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Especiais

Defender a Venezuela dos ataques de Trump e Bolsonaro

Por Jéssica Milaré, colunista do Esquerda Online

Um país cheio de petróleo tem uma crise de governo. O presidente dos EUA afirma que aquele governo é uma ditadura e ameaça intervir. Uma campanha contra o governo daquele país é feita, parte da população dos EUA começa a apoiar um ataque militar contra o país. Os EUA invadem o país numa guerra sangrenta, derrubam o governo ditatorial e estabelecem outro governo ditatorial, mas que é submisso aos EUA e permite que as multinacionais estadunidenses explorem o petróleo naquele país.

A história se repete, só que dessa vez o suposto inimigo não são os “fundamentalistas islâmicos” e sim a “ditadura comunista” da Venezuela. É verdade que o governo venezuelano não é democrático, mas não é a única ditadura do mundo e nem se pode dizer que é a pior. O interesse dos EUA não é acabar com a “ditadura comunista venezuelana”, mas sim eliminar um obstáculo a seus interesses político-financeiros na América Latina.

Nem Trump, nem Bolsonaro são amigos do povo venezuelano, são apenas oportunistas. Bolsonaro é conhecido defensor da Ditadura Militar de 1964 e não tem moral nenhuma para criticar o autoritarismo de Maduro. Muito menos Trump, que é o maior representante do novo ascenso da extrema-direita neofascista internacional.

Apesar de tudo isso, é verdade que o governo venezuelano é autoritário, do tipo bonapartista: um governo populista militarista que massacra a oposição, ora a partir de medidas populistas, utilizando a popularidade do presidente, ora a partir da repressão militar e do controle absoluto das instituições “democráticas” pelo partido que está no governo.

Entretanto, a única forma de derrotar o bonapartismo de Nicolás Maduro é primeiro, derrotar a política internacional de boicote econômico à Venezuela, política encabeçada justamente pelos Estados Unidos. Segundo, restaurar a soberania nacional do povo venezuelano, que é o único que tem o direito de julgar a legitimidade do governo Maduro. É o povo venezuelano que deve se organizar politicamente para resolver esse impasse, rejeitando, em primeiro lugar, a política imperialista estadunidense.

Nem Trump, nem Bolsonaro pretendem realmente “restaurar a democracia” na Venezuela. Tudo o que pretendem, na verdade, é restaurar um governo que seja submisso aos interesses dos EUA na América Latina.

Uma polêmica com a esquerda

Eu vejo que existem, hoje, duas posições equivocadas no espectro da esquerda.

A primeira é a que coloca em primeiro lugar a oposição a Maduro. A oposição à política dos EUA fica em segundo plano, muitas vezes numa nota de rodapé. Numa disputa entre setores burgueses – de um lado, a burguesia imperialista e, de outro, a chamada boliburguesia que se formou na Venezuela a partir da exploração do petróleo – é preciso entender qual é o inimigo mais imediato, o mais forte e que mais se opõe aos verdadeiros interesses do povo venezuelano. Neste caso, obviamente, a burguesia imperialista.

Leon Trotsky faz uma analogia interessante para esses casos:

Quando um dos meus inimigos coloca diante de mim pequenas porções diárias de veneno e o segundo, por outro lado, está prestes a dar-me um tiro, devo, primeiro, arrancar o revólver da mão do meu segundo inimigo, pois isso me dá a oportunidade de me livrar do meu primeiro inimigo. Mas isso não significa que o veneno seja um “mal menor” em comparação com o revólver.

Assim, nem Maduro nem Trump são o “mal menor da Venezuela”. Entretanto, é evidente que a política de Trump é a que, de imediato, representa o maior perigo: a política de boicote e intervenção militar é uma ameaça imediata à vida do povo trabalhador venezuelano. Sem a crise de fome e sem a ameaça de uma guerra, este povo terá muito mais condições de enfrentar seu envenenamento diário, o governo Maduro.

A segunda posição equivocada é a que diz que “não reconhecer a legitimidade do governo Maduro é apoiar o golpe e a intervenção militar imperialista”. Ora, o que determina a “legitimidade ou não” de Maduro não são as intenções do imperialismo, e sim a forma como seu governo estabelece seu próprio poder.

Considero muito estranho que um socialista, ainda mais da ala revolucionária, diga que um governo burguês qualquer (ainda que seja nacionalista burguês) é “legítimo”. Em minha opinião, não existe governo burguês “legítimo”, ainda mais um governo bonapartista, que, apenas para começo de conversa, para se eleger, deu vários golpes nos partidos que não são seus diretos aliados, colocando na ilegalidade 37 deles com uma exigência absurda e infactível de “recadastramento”.

As eleições burguesas, nós sabemos, são uma farsa, um verdadeiro “show” para alienar o povo. Na verdade, embora haja muitas variáveis em jogo, a variável determinante para a eleição de um governante, em última instância, são os interesses daqueles que detém o poder econômico da sociedade. Apenas combatendo esse poder econômico seria possível eleger um governo “legítimo”. Um governo escolhido pela burguesia por acaso pode ser considerado legítimo?

É verdade que há uma ofensiva imperialista para derrotar o povo venezuelano a partir do discurso de “ilegitimidade” de Maduro. Mas nós não mudamos a caracterização de um governo ao sabor do vento. Determinar se um governo é legítimo depende apenas das características desse governo e não da política imperialista. Nós não podemos mudar a caracterização de acordo com a política, pelo contrário: nós temos que adequar à política de acordo com a caracterização.

Não é possível mudar os fatos pelo desejo. Apenas a ação política concreta é capaz de mudar fatos. O combate à política imperialista só pode ser efetivo se nós dissermos a verdade: não há nada de legítimo no governo Maduro, mas é o povo venezuelano que tem que tirar essa conclusão, sem ilusão no oportunismo do Trump.

*Esse texto reflete a opinião do autor e não, necessariamente, a opinião editorial do Esquerda Online

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