Pular para o conteúdo
Colunas

O Carnaval, o negro e a possibilidade de existir o Brasil

Exu Grande Rio
Divulgação Riotur

Gabriel Santos

Garbriel Santos é alagoano, estudante da UFRGS, militante da Resistência – RS, vascaíno e filho de Oxóssi!

“Não tenho mais, sinhô
E nunca mais, sinhá
Sambo pra resistir
Samba meus ancestrais
Samba pelos carnavais”

Acadêmicos do Salgueiro

O povo bakongo, da região que hoje é a República Democrática do Congo, realizavam um ritual chamado “Tambores da Aflição”, que por meio da batida dos atabaques invocava os ancestrais em momentos no qual a comunidade passava por dificuldades como seca, doenças ou por crises políticas como guerras. Era no som dos tambores que os bakongo buscavam soluções.

Vendo os desfiles das escolas de samba de Rio de Janeiro e São Paulo no primeiro carnaval após a pandemia, no meio de toda crise econômica e social que atinge o povo brasileiro, o fato de termos tantos sambas enredos voltados à negritude, orixás e tradições indígenas, se fez impossível não lembrar do ritual bakongo.

As escolas de samba foram buscar justamento nos ancestrais, nos grandes heróis negros de nossa história e nas entidades o apoio para este momento. Nas palavras de Carlinhos Brown: “foi feito um xirê na Sapucaí”. É como se as escolas de samba falassem para todos ouvirem: foi por meio deles que busquei força, por meio deles que cheguei até aqui.  

Os sambas-enredos desse ano são mais do que um simbolismo. Mas trazem uma constatação histórica, de que foi através do batuque, do tambor, da macumba, da festa que é o carnaval, que o povo negro conseguiu forças e superou os séculos e construiu um imaginário coletivo que a todo momento se reinventa.

Nós nos reinventamos através das religiões afro-indigenas, que se apresentam de formas diversas, com ritos múltiplos, que se formam a partir de cada experiência, a depender do terreiro, do culto e da tradição, e do chão que se pisa em cada local do país.

Nós nos reinventamos através das festas populares. No país que criminaliza o corpo negro, este mesmo corpo, produz o maior espetaculo da terra, uma arte diasporica, preta até os ossos, que canta e conta sobre os nossos mitos e religiosidades.

Uma arte que segue se reinventando. Por mais que seja atacada pelos conservadores e reacionários; pelo mercado e pela branquitude que tenta comprá-la, apagar sua cor negra e usar do poder financeiro para escolher enredos, e invadir escolas infiltrando passistas e rainhas de baterias famosas que cometem samba culposo.

Se o negro consegue enfrentar os anos de genocidio cometidos pelo Estado brasileiro e sua burguesia branca, é justamente pelo fato dele conseguir se reiventar. É isto que os colonizadores brancos não esperavam que nós éramos capazes de fazer. 

É nesse reivento que criamos os caminhos para tornar possível e afirmar um projeto de vida. Criamos um Brasil que vive, quando eles, donos do Brazil que mata (o Brazil com Z de nossa burguesia), só nos oferece uma não-vida. 

O carnaval como uma das expressões do país construido por indigenas e negros, é uma festa que se desenvolve nas tensões e contradições entre as relações sociais e raciais de nosso país e os projetos de Brasis que temos. 

Além disso, é no festejo popular que se criam redes de construção de uma identidade comunitária de um grupo ou povo, a partir da troca e da sociabilidade e da afirmação de um modo de vida em comum. É uma das formas que a classe se afirma como tal. 

O carnaval é, portanto, uma das criações reinventadas como uma alternativa do povo preto para se viver no país da morte. Ele é um instrumento político. E como político é marcado também por disputas. Na virada do século XIX para o século XX viamos uma disputa entre um carnaval da casa grande, feito pela burguesia branca em seus salões e bailes, contra um carnaval popular, marcado, ditado e ritmado pela rua. Eram os blocos de frevo, os cordões, os arenga, e em seguida, nas primeiras décadas do novo século, pelo surgimento das escolas de samba.

Essa disputa entre visões de carnavais ainda existe até hoje. Porém, de forma diferente. O que temos é uma lógica empresarial do capitalismo que busca engolir a festa do povo e transformar em festas fechadas, com camarotes e seus patrocinadores, com influencers, a mídia e famosos ditando a moda, retirando a negritude e deixando esses espaços cada vez mais brancos. 

Eles aprenderam a gostar de nossa cultura, de nosso som, só não aceitam sermos nós as estrelas da festa.

Até hoje também é difícil para muitos admitirem que aquilo que existe de melhor em nosso país não foi criado por doutores e juízes que discutiam filosofia nas universidades paulistas, cariocas ou mineiras. Que aquilo que tem de mais belo nesse solo, não foi feito pelas mãos que redigiram leis, tratados ou por braços que conduziram o exército em grandes guerras. Pelo contrário.

O que há de melhor e mais belo no Brasil foi produzido e feito onde só deveria existir suor, lágrimas e sangue. Foram os capoeiristas, as vendedoras de comidas de rua, os que habitavam forçadamente as senzalas e de lá fugiram rumo aos quilombos, os que passaram a viver em mocambos, cortiços, e favelas, as mães e pais de santo, os malandros, sertanejos, os sambistas, funkeiros e rappers, entre tantos outros, que criaram o que temos de mais belo em nosso país. Estes criaram e criam diariamente um projeto de vida, contrário ao projeto de morte. 

Estes criam a vida à margem da sociedade, onde sequer haveria espaço para viver. Onde nascer, trabalhar, cansar e morrer deveria ser a regra e era o plano original dos colonizadores. 

Porém, felizmente nós nos reinventamos.

Assim, como o próprio Brasil foi reinventado e redescoberto a partir da “imaginação percussiva” de Tião Miquimba ao criar o surdo de terceira.

Se Conceição Evaristo escreveu que “eles combinaram de nos matar e nós combinamos de não morrer”, é preciso lembrar que esse pacto entre nós foi feito ainda na travessia do Atlântico e aqui se materializou com os quilombos e com os terreiros.

Não morrer é muito mais do que somente ficar vivo, é assumir a vida em sua plenitude. Assim, o festejo é sagrado.

O carnaval  e as escolas de samba, são portanto, assim como outras festas populares e elementos de nossa cultura, como o coco de roda, maracatu, tambor de crioula, partes desse mesmo pacto de afirmação de vida.

Luiz Antônio Simas já disse; “eu danço, logo existo; eu bato tambor, logo existo”. 

E se hoje o negro brasileiro existe é porque durante os séculos de genocidio ele pode se reiventar mas sempre lembrando o pacto feito ao ser sequestrado de sua terra.

Nós existimos porque festejamos e festejamos para existir. O carnaval existe para que nós possamos lembrar que combinamos de não morrer. E não poderia existir a vida sem o quilombo, sem os terreiros, sem os batuques, sem os orixás.

Foi o bater tambor, dos terreiros, as escolas de samba, passando pelos maracatus, e tantas outras expressões de nosso povo, que afirmou o quanto é bela a existência e a vida daqueles que têm a existência negada.

Foi o bater tambor que deu força pro Brasil que morre lutar contra o Brazil que mata.

E vai ser através do bater tambor que vamos pôr abaixo essa invenção colonial do Poder branco que é o nosso país, e construir, edificar e inventar um novo país. Um novo Brasil. 

Viva o carnaval

Viva o nosso povo

Que Exu abra os caminhos para o que queremos construir