absolveram e dos magistrados que condenaram Lula, diante do “altar” em que foram celebrados, seria porque foi muito exagerada a homenagem do proxeneta e eles são muito discretos, ou para não chamar mais atenção ainda para a já tão escancarada “putaria”? Há menos mistérios entre o sentido figurado e o literal do “estupro” do que supõe a vã filosofia dos mais inocentes espectadores (e comentaristas) dessa indecorosa farsa “democrática”: as palavras e as imagens realmente dizem muito mais do que parece. Tudo parece tão claro: será que agora você consegue ler nas entrelinhas e enxergar no negativo do retrato? 

 

5 – É tudo verdade

É tudo verdade é o título de um festival de documentário, gênero cinematográfico que se caracteriza pelo efeito de “objetividade” que produz, pela impressão de “verdade” que cria. A foto de Oscar Maroni vestido de “irmão Metralha”, oprimindo uma mulher nua em frente ao seu bordel Bahamas, sob um “altar” com as imagens “sagradas” de dois representantes do “panteão” do judiciário, no evento comemorativo da sentença condenatória de Lula, parece cartaz de filme de ficção. Realmente, o uniforme de presidiário era só uma fantasia inspirada no gibi do “Tio Patinhas”, como era apenas uma fantasia sexual a cena da dominação da “escrava” nua: as fotos dos magistrados dentro da foto do “rei dos gigolôs” é prova inequívoca de que eles (os magistrados) não estavam em cena. Como Maroni não é, na “vida real”, um “irmão Metralha”, mas um empresário com toda a liberdade para explorar – legalmente – o seu “negócio”, tudo o que está na foto parece encenação. Enfim, se nada do que se vê é verdade, ou seja, se tudo é ficção, é melhor procurar a “realidade” na “ficção”: como em uma peça de Nelson Rodrigues, em que qualquer semelhança com “a vida como ela é” nunca é mera coincidência. Em Perdoa-me por me traíres, há uma “casa de tolerância” que lembra muito o Bahamas Hotel Club, repleta de garotas “de família” e frequentada por homens poderosos. A personagem “Pola Negri”, assistente da cafetina “Madame Luba”, explica o funcionamento da boate de luxo à menina “Glorinha” (que, não à toa, tem o mesmo nome da filha do “Dr. Sabino”, no romance O Casamento):

Em primeiro lugar, aqui só entra deputado, quer dizer, freguês com imunidades. Te pergunto – a polícia vai prender um deputado? Com que roupa? (…) Se, por acaso, por uma hipótese, a polícia entrasse aqui, já imaginaste o escândalo? Ia se saber que há nessa casa, nessas e nessas condições, vê bem: uma casa infanto-juvenil, que oferece alunas dos melhores colégios, a fina flor de 17 anos para baixo, as filhas de famílias fabulosíssimas (…). São pagas! Pagas! (…) E pagas por quem? Por algum fichinha? Por Suas Excelências! Isso em plena Capital da República (…). Por isso eu te digo: Madame usou a cabeça! Nesta casa, vive-se tropeçando em imunidades (RODRIGUES, N. Teatro Completo: Tragédias Cariocas, volume 3. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985. p.130-131). 

Qualquer semelhança entre “Madame Luba” e o rufião Oscar Maroni é só uma mera coincidência forjada pela mente ficcional do inventivo dramaturgo: não seria isso o que diriam os magistrados que absolveram o “empresário”, negando que o Bahamas se configurasse, de fato, como uma casa de exploração sexual? Evidentemente, isso não implica que esses juízes sejam clientes do Hotel Club, o que não quer dizer que outras autoridades não frequentem o local. O escritor tcheco Franz Kafka, em seu diário, relata um sonho em que caminhava por vielas escuras, quando de repente as paredes dos puteiros desmoronam, e ele vê os mesmos juízes que condenaram as prostitutas à luz do dia dormindo com elas na calada da noite. Essa história também, é claro (com o perdão do trocadilho, nestes tempos obscuros em que vivemos), é mais uma ficção: a literatura, afinal, não é um documentário. Mas, quando sentenças judiciais (ou textos jornalísticos) insistem em concorrer com ela, criando narrativas ficcionais, as “fantasias literárias”, como antídoto, ajudam a enxergar as “imagens invertidas”, revelando as “fotos” da realidade. A performance de Maroni, enfim, produziu uma sintomática ambiguidade entre os planos da ficção e da realidade, iludindo os espectadores desatentos: o bandido, fantasiado de bandido, é como se fingisse ser bandido para não parecer que de fato é bandido (o uniforme de “irmão Metralha”, aliás, deu à cena um ar ainda mais “ficcional”). Nessa perversa “encenação”, é como se o proxeneta estivesse interpretando um proxeneta para disfarçar que é proxeneta: conforme as regras do teatro, afinal, a personagem não pode ser confundida com o ator, a pessoa de carne e osso que a interpreta. Na lógica de Maroni, quem poderia imaginar, afinal, que o “Vado” de verdade pudesse interpretar o rufião “Vado”, na peça Navalha na Carne, ou que o próprio “Giro” representasse o cafetão “Giro”, em O Abajur Lilás (ambas do dramaturgo Plínio Marcos)? Em síntese, na farsa da “vida real”, o proxeneta e bandido, interpretando os papéis de proxeneta e bandido, parece ser um empresário de sucesso aos olhos (bem fechados) da justiça, da imprensa e dos três mil que tomaram as nove mil cervejas que ele distribuiu na comemoração da sentença condenatória de Lula. 

 

6 – “Madame Luba” mostra “bunda” em campanha 

O próprio ator canastrão parece ter acreditado tanto no poder de convencimento da bizarra encenação, que até lançou a sua candidatura a deputado federal (pelo PROS) nas fatídicas eleições de 2018 (depois, obviamente, de declarar voto no fascista do PSL). Aliás, no Bordel Brasil, não é de estranhar que o candidato misógino ao Legislativo tenha apoiado o então candidato misógino ao Executivo: para não esquecer o “poder moderador”, o Judiciário, sob o manto da “imparcialidade”, ainda que não os tenha apoiado, também não os condenou. Por exemplo, por “incitação ao crime”: Maroni ofereceu prêmio a quem matasse Lula; Bolsonaro defendeu (reiteradas vezes) o fuzilamento de “petralhas”. Só para lembrar a última, fazendo campanha no Acre, Jair subiu num trio elétrico, simulou um rifle com o tripé de uma câmera e vociferou: “Vamos fuzilar a petralhada aqui do Acre. Vamos botar esses picaretas para correr do Acre” (O Globo, 03/09/2018). Conforme a sua assessoria, contudo, “foi uma brincadeira, como sempre”: como alguém poderia realmente levar a sério um tripé empunhado como arma? Em sua defesa, vale a mesma lógica argumentativa que justifica a impunidade do cafetão, cuja fantasia de “Metralha” e o prêmio em cervejas no puteiro de luxo provariam que tudo também “foi uma brincadeira, como sempre”. Nessa história de “metralhas nos petralhas” e de “meter o pau” nas mulheres (por falar “nisso”, ampliando o “duplo sentido”), a Justiça Eleitoral também achou que foi apenas mais “uma brincadeira” do “empresário” o vídeo de campanha em que, representando o papel de candidato ao Congresso, ele faz perguntas a uma “bunda”, não? As excelências hão de concordar que realmente há uma bunda em cena, uma bunda em sentido literal, sem aspas, com glúteos de verdade: a propósito, como também são reais os seios que o machista grotesco (com o perdão do pleonasmo) apalpou fantasiado de “Metralha”, brindando à morte do “petralha”. Os respeitáveis juízes, legitimados institucionalmente pela “ilibada reputação” e “notável saber” (não só “jurídico”), sabiam que o rufião não cumpria os requisitos “morais” para a candidatura, e que a bunda, em sentido literal, representa, em sentido figurado, a mulher. Os doutos magistrados sabiam que o olhar do “macho” é metonímico (o “meto” não é mera coincidência trocadilhesca), reduzindo a mulher à “bunda” (ou aos peitos, ou à…). Os nobres senhores sabiam não só que a “metonímia” é uma figura de linguagem em que se toma (ops!) “a parte pelo todo”, como também que a língua (em sentido “linguístico”) não é usada (em duplo sentido) em vão. Se os ignorantes interpretam (?) a exibição da bunda de uma mulher como simples “brincadeira”, porque sua miopia machista restringe seu campo de visão (e as mulheres) a “isso”, esperava-se que os juízes – com as lentes do “notável saber” – vissem os fatos além das fotos. Se a propaganda do cafetão não foi proibida, os juízes não precisaram explicar que, como “bunda” (com o perdão da ambiguidade) não fala, não daria (ops!) para interpretar o vídeo em sentido literal: ninguém, em sã consciência, poderia mesmo esperar respostas de “nádegas”.  Mas, como os ínclitos magistrados não são “glúteos”, esperávamos respostas deles, punindo com rigor o “Metralha”. As autoridades deixaram que a realidade superasse a ficção, não é mesmo? Na peça de Nelson Rodrigues, “Madame Luba” recebe deputados em seu puteiro com “imunidades”: no “Bordel Brasil”, não basta o proxeneta ser dono do puteiro – ele queria ser o próprio deputado!

 

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