Ciro Gomes: o voto útil que alimenta a regressão política

Editorial de 15 de novembro de 2018

Nas eleições presidenciais, muitas pessoas que se identificam com o amplo campo político da esquerda optaram pelo voto em Ciro Gomes, julgando que se tratava do candidato com mais chances de derrotar Jair Bolsonaro no segundo turno. Sem dúvidas, essa opção era motivada tanto por uma importante percepção do perigo representado pelo candidato do PSL, quanto por um saudável instinto de autopreservação da própria esquerda. Não há dúvidas de que derrotar Bolsonaro deveria ser uma prioridade de toda a esquerda e das forças democráticas nessas eleições. Em um eventual segundo turno, o voto útil era um imperativo.

Entretanto, a antecipação dessa movimentação para o primeiro turno foi guiada por um raciocínio que absolutizava um dado limitado (os índices em pesquisas que simulavam o segundo turno) e operava nos marcos temporais do calendário eleitoral. Tal raciocínio esquece que, na política, as situações não são imutáveis e o tempo não é estanque. O que hoje se apresenta de uma forma, amanhã pode já ser diferente, e cada ação é parte de um encadeamento cujo fim não pode ser previsto de antemão. Por isso, escolhas feitas em determinados momentos com objetivos limitados e imediatos possuem consequências que podem superar em muito as intenções que as motivaram.

Nesse sentido, é importante perceber como Ciro Gomes tem se servido da força conferida por sua expressiva votação (pouco mais de 12% dos votos válidos) para impulsionar um projeto político burguês extremamente limitado.

O oportunismo nas eleições

Já no primeiro turno da disputa eleitoral, Ciro deu mostras de que o combate a Bolsonaro não era uma prioridade de sua estratégia. Sua postura inicial foi a de não confrontar diretamente Bolsonaro, tratando-o como um candidato equivalente aos demais. Esse comportamento contribuiu para normalizar o candidato neofascista aos olhos do eleitorado desde os primeiros momentos da disputa.

Com a evolução da campanha, entretanto, se relocalizou e passou a reproduzir em declarações públicas o argumento de que Bolsonaro e PT constituiriam ameaças similares ao regime democrático brasileiro. Com essa movimentação, buscou se aproveitar de forma oportunista do sentimento antipetista de teor reacionário que possui força em parcela importante da população.

No segundo turno, sendo coerente com sua trajetória oportunista (já foi filiado a sete partidos e participou de governos com distintas orientações ideológicas), seu posicionamento foi inteiramente guiado pela lógica da autopreservação em detrimento do compromisso com a derrota da extrema-direita. Assim, não apenas deixou o país poucos dias após o primeiro turno, como evitou qualquer declaração enfática de voto em favor de Haddad. Dessa forma, fortaleceu a tendência de parte de seu eleitorado no sentido do voto nulo ou, até mesmo, da migração para Bolsonaro.

O projeto cirista no pós-eleições

Uma vez terminado o pleito, Ciro tem desfrutado de grande espaço nos principais veículos da mídia empresarial (impressa e televisiva) para batalhar por seu projeto pessoal de se tornar a principal figura da oposição a Bolsonaro. Em termos da sustentação política, esse projeto aposta em uma ampla composição de forças no Congresso que poderia abarcar parlamentares de PDT, PSB, PCdoB, Rede, PSDB e DEM. Ou seja, para alcançar o objetivo declarado de evitar que o PT desfrute de algum protagonismo na futura oposição, Ciro aposta na articulação com forças organicamente vinculadas a algumas das mais poderosas frações burguesas atuantes no Brasil.

Além de desprovido de qualquer vinculação direta com a classe trabalhadora, o projeto cirista caracteriza-se por um esforço deliberado de confinamento das suas principais ações políticas ao espaço institucional do parlamento, reduzindo a importância dos movimentos sociais. Não à toa, em entrevista recente ao jornalista Roberto D’Ávila, ele criticou diretamente as ocupações promovidas pelo MST, indicando que as mesmas seriam ilegais. Mais uma vez, trata-se de uma tentativa de pegar carona em uma posição conservadora que ganha espaço a partir das ações de Bolsonaro e da extrema-direita, para fortalecer o seu próprio projeto político.

Do ponto de vista programático, o oportunismo e o institucionalismo de Ciro estão a serviço de um projeto marcadamente burguês, confinado aos limites do capitalismo dependente brasileiro. Com efeito, economicamente, não vai além das críticas ao setor financeiro, defendendo uma variante do neodesenvolvimentismo. E, em termos políticos, o que oferece é uma oposição propositiva, que se recusa a encarar o governo neofascista de Bolsonaro como uma ameaça imediata aos direitos e liberdades democráticas.

Por uma oposição radicalmente contrária a Bolsonaro

Diferentemente do proposto por Ciro, defendemos um projeto de construção de uma oposição radicalmente contrária ao governo Bolsonaro, que seja constituída a partir da frente única das organizações e movimentos dos explorados e oprimidos. Longe de apostarmos em arrivistas eleitoreiros, entendemos que apenas um forte ciclo de mobilizações pode segurar a ofensiva burguesa e conservadora e derrotar a extrema-direita organizada em torno de Bolsonaro. É, também, no bojo de tais mobilizações – e não pela tentativa de aproximação em relação a posições reacionárias – que será possível fortalecer um polo que aponte para a constituição de um novo ciclo político, superando os limites da estratégia petista de conciliação de classes.

Esses pressupostos da intransigência frente a extrema-direita, da independência política dos subalternos e da ênfase na mobilização e na ação direta estiveram na base da candidatura presidencial de Guilherme Boulos e Sônia Guajajara, fruto da aliança PSOL/PCB/MTST/APIB. Como entendemos que luta eleitoral e luta social são parte de um mesmo processo, estivemos envolvidos na construção dessa aliança e defendemos a sua manutenção para dinamizar as mobilizações do próximo período.

Foto: EBC.

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