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Não são só duas as possibilidades. São três

Cid Benjamin

Cid Benjamin

Líder estudantil nos movimentos de 1968, figura destacada na guerrilha urbana contra a ditadura e dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro, Cid Benjamin viveu a clandestinidade, a prisão e a tortura. Libertado em troca do embaixador alemão, sequestrado pela guerrilha, passou quase dez anos no exílio. De volta ao Brasil, foi fundador e dirigente do PT e, depois, participou da criação do PSOL. Jornalista e professor, trabalhou em sindicatos, faculdades e veículos como “O Globo” e “Jornal do Brasil”. Foi, também, superintendente de Comunicação da OAB-RJ e editor-chefe da revista Socialismo e Liberdade, da Fundação Lauro Campos, do PSol. É autor dos livros “Hélio Luz, um xerife de esquerda” (Relume Dumará, 1998), “Gracias a la vida” (José Olympio, 2014) e “Reflexões rebeldes” (José Olympio, 2016). Organizou, ainda, a coletânea “Meio século de 68 – Barricadas, história e política” (Mauad, 2018), juntamente com Felipe Demier.
Seus textos são publicados também no Jornal do Brasil e na revista Fórum

Há alguns dias, Ruy Castro, em sua coluna na “Folha de S. Paulo”, comparou o presidente Jair Bolsonaro a dois velhos personagens de piadas: o papagaio e o português. E lembrou que eles caíram em desuso. Já não se pergunta pela “última do papagaio” ou pela “última do português”. Agora, o que se quer saber é da “última do Bolsonaro”, tal a quantidade de situações hilárias ou ridículas (para usar expressões leves) em que o cidadão se envolve, dia após dia.

Não à toa, Bolsonaro é o presidente com a pior avaliação na história nos três meses iniciais de um primeiro mandato. Talvez por isso, quer retomar a popularidade fazendo uma volta às origens. O foco de seu discurso mudou. Ou melhor, voltou ao que era no passado. Agora, a questão central para ele já não é mais a reforma da Previdência, pérola do ultraliberalismo apontada como o grande objetivo deste início do mandato. O presidente parou até de se falar em Paulo Guedes – um admirador da ditadura de Pinochet – como o seu “Posto Ipiranga”. Voltou ao discurso da campanha – e até da pré-campanha – com ênfase em dois aspectos: (1) a truculência no tratamento de toda e qualquer questão, não importa qual seja ela; e (2) a crítica ao que chama de “velha política” e a reafirmação de que não vai comprar votos no Congresso.

Ora, Bolsonaro está careca de saber que, salvo quando há pressão das ruas, a maioria dos parlamentares age movido por interesses próprios, que quase nunca são republicanos. Quando falam em negociação, se referem a uma negociação peculiar: não estão em jogo convencimento, ideias ou propostas, mas a liberação de emendas ou nomeações para cargos públicos, de preferência com acesso a polpudos recursos.

Aí reside a origem da sua recente briga com Rodrigo Maia, o principal articulador da direita na Câmara dos Deputados e figura-chave para a aprovação do desmonte da Previdência pública. Maia quer uma “negociação” nos termos tradicionais, com a compra de deputados. Mas para isso precisa do Poder Executivo, que é quem tem recursos para bancar as emendas e cargos para distribuir. E o presidente está fazendo jogo duro.

Claro que é difícil dizer se essa disposição de Bolsonaro vai se manter, e por quanto tempo, ou se é só jogo de cena passageiro. Mas o fato é que a briga do presidente (e também de Moro, seu parceiro) com Maia e o corpo mole para cooperar com a “negociação” com parlamentares, atrapalha a aprovação da reforma. Por isso, muita gente ficou sem entender o que o presidente quer de verdade.

Com esse comportamento, ele se descolou momentaneamente do grande capital e mantém apoios apenas na turma da Lava-Jato e na alta oficialidade das Forças Armadas, brindada com um generosíssimo aumento salarial.

Enquanto isso, os bancos (os maiores interessados numa Previdência com o sistema de capitalização), os grandes meios de comunicação e o agronegócio – o grande capital, enfim – estão todos descontentes com Bolsonaro. E já começam a se perguntar se ele é mesmo o melhor timoneiro para conduzir as mal chamadas reformas. Editoriais de jornalões e colunistas alinhados com os interesses do grande capital já não escondem que preferem a substituição do presidente.

Começam a se formar, então, dois campos na direita. O de Bolsonaro, trazendo consigo o pessoal da Lava Jato (Moro, Dallagnol e a turma de Curitiba) e os generais; e, de outro lado, o de Maia, com o Congresso (principalmente o Centrão), Paulo Guedes e o STF.

Bom, como ficam o movimento popular, o campo democrático e a esquerda nisso tudo?

Há quem prefira que Bolsonaro ganhe a parada e – ajudado pelos três patetas, seus filhos – continue a cometer patacoadas. Isso tornaria mais difícil seguir adiante com a política de entrega do país e de aprovação das contrarreformas. O problema é que a vitória de Bolsonaro e seus aliados sobre o STF e o Congresso traria de contrabando (seria mesmo um contrabando, ou parte é essencial do pacote?) o crime organizado, adubando o terreno para uma ação sem freios das milícias. O próprio regime democrático – mesmo com todas as limitações conhecidas do que temos – estaria em risco.

Afinal, pode ser que Bolsonaro, sem as travas ou as amarras que bem ou mal o atual estado de direito impõe, dê cobertura a grupos de extermínio, inclusive os que assassinam adversários políticos. E, assim, poderá pôr em prática, direta ou indiretamente, o que sempre pregou: a eliminação física de milhares de esquerdistas e militantes do movimento popular, tal como ocorreu na Argentina na segunda metade dos anos 70.

Por essas razões – e são razões de peso! – há gente de esquerda que prefere a substituição do atual presidente, para que entre em seu lugar o vice Hamilton Mourão. As contrarreformas talvez fossem aprovadas com mais facilidade, é verdade. Mas, por outro lado, ao que se sabe Mourão não tem ligação com milícias ou com grupos de extermínio, ainda que já tenha homenageado Brilhante Ustra – o torturador-símbolo.

Mas estará, então, o movimento popular entre a cruz e a caldeirinha? Será que as opções são a implantação de uma ditadura, com a vitória de Bolsonaro, ou a aprovação das contrarreformas com Mourão, mantendo-se certas garantias do estado de direito?

Penso que não. As alternativas não são só estas. As ruas podem ter influência no cenário político. Essa influência não é, necessariamente, de um porte tal que leve a uma revolução ou coisa do gênero. Não há qualquer indicador disso. Mas as possibilidades não são só oito ou oitenta. Não há apenas dois desdobramentos possíveis para o movimento popular no atual momento: ser apenas expectador do processo ou de assumir a hegemonia política – ainda que se deva trabalhar para construir essa última hipótese.

Não custa lembrar que, devido à resistência das ruas e ao receio de encampar uma bandeira impopular, o Centrão e parte significativa da base de Michel Temer vacilaram e uma proposta de reforma da Previdência mais branda do que essa de Bolsonaro foi inviabilizada. É uma possibilidade real que, agora, a reforma de Bolsonaro tampouco consiga emplacar.

Assim, não se trata apenas de uma disputa entre, de um lado, Bolsonaro e seus aliados – Moro, a turma da Lava-Jato e os generais – e, de outro, Maia, Guedes, o Congresso, o STF e aqueles que apostam apenas na defesa do estado de direito, mesmo que para manter seus espaços e sem querer enfrentar as limitações e as deformações do nosso sistema político.

A resistência popular pode alargar as possibilidades da democracia e da defesa dos direitos dos trabalhadores, contribuindo para uma virada na conjuntura. Não estamos diante de uma escolha de Sofia.

A presença do povo pode mudar o quadro.