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Aos 80 anos da IV Internacional, algumas reflexões

Por: Henrique Canary, colunista do Esquerda Online

Especial 80 anos da IV InternacionalAo se completarem 80 anos da fundação da IV Internacional, algumas reflexões são necessárias.
Em primeiro lugar, estavam equivocados aqueles que diziam que a criação da IV Internacional, em condições extremamente adversas, foi errada devido à força do stalinismo. É verdade que a IV Internacional desde muito cedo enfrentou um enorme aparato contrarrevolucionário mundial encarnado no stalinismo e seus partidos nacionais, e permaneceu marginal ao longo de toda a sua história. Mas isso ainda não significa que a derrota da IV Internacional estava determinada de antemão.

Ninguém sabia, naquele momento, os resultados da Segunda Guerra Mundial. O que se sabia com certeza (pelo menos Trotski e seus seguidores sabiam disso e alertaram diversas vezes) é que uma guerra entre a Alemanha nazista e a URSS era inevitável. A IV Internacional foi fundada com o objetivo de se apresentar como uma alternativa revolucionária diante da inevitável traição do stalinismo. E essa traição ocorreu. Em agosto de 1939 foi assinado o Pacto Molotov-Ribbentrop, também conhecido como Pacto Hitler-Stalin. Esse pacto estabelecia não apenas a paz entre a Alemanha e URSS (o que poderia ser plenamente justificável em termos diplomáticos – o próprio Trotski dizia isso), mas também uma colaboração econômica entre os dois países, com a URSS fornecendo petróleo, trigo e outros insumos para a Alemanha. Essa colaboração econômica permitiu a Hitler acelerar a preparação para a guerra e deixou despreparado o Exército Vermelho e a própria população da URSS, que passaram a acreditar em uma paz duradoura com a Alemanha. Além disso, o Pacto Molotov Ribbentrop estabelecia a divisão da Polônia entre a Alemanha e a URSS, bem como a partilha do Báltico e de outras regiões da Europa Oriental. Ou seja, longe de ser uma tentativa de “ganhar tempo”, como dizem hoje os historiadores stalinistas, o pacto tinha ambições bastante estratégicas e de longo prazo. Isso sem contar a repressão stalinista dentro do próprio Exército Vermelho entre 1937 e 1939, o que o deixou extremamente debilitado em termos de comando tático militar, uma vez que a maioria dos fuzilados por suposta traição era de comandantes experientes, que haviam passado pelo fogo da Guerra Civil.

Por que o stalinismo foi tão poderoso?
Por que uma traição tão grande do stalinismo não teve efeito sobre o movimento de massas mundial? Trata-se de uma questão difícil. Aqui parecem ter agido vários fatores: a força do aparato stalinista, a lealdade burocrática das direções nos partidos comunistas nacionais e a velocidade e confusão dos eventos, já que apenas dois anos depois da assinatura do pacto a Alemanha invadiu a URSS, anulando de fato os acordos anteriores.

Além disso, o heroísmo do povo soviético esteve muito além do que a imaginação humana jamais poderia vislumbrar. Foram 27 milhões de mortos, cinco mil cidades e vilarejos transformados em cinzas. Ao se encontrar à frente do Estado, Stalin apareceu para o mundo como o arquiteto da vitória, o que é absolutamente falso em termos históricos. A vitória se deu apesar de Stalin, e não graças ele. Mas sãos os vitoriosos que contam a história das batalhas e por isso o mundo encarou o stalinismo como o responsável pela derrota do nazismo. Isso conferiu uma enorme autoridade aos partidos comunistas stalinizados do mundo inteiro. Um outro fator que parece ter influenciado foi o rápido início das hostilidades entre a URSS e o bloco capitalista ocidental logo após a Segunda Guerra, o que tensionou as forças simpáticas ao socialismo para se posicionarem em defesa do stalinismo.

Tudo isso fez com que a IV Internacional não se tornasse uma alternativa revolucionária. Porque simplesmente a maioria do movimento de massas não estava buscando nenhuma alternativa. Além disso, o assassinato de Trotski pelas mãos de um agente stalinista privou a IV Internacional de sua direção política, e por isso muitos erros foram cometidos pela jovem e inexperiente direção que assumiu o leme da IV Internacional após a guerra.

IV Internacional: muitas fragilidades e uma grande força
A marginalidade política, ao não ser superada, acabou impulsionando um ciclo vicioso: quanto mais marginal se tornava, mais sectária e autofágica ficava a IV Internacional. As dezenas de rupturas acabaram transformando o movimento trotskista em uma diáspora difícil até mesmo de ser mapeada. Cada um dos novos “centros internacionais” surgidos após mais uma ruptura se colocava como tarefa primordial… a destruição do centro concorrente, que quase sempre era qualificado como “inimigo”, “traidor” etc.

Mas por que então dizemos que a fundação da IV Internacional estava correta, se política e organizativamente ela foi derrotada? Porque uma organização não é somente sua estrutura orgânica e sua política. Isso é fundamental, mas não é tudo. Uma organização é, em primeiro lugar, seu programa e sua teoria. É daí que pode vir sua força política e sua solidez organizativa, e não o contrário. Ao fundar a IV Internacional, ainda que sob condições extremamente difíceis, ainda que sob uma enorme pressão política por parte do stalinismo, Trotski estava fazendo uma aposta no futuro. E essa aposta era, em primeiro lugar, teórica e programática.

Isaac Deutscher, o grande biógrafo de Trotski (e também crítico da fundação da IV Internacional), cunhou a expressão “vitória na derrota” para se referir ao legado de Trotski. O que isso significa? Que o próprio Trotski e seu projeto político-organizativo (a IV Internacional) foram derrotados, mas sua ideias não apenas permaneceram vivas, como se demonstraram as únicas capazes de explicar a grande contradição, o grande enigma do século 20, que devorou tantos revolucionários, transformando-os ora em oportunistas empedernidos, ora em burocratas envergonhados, ora em sectários alucinados: a vitória e a degeneração da Revolução Russa, a força e a inviabilidade histórica do stalinismo.

Trotski deu uma explicação teórica e uma saída programática para esses dois pares contraditórios do século passado: explicou a vitória de uma revolução socialista em um país atrasado por meio de sua teoria da revolução permanente e depois explicou porque essa revolução degenerou, o que era a burocracia e o mais importante: qual a alternativa ao stalinismo e qual o prognóstico histórico.

Cinquenta anos antes, um prognóstico impressionante
Em 1936, portanto 50 anos anos antes da perestroika, Trotski disse que: ou a burocracia soviética era derrubada em uma nova revolução política que devolvesse o poder aos sovietes e restabelecesse a democracia do Estado e do partido na URSS ou o capitalismo seria restaurado. E agregou: o capitalismo poderia ser restaurado tanto pela via da invasão estrangeira, quanto pelas mãos da própria burocracia, ansiosa por deixar de ser gerente e tornar-se proprietária. E foi exatamente isso que aconteceu: a URSS derrotou a invasão estrangeira, mas acabou perecendo sob os golpes da própria burocracia dirigente, que inventou a perestroika para tomar de assalto a propriedade estatal e tornar-se burguesia.

O fato desse prognostico de Trotski ter se cumprido de maneira brilhante não transformou os trotskistas em uma alternativa política real no momento em que a restauração estava ocorrendo, nem depois dela. Para piorar, os próprios trotskistas, em geral, entenderam muito confusamente o que estava acontecendo. Confundiram uma contrarrevolução democrática (assim eu chamo a restauração capitalista, pois foi uma contrarrevolução social feita por métodos “democráticos”) com a revolução política preconizada por Trotski. É incrível: viram (vimos) uma revolução onde havia uma contrarrevolução. Resultado: não perceberam (não percebemos) o tamanho da derrota ocorrida entre 1989 e 1991 na Europa Oriental. Para usar uma imagem do próprio Trotski: imaginem uma pessoa no escuro que sabe que tem diante de si uma escada, mas não sabe se a escada sobe (revolução) ou desce (contrarrevolução). Essa pessoa quer muito subir e por isso decide que tem diante de si uma escada que sobe, então ela levanta o pé e desloca o corpo para frente para subir o primeiro degrau, mas ocorre que escada descia… Esse foi o tamanho do tombo que nós, trotskistas, caímos.

É fácil ser profeta do passado…
Hoje é fácil ver o que foi e como foi. Mas não era tão fácil assim na ápoca. Os eventos se desenvolviam a uma velocidade alucinante e os sinais eram muito mais contraditórios do que parecem hoje, à distância. De qualquer forma, erramos. No entanto, supondo que tivéssemos acertado, tinha com ser diferente? Afinal de contas, mesmo com uma compreensão correta dos fatos, isso não quer dizer que o trotskismo pudesse sair vitorioso do conturbado período dos anos 1990. Bem, isso jamais saberemos. Mas como mínimo, podemos dizer que os partidos trotskistas poderiam ter evitado, talvez, algumas derrotas desnecessárias, preservado algumas posições, evitado algumas rupturas infantis, provocadas por uma compreensão equivocada da realidade, vista quase sempre como uma maré montante rumo à vitória final.

Em qualquer caso, uma teoria ou um teórico não podem ser culpados pelos erros de seus seguidores. Como dissemos mais acima, Trotski nos deu a teoria da revolução permanente e uma explicação científica para a degeneração da URSS e para a força do stalinismo. Esse é o grande legado da IV Internacional. Mas não é o único: os militantes da IV Internacional foram, em inúmeras ocasiões, exemplo não apenas de firmeza moral e estratégica, mas também de faro e iniciativa política. Estados Unidos, França, Inglaterra, Argentina, Brasil, Sri Lanka, Bolívia, Peru – todos esses países viram nascer importantes organizações trotskistas que lutaram com dignidade e inteligência para romper a marginalidade que as derrotas da primeira metade do século 20 haviam imposto. Alguns partidos foram mais bem sucedidos. Outros nem tanto. Todos eles têm uma história para contar e lições para serem absorvidas por todos nós.

O presente e o futuro
Mas e hoje? O que é a IV Internacional hoje? Tem sentido aplicar esforços na sua reconstrução? O legado teórico e programático deixado por Trotski é o suficiente para a continuidade do marxismo em nosso século? Este é um tema sobre o qual aqueles que reivindicam a teoria da revolução permanente já se debatem há algum tempo e, felizmente, devem seguir se debatendo, exatamente porque esta é uma das principais questões do novo século: como continuar o que começaram nossos grandes predecessores? Como ser dignos de uma herança tão rica? Para isso, também é importante responder: Qual parte exatamente desta herança reivindicamos? E a qual parte renunciamos? E qual é a nossa própria contribuição a esta herança comum? O século 21 se ergue diante de nós e nos indaga, como a Esfinge a Édipo: decifra-me ou te devoro.

 

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