Brumadinho não foi acidente. Foi crime!

Editorial de 26 de janeiro de 2019

Na tarde de sexta (25), fomos novamente assombrados por mais um rompimento de barragem em Minas Gerais. Desta vez a cidade atingida foi a de Brumadinho, na região Metropolitana de Belo Horizonte.

Primeiramente, queremos nos somar à dor de todos os familiares e amigos das pessoas que perderam a vida. Neste momento ainda não sabemos o número de mortes e o impacto para o meio ambiente e à população. Mas com certeza estamos diante de uma tragédia anunciada, de enormes proporções.

A companhia Vale, uma das maiores empresas de mineração do mundo, já informou que 413 dos seus funcionários estão desaparecidos, a maioria destes provavelmente encontra-se soterrada pela lama de rejeito de minério de ferro. No momento do acidente, muitos trabalhadores da empresa almoçavam no refeitório, que ficava próximo à barragem rompida.

A Vale não se importa com a vida humana

O diretor-presidente da Vale, Fabio Schvartsman, em entrevista coletiva sobre rompimento de barragem. Foto: Tomás Silva / Agência Brasil.

Assim que a notícia apareceu na mídia mundial, o presidente da Vale veio a público lamentar o ocorrido, tratando-o como um acidente.

Discordamos do presidente da Vale. Brumadinho não foi um acidente. Mariana também não. Foram crimes contra a vida humana e o meio ambiente. Fazem parte do desumano cálculo de risco das grandes empresas capitalistas. É mais barato arcar com prejuízos e indenizações, que na maioria das vezes nem são pagas (como aconteceu com os moradores de Mariana), do que prevenir.

Todos os ambientalistas são unânimes em dizer que há formas de evitar e controlar estes vazamentos. A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) desenvolveu uma tecnologia que reaproveita os rejeitos do minério de ferro, transformando-os em tijolos. Esta tecnologia foi oferecida à Vale, que a recusou, porque teria que gastar mais dinheiro. E ter menos lucro é inadmissível pra qualquer empresa cuja prioridade é remunerar os acionistas da Bolsa de Nova York. Para elas, as vidas humanas não importam.

Bens e o dinheiro em contas bancárias da Vale devem ser confiscados, para atender às vítimas e minorar os danos ambientais

A Vale registrou somente no terceiro trimestre de 2018 lucro de 5,7 bilhões de reais. Trata-se de uma empresa que ostenta lucros astronômicos em benefício de grandes acionistas nacionais e estrangeiros.

Perante os danos humanos e ambientais incalculáveis causados pela empresa, é preciso que o governo federal confisque, imediatamente, os bens e o dinheiro da Vale para colocá-los à disposição do atendimento às vítimas e à recuperação ambiental.

Defendemos, também, que todas as operações nas demais minas da Vale sejam suspensas por tempo indeterminado (com a garantia dos empregos e salários), de modo a averiguar as condições de segurança para os trabalhadores e comunidades próximas. Afinal, outras barragens da empresa podem romper a qualquer momento, causando mais mortes e destruição.

É necessário, além disso, imediata, ampla e rigorosa investigação dos responsáveis pela tragédia em Brumadinho, a começar pela averiguação das responsabilidades da alta cúpula da empresa, que precisa ser punida exemplarmente assim que sua culpabilidade for comprovada.

Dois dos maiores crimes ambientais e humanitários da história do país são de responsabilidade direta da Vale, uma empresa estratégica que foi privatizada a preço de banana por FHC na década de noventa.

A segunda tragédia em três anos demonstra, de modo cabal, o quão nocivo foi para o país a privatização da mineradora. Extraem a riqueza do nosso subsolo, utilizam nossas águas para lavar o minério e exportam minério bruto sem agregar valor em território nacional. Destinam bilhões e bilhões aos grandes acionistas, enquanto poluem, destroem e matam seres humanos e o meio ambiente. Por uma questão de segurança nacional, em respeito à vida dos trabalhadores e à natureza, a Vale precisa ser estatizada, com controle social, sem indenização, para servir ao desenvolvimento sustentável do país.

O governo Bolsonaro vai aumentar os riscos como os de Brumadinho

No Brasil existem cerca de 24 mil barragens em funcionamento. A maioria delas é de água para a agricultura. Destas, 60% são clandestinas. As outras 40% não têm condições de serem fiscalizadas pelos órgãos competentes, porque não há interesse. E mesmo que houvesse, não seria possível por falta de funcionários.

Segundo André Trigueiro, jornalista da Globonews especializado em meio ambiente, se o governo federal resolvesse fazer uma fiscalização rigorosa das barragens existentes no Brasil, precisaria de 33 anos pra concluir o serviço!

O governo Bolsonaro já deixou bem claro qual é a sua estratégia para lidar com o meio ambiente e a mineração no Brasil: seu governo vai favorecer ainda mais os interesses das empresas, isto é, os seus lucros. Por isso, nomeou um ministro que é processado por crime ambiental. E pretende enfraquecer ainda mais a legislação e os órgãos de controle ambientais, bem como acabar com a demarcação das terras indígenas.

Não confiamos que o governo Bolsonaro vá resolver este ou qualquer outro problema, pois isso o obrigaria a se enfrentar com as grandes empresas, exigindo delas a revisão de normas de segurança e o uso de tecnologias que previnem ou eliminam riscos à vida humana e ao meio ambiente.

Toda a nossa solidariedade às vítimas de Brumadinho!

 

FOTO: Área atingida em Brumadinho. Presidência da República / Divulgação / EBC

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