Os trotskistas brasileiros e a primeira batalha contra o fascismo no Brasil



Por: Gabriel Santos, de Maceió, AL

O trotskismo no Brasil surge no inicio dos anos 1930, quando no interior do Partido Comunista do Brasil (PCB) um grupo de militantes se organiza como uma oposição interna a política da direção nacional do partido e passa a manter relações com a Oposição de Esquerda Internacional. Em 1933, os primeiros trotskistas brasileiros passam a se organizar de forma independente, criando assim a Liga Comunista Internacionalista. O grupo que passou a se organizar ao redor do jornal A Luta de Classes possuía nomes como de Mário Pedrosa, Fúlvio Abramo, Lívio Xavier, Aristides Lobo, Rachel Queiroz e Josefina Mendes.

Na época o cenário da luta de classes mundial era marcado pela crise de 29, pelos movimentos preparatórios para a Segunda Guerra e por uma intensa disputa entre as forças mais reacionárias e aquelas que buscavam efetivar a revolução proletária. Ao redor do globo, durante a década de 20 e início dos anos 30, diversos países passaram por lutas revolucionárias. O exemplo máximo foi à derrota da revolução operária na Alemanha e a chegada ao Poder de Hitler e do nazismo.

Estes acontecimentos não poderiam deixar de interferir aqui no Brasil. A luta de classes também se acirrava nestas terras, e desde os anos 20 era possível ver o crescimento de organizações de ultradireita e que flertavam com o fascismo no país. Podemos citar a Ação Social Brasileira (Partido Nacional Fascista), o Partido Nacional Sindicalista, a Legião Cearense do Trabalho. Todos eram grupos com ações reduzidas as suas regiões, mas a partir de ações do paulista Plínio Salgado, estes grupos fundam em 7 de Outubro de 1932 uma organização de peso nacional, a Ação Integralista Brasileira (AIB).

A AIB de Plínio chegou a ter o ano de 1937 mais de um milhão de membros, sendo importante colocar que a população na época era de apenas 40 milhões de pessoas. Se trouxéssemos para os dias atuais, seria dizer que a AIB teria algo em torno de 6 milhões de pessoas em suas fileiras. Em seu primeiro congresso, no ano de 1934, os fascistas tinham 4 mil células de base espalhadas pelo território nacional. E dois anos depois, nas eleições de 1936, tiveram no país 250 mil votos, elegendo vereadores, prefeitos e até deputados estaduais.

Voltando a conjuntura nacional dos anos 20 e 30, que era marcada por turbulências e rearranjos entre as classes dominantes, e pela entrada da classe trabalhadora organizada como figura do processo político. Existia uma verdadeira crise de representatividade entre as frações da burguesia nacional, gerando assim uma instabilidade política. Getulio Vargas surge então como uma alternativa para tentar amenizar esta crise e os conflitos interburgueses. O governo Vargas modernizou o campo industrial no País, centralizou o poder político, e buscou atenuar os conflitos de classe, por meio de uma forte repressão as organizações operárias tradicionais e de medidas compensatórias e assistencialistas.

Neste cenário, os Integralistas liderados por Plínio Salgado apoiavam às repressões de Vargas a classe trabalhadora e buscavam servir como legítimos bate-paus da burguesia para por fim as ações da classe trabalhadora organizada. Ao mesmo tempo tentavam se apresentar para a classe dominante como uma alternativa política real no terreno nacional.

Os trotskistas brasileiros ao perceberem a movimentação dos integralistas resolveram impulsionar uma campanha antifascista, alertando todo o movimento operário contra o perigo que Plínio e seus seguidores representavam. Assim após a reunião de sua executiva em janeiro de 1933, a LC convoca as organizações operárias para a criação de uma Frente Única Antifascista (FUA), com data de lançamento público no dia 11 de junho de 1933.

Os esforços para combater a AIB também se deram no marco da batalha de ideias. A FUA teve como divulgador o jornal O Homem Livre. Esta publicação é fruto da iniciativa da Liga e do PSB paulista, e teve como colaboradores Mario Pedrosa e Livio Xavier, além de ter tido como seu secretário Fúlvio Abramo. O jornal teve ao todo 22 edições, que abarcavam criticas ao avanço do fascismo no Brasil, Europa e Estados Unidos. O Homem Livre foi à principal voz pela qual entoou a propaganda antifascista. Os esforços de propaganda da LCI não se limitaram ao dito periódico. Foi lançado o livro de Leon Trotsky Revolução e Contrarrevolução na Alemanha. Que traz analises sobre a vitória do nazismo naquele local, a derrota da classe trabalhadora e os efeitos da política equivocada do PC Alemão, orientado pela Internacional Comunista e pelo Partido Comunista da União Soviética.

Buscando não repetir os erros do PC na Alemanha, os trotskistas brasileiros se engajaram numa campanha pela total unidade da classe trabalhadora contra o perigo fascista. No dia 25 de Junho de 1933, é realizado o ato de fundação da FUA, com participação do PSB paulista, do Grêmio Universitário Socialista, a União dos Trabalhadores Gráficos (UTG), a Legião Cívica 5 de Julho, e claro a LCI. Estavam também fortes grupos de imigrantes italianos, como a seção paulista do Partido Socialista Italiano, o grupo socialista Giacomo Matteotti, o Grupo Itália Libera. A revista O Socialismo e os jornais O Homem Livre e A Rua também se fizeram presente. Movimentos e grupos anarquistas não compareceram e recusaram fazer parte da FUA, por não terem acordo com frentes deste tipo, porém deixaram abertas as portas para ações conjuntas. Outra ausência foi a do PCB.

O PCB era contraria a realização de uma frente única com qualquer outro grupo do movimento operário. Está posição vinha da orientação da burocracia soviética, que seguia a política do chamado “Terceiro Período”, onde de forma sectária e ultra esquerdista, igualava correntes reformistas do movimento operário com grupos fascistas, pois ambos defendiam a manutenção do capitalismo. Era a tese chamada de “social fascismo”.

A revoada das galinhas verdes
A disputa política e ideológica se intensifica. Os integralistas começam a realizar uma série de ações, entre elas a tentativa de acabar com uma reunião da FUA que contava com cerca de mil participantes. Cada vez mais chegavam de várias partes do país notícias das agressões dos integralistas, o nível de tensão era tanto que um confronto parecia inevitável e cada vez mais próximo. A esquerda precisava dá uma resposta à altura.

Os integralistas notificam que irão realizar no dia 7 de Outubro de 1934 uma grande marcha em São Paulo. A inspiração da AIB foi a Marcha sobre Roma, que os fascistas italianos liderados por Mussoline fizeram em 1922.

Desta forma a FUA buscou articular uma contramanifestação na mesma data e local do ato integralista. Sendo convocadas todas as organizações que faziam parte da frente, mais o PCB e o Socorro Vermelho.

Fúlvio Abramo em seu livro “Minha vida e a luta pelo socialismo no Brasil”, nos conta:

Estávamos na sede da união dos Trabalhadores Gráficos (UTG), Mario Pedrosa, Lívio Xavier, Aristides Lobo, Manoel Medeiros e João da Costa Pimenta, quando nos avisam de um comunicado da Ação Integralista Brasileira convocando a manifestação. Medeiros é o primeiro a apontar ‘Não vamos a deixar que esses canalhas dominem as ruas. Vamos impedir’. Todos o apóiam. Como secretario da FUA minha tarefa é convocar uma reunião (…) para discutir, concretamente, a proposta de uma contramanifestação, armada se fosse necessário. (…) dois dias depois se atuando com rapidez, se convocou a todas as organizações que lutaram em 1° de maio (…) Rapidamente se tomaram as decisões importantes: todos aprovaram a proposta de realizar uma contramanifestação, estavam de acordo em que devia realizasse no mesmo dia e na mesma hora da anunciada manifestação integralista.”

A história nos diz que esta manifestação, foi à primeira aproximação de Hermínio Sacchetta com o trotskismo. Sacchetta, então secretário geral do PCB do Comitê Regional de São Paulo, defendia a participação do partido, porém a direção do PCB se mostrava receosa e vacilante. Sanchhetta e o grupo que girava em torno dele tomam a decisão de aderirem ao chamado para manifestação. Deste fato em diante, o dialogo de Sacchetta com os trotskistas foi cada vez mais forte e terminará com a ruptura deste com o stalinismo e com o PC, e a entrada dele nas fileiras do movimento trotskista, se tornando nas décadas de 40 e 50 um dos dirigentes mais importantes.

Chegando no dia e hora marcados, os integralistas se reuniam na Av Brigadeiro Luiz Antonia, em frente à sede da AIB. A ideia era marchar até a Praça da Sé, onde estavam reunidos desde o meio-dia vários grupos antifascistas. A quantidade de integralistas se estimava entre 4.000 e 7.000 vindos de diversas cidades do interior paulista e de outros estados como o Rio de Janeiro. Às 13 horas, as forças de segurança do Estado, com cerca de 400 homens armados de fuzis e metralhadoras começam a tomar posição.

Uma metralhadora das forças policiais dispara acidentalmente, deixando feridos e um morto. Fúlvio Abramo tenta realizar um discurso, mas é interrompido com a tentativa de assassiná-lo, um integralistas dispara tiros no dirigente trotskista. Isto da inicio ao conflito armado que envolve os fascistas, as forças da esquerda e a policia.

O confronto acaba com o militante Décio Pinto de Oliveira, do PCB, morto. Do lado das forças de segurança do Estado, ocorreram três mortes. Os integralistas saíram em disparado da praça, abandonando o seu característico uniforme verde em vários pontos da cidade. Quando chega a noite, a praça que antes estava tomada por membros da AIB se encontrava deserta, e aquele que tinha sido planejado por Plínio Salgado para ser um marco do fascismo no Brasil, acabou por ser um marco na história do movimento operário brasileiro. A FUA saiu vitoriosa dessa batalha, a contramarcha teve o efeito esperado e dissolveu a manifestação dos integralistas. Os antifascistas ganharam as batalhas das ruas e este dia ficou conhecido como a revoada das galinhas verdes.

Mais uma vez Fúlvio Abramo nos conta:

Subi ao pedestal de uma coluna e pronunciei algumas breves palavras (…) uma feroz rajada de balas se dirigiu contra nosso grupo (…) desci do palco improvisado e me reunir com os companheiros correndo. (…) a batalha continuou cada vez mais forte (eram mais das 4 da tarde). As balas vinham de todos os lados em uma confusão incrível. A batalha prosseguiu. Finalmente se retiram, seguindo a rua Senador Feijo até o largo São Francisco (a umas quatro quadras). Foi uma grande fuga que passou a ser chamada dali em diante de ‘revoada das galinhas verdes’ (…) Plínio Salgado, que não havia tirado os pés da sede da Ação Integralista, começou a derramar lágrimas e lamentações (…) Dispersados os integralistas,a Praça da Sé ficou diserta. Foram ‘quatro horas de ditadura do proletariado’.”

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