Pular para o conteúdo
Especiais

O dia em que o pedido de “intervenção militar” ganhou as ruas

Por Rodrigo Bocão, de São Paulo, SP

Depois do pronunciamento de Temer no domingo declarando aceitar a pauta do movimento grevista dos caminhoneiros presenciamos, já no dia seguinte, 28 de maio, o crescimento do movimento paredista. A sensação de caos e de desgoverno causada pela crise de abastecimento nas cidades e a radicalização dos caminhoneiros autônomos contra Temer abriram uma situação contraditória e peculiar.

As ideias de extrema-direita que já vinham tendo peso na greve passaram a ser uma bandeira de boa parte das centenas de bloqueios em todo país e, ao mesmo tempo, em várias regiões periféricas das grandes cidades ocorreram pequenas mobilizações populares pedindo difusamente uma intervenção militar. A extrema-direita, saindo da toca e das tumbas, ousou colocar à luz do dia cerca de mil pessoas marchando em  frente ao Congresso Nacional. Nos grupos de Whatsapp de escolas, locais de trabalho e famílias, surgiu com força o tema da “intervenção militar”, que se tornou a principal pauta do dia. Inegavelmente, sua defesa ganhou a simpatia de milhões.

Curiosamente, tanto as Forças Armadas, quanto o neofascista Jair Bolsonaro, se pronunciaram durante a manhã de terça contra uma eventual “intervenção militar”,  defendendo, assim, o regime democrático-liberal em vigor. Por sua vez, o grande capital, por intermédio da grande imprensa, condenou abertamente uma saída bonapartista de tipo militar. Pode-se dizer, portanto, que não existe, por ora,  nenhum perigo de um eventual golpe ou de intervenção militar.

Entretanto, essa situação peculiar e contraditória deve abrir um alerta para as esquerdas. Não podemos permitir novamente que essa bandeira ganhe milhões porque não podemos contar sempre com a boa vontade do inimigo, em especial quando se trata de um inimigo cujo amor pela sua própria democracia, isto é, pela própria democracia burguesa é tão sólido como uma escultura de areia.

Um pouco sobre a conjuntura atual e os vícios da esquerda

A raiva de Temer, o ódio aos políticos (incluído aqui os políticos de esquerda), ao parlamento, aos corruptos, combinado à sensação de caos e desordem foram decisivas para que pessoas despolitizadas , trabalhadores atomizados, gente do povo desorganizada, e também uma parte dos caminhoneiros grevistas ávidos por um país melhor  sofressem a influência direta de ideias reacionárias, nutrindo ingenuamente a expectativa de que as Forças Armadas seriam a única instituição que poderia colocar ordem no país. Esse sentimento é parte de um fortalecimento de instituições como o Judiciário, Polícia Federal e Ministério Público que presenciamos no último período.

A esquerda pode ter duas reações perante essa realidade. A primeira delas, de tipo sectária, é atribuir o rótulo de “fascistas” indistintamente a todos os que defenderam a intervenção militar e, nesse sentido, confundir grosseiramente os neofascistas organizados com milhões de trabalhadores atrasados que, momentaneamente, compartilharam a bandeira da intervenção militar. A outra, ancorada no método marxista, é buscar compreender os motivos que levaram homens e mulheres de nossa classe a flertar e simpatizar com ideias reacionárias, as quais, em última instância, atentam contra os seus próprios interesses.

Algumas hipóteses para fomentar o debate

1) O Brasil, ao contrário de Portugal, não teve uma revolução democrática. A transição lenta e gradual planejada por Golbery e Geisel se deparou com uma inconveniente ativação das lutas sindicais e populares desde fins dos anos 1970, a ditadura foi derrotada nos seus planos originais de transição mas não foi derrubada. Diferentemente de casos como a Argentina, quando o componente popular e democrático fez a cúpula bonapartista ditatorial perder o controle pleno do processo de transição, no Brasil a classe dominante conseguiu, não sem percalços, transmutar a ditadura militar bonapartista em uma democracia liberal-representativa alicerçada geneticamente na anistia aos torturadores e dirigentes do regime anterior, cujos crimes contra a humanidade nunca foram profundamente denunciados. Como um dos resultados desse processo, não se verifica aqui uma memória histórica contra a ditadura e as forças armadas como presenciamos atualmente em países como a Argentina ou mesmo naqueles cujas transições se aproximaram mais do caso brasileiro, como o Chile.

2) O golpe parlamentar de 2016, combinado às reformas e ajustes antipopulares e aos inúmeros casos de corrupção, transformaram Temer no governo mais fraco desde Sarney. Junto a isso, ocorreu um processo de criminalização de Lula e PT através da Lava Jato culminando com a prisão do ex-presidente. A combinação de um governo Temer odiado e fraco com o processo de desmoralização do PT que governou o país durante treze anos(e as comprovadas relações da cúpula deste partido com esquemas de corrupção) abriram um espaço inédito desde a redemocratização para que uma extrema direita que promete ordem e combate à corrupção, e que tem na terrível figura de Bolsonaro seu principal expoente, ganhasse audiência de massas, ainda que, por ora, minoritária.

3) A extrema direita conseguiu um patamar de organização inédito. É organizada em redes de whatsapp e possui computadores trabalhando a todo o momento difundindo uma competente circulação de propaganda de suas ideias e de fake News (notícias falsas) contra os governos de plantão e contra a esquerda. Essa rede de intervenção proporcionou que, de maneira inédita e aproveitando o espaço político aberto, ela pudesse intervir na greve e influenciar uma parcela importante dos caminhoneiros em luta.

4) A extrema esquerda, particularmente o PSOL, apesar de ser um partido em crescimento e bem visto pela classe trabalhadora e juventude, ainda não consegue fazer frente ao peso da extrema direita. Isso muito se explica em função do fato de que o período de fundação e consolidação do PSOL, em 2003-2010, coincidiu   com o auge dos governos petistas, abrindo, assim, pouco espaço para o seu crescimento. Se é verdade que agora o PSOL, em aliança com o MTST, está bem posicionado para aproveitar esse espaço, não se pode ignorar que nos encontramos ainda em um processo inicial de reorganização da esquerda, nos marcos de uma “onda conservadora”, e que, portanto, as forças socialistas não conseguem, hoje, fazer frente à  influência da extrema direita no tecido social brasileiro em decomposição.

5)A inexistência de uma frente única das organizações sindicais e políticas da classe trabalhadora no último período contribuiu em muito para o atual cenário de uma correlação de forças desfavorável aos trabalhadores. Apesar dos inúmeros ataques contra os direitos sociais e econômicos da classe trabalhadora, da prisão de Lula, do assassinato de Marielle Franco e da ofensiva da extrema direita, não existe, até o presente momento, uma frente única para enfrentar nas ruas a ofensiva contra os direitos e a extrema-direita. A responsabilidade, em primeiro lugar, é do PT e da CUT, que se recusam a chamar a unidade em  base a um programa mínimo de ação para as ruas. A experiência do piquete do porto de Santos onde o movimento sindical dos estivadores, dos petroleiros e sindicatos da cidade somaram forças ao movimento dos caminhoneiros mostrou como a força de choque da classe trabalhadora organizada pode influenciar os rumos de uma luta concreta dos trabalhadores. Foi sem dúvida um dos piquetes com mais referência no movimento dos trabalhadores e sem a presença das idéias da extrema-direita. Por sinal, um dos mais radicalizados do país.

A extrema direita é um ator político e deve ser combatido. Não à intervenção militar!

O grande vitorioso dessa crise política foi, sem dúvida,  Jair Bolsonaro. Suas ideias conservadoras e a defesa do papel das Forças Armadas na vida política ganharam posições. Bolsonaro já aparece com sinalizações favoráveis do agronegócio e atinge todos os setores sociais. Saiu mais forte da atual crise política.

O mais perigoso neste momento é o crescimento do apoio à intervenção militar. Essa é uma das grandes disputas em curso e que a esquerda não pode se omitir em fazê-la. Um belo exemplo de ação nesta última quarta-feira, dia 30 de maio, foi a greve petroleira que criticou em alto e bom som  a intervenção militar. Assim como o ato comandado pelo MTST na Avenida Paulista, em São Paulo, a greve agitou a bandeira da redução do preço dos combustíveis, pediu a demissão de Pedro Parente e disse não à intervenção militar.

Esse é o papel que se espera de uma nova esquerda forjada na luta, na disputa de ideias e nas ruas, contra a extrema-direita. Devemos conversar com cada trabalhador, disputar as lutas em curso, as periferias e os locais de trabalho contra a ideia  da intervenção militar que, embora parece sólida, se desmanchará facilmente no ar assim que se deparar com a organização e a voz da classe trabalhadora.