Carnaval também é luta, Carnaval também é conscientização

Por: Eduarda Johanna Alfena, de Campinas, SP

Recebi pelo whatsapp a notícia de que uma escola de Samba do Rio de Janeiro lançou um samba-enredo para o carnaval deste ano falando da conscientização sobre o autismo. A mensagem não é verdadeira, mas mesmo assim, gostaria de discutir o samba, de autoria de Ito Melodia e Dudu das Candongas:

Sou um artista de um mundo solitário

“Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus
Tenho direito de ser diferente
Eu quero que você entenda
Nessa inclusão de amor
Me aceite do jeito que eu sou
Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus
Uma estrela de um mundo tão distante
Onde ninguém consegue alcançar
Eu tenho brilho fascinante
Que vai muito além do seu olhar
Eu vim lá do mundo de meu Deus
Onde eu sou você, você sou eu
Tenho segredos a revelar
Mas com palavras eu, não sei explicar
Nessa interação de amor eu vou
Quero conquistar o meu lugar
O meu coração chorou, chorou
Quando você veio me abraçar
Tenho direito de ser diferente
Eu quero que você entenda
Nessa inclusão de amor
Me aceite do jeito que eu sou
Eu sou autista, tão distorcido no espelho seu
Eu sou autista, vou caminhando junto aos meus”

No final da música, junto da letra original, é dito “Quando perdemos o direito de sermos diferentes, perdemos o privilégio de sermos livres”.

Importante sempre reler meu texto sobre o quão a luta contra o capacitismo (a discriminação contra as pessoas com deficiências) tem de ser mister para a Esquerda. Infelizmente, ainda vejo pessoas que são da opinião de que estamos “glamourizando” transtornos mentais.

Primeiro, se salientar que nós também somos pessoas de direito é glamourizar, então sim. Segundo, pessoas com “transtornos” mentais tem espaço nessa sociedade, tem que ter pleno direito a aceitação, amor, saúde e a cura (se necessário).

Um outro ponto e, que é o que eu quero focar, é de que o Carnaval seria um período de distração, portanto deveria ser livre de qualquer tipo de discussão ou debate. Com o ganho de direitos, parcelas oprimidas da sociedade estão se sentindo na liberdade de denunciar o que as magoa e oprime, e logicamente isso está incomodando aos setores que não querem abrir mãos de seus privilégios.

Desde que eu me entendo por gente, o Carnaval é visto como uma necessária válvula de escape para o povo. É o período em que todos deveriam se desligar de suas preocupações e se divertir em comunhão. Seria o período do sem-limites e sem regras. Do pode-tudo.

Não. Não é assim. Eu, e espero que os que me leem também, luto contra toda forma de se oprimir e machucar outrem. Se for opressivo, ruim, fascista, deve sim ser combatido.

“Ah, mas se for assim tem que abolir as marchinhas que falam mal de preto, de índio, de gay”. Sim, se forem opressivas, sim. “Ah, mas é tradição do nosso país”. Isso sim. Nosso país tem uma longínqua tradição (desde antes de o Brasil ser um estado independente em 1822) de oprimir e subjugar os povos e raças que são considerados inferiores.

A Escravidão foi muito comum e (legalmente) aceita por séculos, e seus resquícios ainda persistem. Portanto devemos ceder a ela, dado que seria uma tradição? E o machismo e LGBTfobia centenários que fazem parte de nossa cultura? Devemos também aceitá-los como sendo nossa tradição? Isso sem falar da sempre persistente relação do poder secular com o poder religioso.

Só por que é uma tradição não a torna mais aceitável ou melhor. E só por ser um momento de festividades e celebração, não temos o direito de perpetuar círculos longínquos de opressão e preconceito. O Carnaval pode e deve ser problematizado, assim como qualquer coisa está passível de ser problematizada e contestada.

Fico muito contente que em mais um lugar alguém está se lembrando de nós autistas. O nosso principal problema ainda é a falta de conhecimento acerca de nossas características e necessidades. O Carnaval é sim um momento de conscientização.

Um dizer carnavalesco que eu sempre desgostei foi: “Quem não gosta de Samba, bom sujeito não é. Ou é ‘ruim da cabeça’, ou doente do pé”. Esse dizer é bem ofensivo para quem tem alguma deficiência mental ou física. Além disso, cada pessoa tem o direito de gostar de seu próprio estilo de música e é muito ruim associar isso a alguma deficiência mental ou física. Ser “ruim da cabeça” não torna ninguém automaticamente “mal sujeito”. Afinal, doentes são os genocidas que jogaram 6 milhões para morrer em câmaras de gás em Auschwitz.

E eu não tenho que não saber dançar para desgostar de uma música. Eu não sei dançar Valsa, por exemplo, nem Samba, ou o que seja, e isso não me faz gostar mais ou menos que esses dois, por exemplo.

E a propósito da terceira afirmação, ser “doente do pé”. Bom, uma pessoa ter dificuldade ou ainda impossibilidade de locomoção não fará dela necessariamente uma desgostosa de Samba. E creio que existe uma leve diferença entre andar e dançar o estilo que seja.

Meus sinceros parabéns aos autores pela importante iniciativa, por usarem esse importante evento da cultura brasileira para lançar mão da conscientização da inclusão. Por mais pessoas com deficiência no carnaval, se divertindo, e por que não, com pessoas as ajudando a dançar o samba, se assim quiserem. O Samba, Frevo, ou até então uma boa e velha Valsa Vienense. Que cada um tenha direito para dançar o quer e o que pode, numa festa divertida, sem opressões e com liberdade.

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