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Bordel Brasil

Paulo César de Carvalho

Paulo César de Carvalho, o Paulinho, é bacharel em Direito (USP), mestre em Linguística e Semiótica (USP), professor de Língua Portuguesa (lecionou na ECA-USP) e autor de materiais didáticos de Gramática, Redação e Interpretação de Texto. Publicou seis livros de poesia, constando em antologias literárias no Brasil e em Portugal (como em É agora como nunca, da Companhia das Letras, organizada por Adriana Calcanhoto). Compositor, tem canções gravadas por diversos músicos da cena contemporânea. Foi militante da organização trotskista Convergência Socialista.

O novo não está no que é dito, mas no acontecimento de sua volta
(Michel Foucault, A Ordem do Discurso,  São Paulo, Coleção Folha: Grandes nomes do pensamento – volume 6, 2015, p. 91).

1. Preliminares

No histórico dia 7 de abril de 2018, foi encenado o grande ato do “teatro do golpe”, que começou com o impeachment de Dilma e atingiu o clímax com a prisão de Lula. As reações ao bizarro espetáculo foram opostas: de um lado, explorados choraram de indignação; de outro, exploradores riram de satisfação. Como diria Millôr, o que para uns foi uma tragédia, para outros foi uma comédia: a desgraça dos dominados é a alegria dos dominadores. Mas, como o choro da maioria é sempre mais alto do que o riso da minoria, a estupidez sorridente precisou soltar muitos rojões para abafar o coro das lágrimas: o pato amarelo não precisaria ser tão grande se a burguesia não fosse tão pequena… O complexo de superioridade, no fundo, esconde o reverso da medalha, o complexo de inferioridade da classe: em todo burguês, parece haver um Luís XIV recalcado, andando de salto alto para fingir que não tem 1,60m de altura. Por isso, os policiais usam armaduras de Robocop e os juízes vestem longas togas: eles precisam criar a impressão de que são grandes, para os que são realmente maiores se vejam reduzidos, sentindo-se intimidados. É assim que as imagens aparecem invertidas na “câmara escura” da ideologia, produzindo a “falsa consciência” que naturaliza a farsa (como a foto que Marx revelou em A Ideologia Alemã). Só quando o rei está nu é que o povo consegue enxergar que a pica dele é pequena: o poderoso precisa segurar um cetro porque gostaria de ser gigante. Se Chapeuzinho Vermelho perguntasse ao Lobo Mau por que ele necessita de uma arma tão grande, o estuprador diria: “é para te comer”. A (I)moral da história é que o rei e sua guarda precisam parecer enormes para não serem devorados: um rei nu, sem cetro e sem manto, e um policial pelado, sem arma e sem farda, jamais ousariam deitar e rolar na cama do povo. Só a invadem porque continuam se sentindo “maiorais”, com “o rei na barriga”, ostentando a pose dominadora sobre o “salto Luís XIV”. Para que os carrascos não possam exercer o seu sadismo, os subjugados não podem ser masoquistas: é preciso fazer os algozes caírem do salto, rasgar suas vestes, para enxergarem (na luta, com lupa) que têm o pau pequeno. Quem dera o povo botasse mesmo o pau na mesa e levasse o rei e sua corja de carrascos à guilhotina, pondo fim a esta suruba de broxas. A História, afinal, prova que pau mole não arromba Bastilha: “Hay que endurecerse”…

2. É foda! 

Essas metáforas “pornográficas” não são gratuitas, evidentemente: em vários cantos do mundo, ecoaram protestos contra a prisão de Lula, chamando a sentença judicial de “indecorosa”, “despudorada”, “obscena”. Segundo a opinião de renomados juristas (brasileiros e estrangeiros), ela representou um grave “desrespeito” aos valores democráticos do Estado de direito (rima, mas não é solução): os argumentos de autoridade deixaram nossos magistrados nus, expostos aos olhares críticos internacionais. As “violações” de princípios e garantias do ordenamento jurídico tornaram todo o rito condenatório um “atentado ao pudor” democrático: para alguns, o que se viu foi a consumação do “estupro” da legalidade. As cenas foram tão explícitas, que revelaram com nitidez as relações “promíscuas” entre os Três Poderes: o Executivo, o Legislativo e o Judiciário dormindo “de conchinha” na mesma cama. Sonhando com a prisão de Lula, acordaram num “orgasmo” triplo, num pervertido “ménage a trois” institucional. Quem há de negar, por exemplo, os sorrisinhos antecipados de Moro, Aécio e Temer, ou o encontro vampiresco de Temer e Carmem Lúcia, já prenunciando o gozo obsceno? Se algum São Tomé não viu, e por isso não crê, é só procurar no Google: as fotos estão aí para todo “santo” ver e crer. Se disser, como Nelson Rodrigues (protestando contra a censura ao romance sintomaticamente intitulado O Casamento), “sou pior que São Tomé, mesmo vendo não creio”, diremos: apesar das aparências, pode crer que este “teatro de fricção” não é ficção. As fotos e as fitas estão aí para todo mundo ver e ouvir: os fatos são tão evidentes que não dá para disfarçar. Aliás, não foi um ministro golpista, temeroso articulador político do governo, com um pé no legislativo e outro no judiciário, quem disse que era preciso firmar um “acordão” nacional com o STF? Antes a diferença entre “acordão” e “acórdão” fosse uma simples questão de prosódia: na boca suja de Jucá, o deslocamento do acento é político. Esse problema de “pronúncia”, portanto, não é uma mera questão fonética: a questão é “impronunciável” porque é um problema ético (eis o “segredo [político] de Tostines”). É claro que há certos nomes que são mesmo, inclusive – e sobretudo – em sentido jurídico, “impronunciáveis”: apesar de a justiça dizer que não fala “palavrão” e não ficar corada de vergonha. Ela não pode ficar “vermelha” por que o judiciário não é comunista? Isso significa que ela é parcial com o “vermelho” exatamente porque deve ser “imparcial”? Por isso é que a cor da “imparcialidade” é o verde, o amarelo, o azul e o branco – as mesmas da bandeira do Brasil (e da camisa da CBF dos patinhos da FIESP e do “PMSDB”)? “Vermelho”, nem de vergonha: como a sabedoria popular joga na cara, quem não tem pudor não fica corado. Para enrubescer, é preciso ter vergonha na cara. Afinal, como diz o trocadilho, no princípio, é preciso ter princípio: quem não tem, não fica vermelho nem a pau – ainda “por cima”, dá uma “gozada” na cara de quem está “por baixo”!

3. O “ménage a trois” dos Três Poderes

O romance O Casamento foi proibido em 1966, no governo ditatorial de Castello Branco, sob o argumento de “atentar contra a organização da família”. Na história, a personagem “Dr. Sabino” é um ex-corretor de imóveis que acumula capital e adquire prestígio, ascendendo socialmente. Sob a máscara da hipocrisia, estupra uma sobrinha epilética de 13 anos e deseja a filha “Glorinha”, que entrega ao noivo na igreja. No final da cerimônia – como Nelson se defendeu, em 1967 – a noiva, de véu e grinalda, e o noivo, de fraque e cartola, recebem os cumprimentos na sacristia, “antes dos salgadinhos e do guaraná”. Como o autor lembrou aos censores, uma personagem até falou, “de fronte erguida: – ‘Um casamento não se adia’. Nem se adia, vejam bem, nem se adia” (Companhia das Letras, 1992, p.259). Nelson Rodrigues era conservador, detestava a esquerda: ele recordava às autoridades que, afinal de contas, não podia ser contra o casamento. Que mal poderia haver na cena em que o padre e Sabino urinam lado a lado, no banheiro da “Casa de Deus”? Enfim, o que queremos dizer com isso é que, se o casamento é uma instituição “sagrada”, por que não haveria de ser para os três poderes? Em minúsculo mesmo: o executivo, o legislativo e o judiciário, de aliança no dedo, juntinhos numa cama king size, “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. No final da cerimônia, todos vestidos a rigor, com elegância e distinção: todos “dignos” cidadãos de primeira classe, representantes de nobres palácios e egrégias cortes, celebrando o “enlace” dos “super-poderosos” heróis nacionais. Estamos em 2018, os tempos são outros: o casamento dos Três Poderes é um casamento “moderno”, mas que respeita, como no romance de 1966, os ritos, obedece aos protocolos. Aliás, se antes os moralistas de plantão estranhavam o padre urinando ao lado do Dr. Sabino, hoje parece normal deputado mijando ao lado de juiz, não é mesmo? Se você acha imoral uma juíza tomar café da manhã com o presidente, certamente não aprovará Aécio e Moro dividindo o mictório. Será que os conservadores somos nós, que achamos que tudo isso é uma tremenda “falta de decoro”? Eles dirão que é despeito de esfarrapado que não foi convidado para esta festa “chique”, recalque de esfomeado que não pôde comer os “salgadinhos” nem tomar “guaraná”. E se alguém abrir a boca para dizer que é “putaria”, é capaz ainda de ser processado e preso. Lembremos que na época da ditadura, não só censuraram O Casamento, mas também quiseram prender Ésquilo (o dramaturgo grego morto há séculos), pelo crime de ter escrito O Prometeu Acorrentado. Hoje, do jeito que as coisas andam (para trás), é bem capaz de decidirem acorrentar Montesquieu, sob a alegação de que O Espírito das Leis é uma obra que “atenta contra a organização da família”, uma vez que defende o “divórcio” dos poderes. As autoridades darão o “veredicto”: uma “união estável”, regulada por “freios e contrapesos”, jamais poderá ser considerada “promíscua”. Dr. Sabino, afinal, é um bem sucedido “homem de família e de negócios”, que casou sua filha de véu e grinalda na igreja: um cidadão contribuinte de prestígio, que recebeu na sacristia Moro, Aécio, Gilmar Mendes, Carmem Lúcia, Temer… Com seu olhar sarcástico de “saltimbanco”, Plínio Marcos diria a Nelson, na praça em frente à “Santa Igreja”: “gente fina não faz putaria”. O lema da “zona” é “Ordem e Progresso”: o casamento – convenhamos – serve exatamente para acabar com a “suruba”, não é mesmo?

* Texto publicado em 2018, no Facebook, ainda com a ministra Carmem Lúcia na Presidência do STF (atualmente presidido por Dias Toffoli).

* Na segunda parte do “Bordel Brasil”, refletiremos um pouco mais sobre a “suruba” das classes dominantes, revendo a foto do cafetão Maroni, dono do Bahamas Hotel Club, na grotesca “performance” para celebrar a condenação de Lula. Na terceira parte, lembraremos “O Rei da Vela”, de Oswald, “Perdoa-me por me traíres”, de Nelson, e “O Balcão”, de Genet, para mostrar que a realidade supera a ficção)

 

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