Marx 200: Carney, Bowles e Varoufakis



Michael Roberts
(tradução de Valerio Arcary, colunista do Esquerda Online)

À medida em que o 200º aniversário do nascimento de Marx se aproxima, uma série de conferências, artigos e livros sobre o legado de Marx e sua relevância hoje estão surgindo – incluindo minha própria contribuição. O mais interessante foi um discurso na semana passada pelo governador do Banco da Inglaterra, Mark Carney, em sua terra natal, o Canadá.

Em seu discurso em uma “Cúpula do Crescimento” para o Fórum Público de Políticas em Toronto, Carney começou a ser provocativo e gerou manchete com uma declaração de que o marxismo poderia, mais uma vez, se tornar uma força política proeminente no Ocidente. “Os benefícios, a partir da perspectiva dos trabalhadores, da primeira revolução industrial, que começou na segunda metade do século XVIII, não foram sentidos plenamente na produtividade e nos salários até a segunda metade do século XIX. Se você substitui fábricas têxteis por plataformas, máquinas a vapor por aprendizado de máquina (inteligência artificial), telégrafo por twitter, você tem exatamente a mesma dinâmica que existia 150 anos atrás (na verdade 170 anos atrás –MR) – quando Karl Marx estava rabiscando o Manifesto Comunista ”.

Assim como quando da primeira revolução industrial, no início do século 19, a Grã-Bretanha levou ao colapso dos empregos tradicionais e reduziu os salários reais por uma geração nas duas primeiras décadas do século XIX, também agora a longa depressão, em todo o mundo, com o advento dos robôs e inteligência artificial, uma nova revolução industrial ameaça destruir o trabalho humano e os meios de subsistência.

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Em 1845, Engels escreveu: A condição da classe trabalhadora na Inglaterra, que expôs a miséria e a pobreza geradas pela substituição de habilidades manuais por máquinas e manteve os rendimentos reais estagnados. Agora, diz Carney, o marxismo pode voltar a ser relevante com uma nova explosão de “viés de capital” (ou seja, um aumento nas máquinas em relação à força de trabalho humana).

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A automação pode não apenas destruir milhões de empregos. Para todos, exceto uma minoria privilegiada de trabalhadores de alta tecnologia, o colapso na demanda por mão-de-obra pode manter estagnados ou degradar padrões de vida por décadas.

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Em tal clima, “Marx e Engels podem voltar a ser relevantes”, disse Carney.Sem perceber, Carney estava reiterando a lei geral de Marx sobre acumulação capitalista delineada no Volume Um do Capital (Capítulo 25), escrito há cerca de 160 anos, que a acumulação capitalista expandirá e promoverá máquinas para substituir o trabalho humano, mas isso não levará automaticamente a padrões de vida mais elevados, menos trabalho, e mais liberdade para o indivíduo, mas provocará, principalmente, uma pressão descendente sobre a renda real, não apenas daqueles que perdem seus empregos para máquinas, mas em geral. Também levaria a maios trabalho, não menos, para quem tem um emprego, deixando milhões em um estado de “trabalho precário” – um exército de reserva para o capital explorar ou dispensar, como exige o ciclo de acumulação. (ver Capital Volume One p782-3 e meu novo livro, pp32-37).

A visão de Carney sobre a revolução dos robôs levando a perdas maciças de empregos tem muito apoio empírico. No entanto, como Marx apontou em Capital, não é um colapso unilateral nos empregos. A tecnologia também cria novos empregos, e aumenta a produtividade do trabalho e, dependendo do equilíbrio de forças na luta de classes entre capital e trabalho sobre o valor criado, a renda real também pode aumentar. Isso acontece em períodos em que a lucratividade está melhorando, e mais mão-de-obra entra no mercado.

 É claro que esse lado “feliz” da acumulação capitalista é o que a economia mainstream (ou economia ortodoxa, que é hegemônica nas universidades) gosta de promover, contrariamente às preocupações de Carney. Por exemplo, Paul Ormerod, comentou a opinião de Carney sobre a relevância de Marx. Você vê, Marx “estava completamente errado em uma questão fundamental. Marx achava, corretamente, que a acumulação de capital e o avanço da tecnologia criariam um crescimento de longo prazo na economia. No entanto, ele acreditava que a classe capitalista expropriaria todos os ganhos. Os salários permaneceriam próximos aos níveis de subsistência – a “miséria da classe trabalhadora” como ele a chamava ”.

De fato, diz Ormerod, “os padrões de vida se expandiram para todos no Ocidente desde meados do século XIX. As horas de lazer aumentaram drasticamente e, longe de serem enviadas para as chaminés aos três anos, os jovens de hoje não entram na força de trabalho até pelo menos 18. “Aparentemente a prosperidade é a ordem do dia:“ cada instância de uma economia que entra no crescimento econômico sustentado das economias capitalistas orientadas para o mercado, desde a Inglaterra do início do século XIX até a China do final do século XX. Quando isso acabar, os frutos do crescimento serão amplamente compartilhados ”.

Há vários pontos aqui que ocupei em muitos posts anteriores. Primeiro, Marx não se deteve ou deixou aprisionar por uma teoria de “níveis salariais de subsistência”. Quanto ao argumento de que o capitalismo tirou todo mundo da pobreza e reduziu a labuta e a miséria, está cheio de buracos. Note-se que Ormerod fala de “todos no Ocidente”, desconsiderando e ignorando bilhões de pessoas fora do “Ocidente” que permanecem na pobreza por quaisquer definições. E contrariamente à opinião de Ormerod (como a de Keynes antes dele), o surgimento da tecnologia sob o capitalismo não levou a uma grande redução no trabalho. Mostrei que a maioria das pessoas no “Ocidente” continua a ter vidas profissionais (em horas por ano), semelhantes aquelas da década de 1880, ou da década de 1930; eles podem trabalhar menos horas por dia em média, e obter sábados e domingos de folga (para alguns), mas eles ainda trabalham por mais de 1800 horas por ano, e trabalham por mais tempo no geral (50 anos ou mais).

Ormerod também argumenta que a desigualdade de rendas e riqueza não está piorando, e que a participação do trabalho na renda nacional parou de cair, ao contrário de Carney. Bem, há uma riqueza de evidências de que a riqueza e a desigualdade de renda não estão melhorando, tanto globalmente entre nações, quanto dentro das economias nacionais.

Ormerod está certo, no entanto, em questionar o modelo unilateral do capitalismo de Carney. A parcela do valor total criado pelo trabalho pode aumentar ou diminuir em períodos diferentes, dependendo do equilíbrio das forças de classe e do impacto da acumulação; e o próprio gráfico de Carney mostra que os salários reais não apenas estagnaram na primeira revolução industrial ou agora, mas também nas décadas de 1850 e 1860; e no primeiro quartel (vinte e cinco anos) do século XX. Portanto, há mais fatores nesta questão da variação da desigualdade social do que a tecnologia. A atual estagnação dos salários reais no Reino Unido e nos EUA é mais um produto da longa depressão dos últimos dez anos, do que da incoroporação robôs ou inteligência artificial, que mal começaram a ter impacto ainda (o crescimento da produtividade se mantém baixo, ou desacelerando na maioria das economias). A rentabilidade do próprio capital, e a força social dos trabalhadores na batalha pela apropriação do valor criado são mais relevantes.

Infelizmente, não são apenas os economistas ortodoxos dominantes que distorcem ou rejeitam a teoria econômica de Marx. Em um artigo para Vox, o eminente e veterano economista marxista Sam Bowles escreve sobre o legado das idéias econômicas de Marx a fim de descartá-las. Ele concorda com a opinião de Keynes de que o capital é “um livro-texto econômico obsoleto [que é] não apenas cientificamente errôneo, mas sem interesse ou aplicação ao mundo moderno” (Keynes, 1925). E ele concorda com o guru econômico da década de 1960, o juízo de Paul Samuelson de que: “Do ponto de vista da teoria econômica pura, Karl Marx pode ser considerado um pós-ricardiano menor…  que por sua vez foi“ o mais superestimado dos economistas ”(Samuelson 1962).

Bowles considera que a teoria do valor-trabalho de Marx era “pioneira, mas inconsistente e ultrapassada”. De acordo com Bowles, a teoria do valor de Marx, como uma representação de um sistema geral de troca, e sua teoria da tendência da baixa tendencial da taxa de lucro “não resolveram os mais notáveis problemas teóricos de sua época, mas anteciparam problemas que mais tarde seriam abordados, matematicamente. Bowles sugere que a economia mainstream, em particular o marginalismo neoclássico, avançou na solução dos fracassos de Marx, substituindo sua teoria do valor. E isso também levou a abandonar a idéia de propriedade social dos meios de produção para substituir o capitalismo. “A economia pública moderna, o mecanismo de design e a teoria da escolha pública também desafiaram a noção – comum entre muitos marxistas dos últimos dias, embora não originários do próprio Marx – de que a governança econômica sem propriedade privada e mercados poderia ser um sistema viável de governança econômica”.

 Aparentemente, tudo o que resta do legado de Marx é o que Bowles chama de “despotismo no trabalho”, a natureza exploradora da produção capitalista; que não é devido à exploração da força de trabalho pela apropriação de mais-valia; mas a “estrutura de poder”, onde proprietários e gerentes dominam sobre os servos trabalhadores. Assim, somos reduzidos a uma teoria política (e mesmo isso não é muito em comum com a teoria política de Marx), já que as ideias econômicas de Marx são “ultrapassadas” ou falsas.

Bem, todos os argumentos de Bowles (e os de Keynes e Samuelson) foram retomados por mim em vários posts no passado, e mais completamente em meu novo livro, Marx 200. Em resumo, podemos mostrar que a teoria do valor de Marx é lógica, consistente e, empiricamente, fundamentada. Ele até fornece uma explicação convincente dos movimentos de preços relativos no capitalismo, embora esse não seja seu objetivo principal. Seu principal objetivo é mostrar a forma particular que o modo de produção capitalista adquire ao explorar o trabalho humano para obter lucro; e por que esse sistema de exploração tem contradições inerentes que não podem ser resolvidas sem sua abolição.

Além disso, a crítica marxista do capitalismo baseia-se na economia e leva à ação política revolucionária; por isso, não é (apenas) uma crítica moral do “despotismo” no local de trabalho ou em qualquer outro lugar. A economia de mercado (capitalismo) não pode proporcionar o pleno desenvolvimento do potencial humano, porque o despotismo no local de trabalho é um produto da exploração do trabalho pelo capital.

Yanis Varoufakis reconhece isso em seu longo artigo sobre o Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels para promover sua nova introdução a essa obra-prima. Varoufakis escreve um artigo exuberante, embora exageradamente floreado, enfatizando uma grande mensagem de Marx e Engels neste Manifesto: que o capitalismo é o primeiro modo de produção que se tornou global. Varoufakis vê este processo como sendo apenas completado com a queda da União Soviética e outros estados “comunistas” que bloquearam a globalização até então. Isso é provavelmente um exagero. O capitalismo desde o início visava expandir globalmente (como Marx e Engels explicam no CM). Após o fim da depressão de 1870 e 1880, houve uma surpreendente expansão do capital mundial, agora denominado imperialismo, baseado nos fluxos de capital e comércio.

Embora reconhecendo corretamente o efeito poderoso (feliz?) do capitalismo globalmente, Varoufakis também enfatiza o lado sombrio: da alienação, exploração, imperialismo e despotismo: “Enquanto celebravam como a globalização deslocou bilhões de pobreza abjeta para pobreza relativa, veneráveis jornais ocidentais, personalidades de Hollywood, empresários do Vale do Silício, bispos e até financiadores multibilionários todos lamentam algumas de suas ramificações menos desejáveis: desigualdade insuportável, ganância descarada, mudança climática e o seqüestro de nossas democracias parlamentares por banqueiros e ultra-ricos.

E, ao contrário da visão convencional dominante, Varoufakis argumenta que Marx e Engels estavam certos de que a luta de classes sob o capitalismo pode ser resumida a uma batalha entre capital e trabalho. “A sociedade como um todo”, argumenta, “está cada vez mais dividida em dois grandes campos hostis, em duas grandes classes diretamente frente a frente”. Como a produção é mecanizada, e a margem de lucro dos donos de máquinas torna-se a força de impulso e sentido de nossa civilização, a sociedade divide-se entre acionistas que não trabalham e trabalhadores assalariados não-proprietários. Quanto à classe média, é o dinossauro na sala, pronto para a extinção.

E ele vê que o capitalismo deve ser substituído, não modificado ou corrigido por suas falhas. “É nosso dever acabar com a antiga noção de meios de produção privados e forçar uma metamorfose, que deve envolver a propriedade social de maquinaria, terra e recursos. Somente abolindo a propriedade privada dos instrumentos de produção em massa e substituindo-a por um novo tipo de propriedade comum que trabalhe em sincronia com as novas tecnologias, diminuiremos a desigualdade e encontraremos a felicidade coletiva ”.

Varoufakis reconhece a “irracionalidade” do capitalismo como um sistema para o progresso e a liberdade humanos, mas este “marxista errático”, como ele próprio confessa sobre si mesmo, não apresenta a explicação material para essa irracionalidade, além da crescente desigualdade, e incapacidade de usar novas tecnologias para beneficiar a todos. O capitalismo também sofre de crises regulares e recorrentes de produção que destroem e desperdiçam valor criado pelo trabalho humano. Essas crises são de “superprodução”, exclusivas do capitalismo e, regularmente, lançam o desenvolvimento humano para trás. Esse aspecto da irracionalidade do capitalismo está faltando no artigo de Varoufakis, embora tenha sido expresso, vividamente, por Marx e Engels no Manifesto Comunista. Vejamos a notável passagem do Manifesto, onde Marx e Engels começam explicando que “a necessidade de um mercado em constante expansão para seus produtos persegue a burguesia sobre toda a superfície do globo” e termina com “abrir caminho para crises mais extensas e destrutivas, diminuindo os meios pelos quais as crises são evitadas”.

E uma teoria das crises é importante. As pessoas podem viver com a crescente desigualdade, com pobreza relativa, até guerras, etc., desde que, para elas, as coisas melhorem gradualmente a cada ano sem interrupção. Mas a melhoria gradual nos padrões de vida não é possível, porque o capitalismo tem quedas regulares e recorrentes na produção, investimento e emprego embutidos em seu sistema, que podem durar por uma geração em depressões – como mostram os gráficos de Carney. Esse é um caráter fundamental da irracionalidade do capitalismo.

As teorias econômicas de Marx são muitas vezes destruídas ou contestadas – o que parece razoável e justo em um debate sobre a verdade. Mas quando cada argumento crítico é analisado, ele merece ser considerado fraco, na minha opinião. As leis de Marx do movimento do capitalismo: a lei do valor; a lei da acumulação e a lei da lucratividade ainda fornecem a melhor e mais convincente explicação do capitalismo e suas contradições inerentes. E estou deixando de lado a grande contribuição que Marx e Engels deram à compreensão do desenvolvimento histórico humano – a concepção materialista e a história da luta de classes – que estão na base das ações humanas. “Os homens fazem sua própria história, mas não fazem o que querem; eles não o fazem sob circunstâncias auto-selecionadas, mas sob circunstâncias já existentes, dadas e transmitidas do passado “.

Como o Manifesto diz (e Varoufakis ecoa em seu artigo), o capitalismo elevou as forças produtivas do trabalho humano a níveis sem precedentes, mas, dialeticamente, também trouxe novas profundidades de depravação, exploração e guerras em escala global. O legado de Marx é mostrar por que isso acontece e por que o capitalismo não deve durar, para que a sociedade humana avance para o “livre desenvolvimento de cada um” como a “condição para o livre desenvolvimento de todos”. As ideias de Marx permanecem mais relevantes no século XXI do que no século XIX. Mas a compreensão não é suficiente.Como está inscrito no epitáfio no túmulo de Marx no cemitério de Highgate em Londres, das Teses de Marx sobre Feuerbach: “Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo de várias maneiras; a questão é mudá-lo”.

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