Declarações de Bolsonaro sobre política externa provocam instabilidade e crise em setores da economia

Por: Gabriel Santos, de Maceió, AL

O capitão da reserva Jair Bolsonaro, em discurso após ser eleito presidente, reafirmou o que vinha sendo dito durante toda a campanha: que iria libertar o Brasil de relações internacionais “com viés ideológico”.

A frase de Bolsonaro é referente às políticas internacionais e relações que o Brasil assumiu durante os anos de governo do PT, tendo um peso de liderança na América Latina e um importante papel nas relações “Sul-Sul”, com outras economias emergentes da África, Oriente Médio e Ásia.

Com um discurso para o cenário internacional baseado em uma retórica simples e infantil, assim como por uma paranóia que alimenta um doentio anticomunismo, Bolsonaro e sua equipe geram crises e repúdio de diversos governos do mundo com suas afirmações.

Da vizinha Argentina, governada pelo neoliberal Macri, passando pelo Egito, governado pelo cruel e autoritário regime de al-Sisi, chegando ao governo chinês, principal parceiro comercial brasileiro, diversos países se mostraram preocupados com os anúncios.

MERCOSUL

Paulo Guedes, o futuro ministro da Fazenda e homem de confiança de Bolsonaro, em resposta a uma jornalista argentina, afirmou que o “MERCOSUL não era prioridade”, e que as relações do bloco são “totalmente ideológicas”. Guedes parece acreditar que o bloco é uma criação do bolivarianismo, mostrando assim total desconhecimento da realidade.

O MERCOSUL, criado durante o governo Collor, é formado por Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e a Venezuela (que se encontra suspensa do mesmo). Apesar do bloco ter perdido relativa importância nos últimos anos, tem um PIB de US$ 2,78 trilhões, o que o colocaria como a quinta maior economia do mundo.

A relação do Brasil com o MERCOSUL é bastante vantajosa. No último ano exportou para os países do bloco US$ 22 bilhões, com um superávit comercial de significativos US$ 10,7 bilhões, o que representa mais de 15% de todo superávit comercial brasileiro.

O MERCOSUL é um importante cliente das fábricas brasileiras. A Argentina, por exemplo, comprou o valor de US$ 4,7 bilhões em automóveis para passageiros, e outros US$ 1,8 bilhões em veículos de fábrica. O mercado argentino é de extrema importância para a indústria nacional. O país vizinho foi o terceiro colocado no ranking de destinos das nossas exportações em 2017.

Negar a importância que o MERCOSUL ganhou para a economia brasileira é uma enorme infantilidade que terá graves consequências para o bolso da burguesia nacional, e também das multinacionais que produzem no Brasil e utilizam o país como plataforma de exportação. Para se ter uma ideia, em 2017 o Brasil exportou US$ 26,8 bilhões para os Estados Unidos, importando US$ 24,8 bilhões, o que torna nosso comércio bilateral superavitário em US$ 2 bilhões. Porém, nesta década a realidade foi o oposto, sendo deficitário na maioria dos anos.

Transferência da embaixada brasileira para Tel Aviv

Uma das medidas anunciadas por Bolsonaro que gerou mais polêmica foi a de transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém. Esse anúncio feito para agradar sua base evangélica fundamentalista, geraria um grande terremoto nas relações brasileiras com os países árabes.

Sobre este tema é valido lembrar que a cidade de Jerusalém no plano de partilha inicial da Palestina, em 1947, estava caracterizada com um status especial, por conta de sua importância histórica para judeus, muçulmanos e cristãos. Porém, no ano seguinte o Estado sionista de Israel se apoderou de uma parte da cidade. Em 1967 passou a ocupar militarmente toda Jerusalém e passou a declarar a cidade como sua capital. A comunidade internacional não reconhece esta declaração, e a imensa maioria dos países mantém suas embaixadas na cidade de Tel Aviv.

Das 88 embaixadas em Israel, só 2 ficam em Jerusalém: a dos Estados Unidos e da Guatemala. Agora, Bolsonaro na tentativa de imitar Trump e parecer como bom moço aos olhos do presidente norte-americano, cria um problema político com a região do Oriente Médio que é altamente importante para os negócios do país.

O Brasil é hoje o maior exportador de carne halal do mundo, cuja produção atende normas específicas do islamismo. A Liga Árabe, após declaração do capitão, enviou nota à embaixada brasileira no Cairo condenando as posições do futuro presidente.

Após o anuncio de Bolsonaro, o governo do Egito adiou uma visita ao Brasil e cancelou a visita que o chanceler brasileiro faria ao país. O Egito foi responsável pela compra de US$ 2,42 bilhões em produtos brasileiros em 2017, sendo nosso maior comprador de carne de toda a Liga Árabe.

O Irã é outro importante aliado brasileiro que se mostra incomodado com a posição de Bolsonaro. O país persa comprou US$ 2,5 bilhões do Brasil em 2017, com negócios voltados ao agronegócio.

A importância do mercado nos países árabes é inegável, enquanto por outro lado, as exportações para Israel em 2017 foram de míseros US$ 466 milhões. Caso mantenha a posição da mudança da embaixada para Jerusalém, muitos negócios brasileiros serão prejudicados e o PIB brasileiro será afetado negativamente.

Bolsonaro até agora tem demonstrado ao mundo um Brasil subjugado as vontades internacionais dos Estados Unidos. Caso as movimentações do capitão do exército se confirmem, elas trarão instabilidade e prejuízos importantes para setores exportadores, além de sérios conflitos diplomáticos para o futuro governo.

 

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