A morte de Marielle não foi mais do mesmo



Giambatista Brito, de Fortaleza (CE)

Marielle foi mais uma morte em uma capital violenta, de um Estado violento, de um país violento da violenta América Latina. Mas não foi mais do mesmo. Não foi uma morte de bala perdida, por “atitude suspeita”, em troca de tiro, assalto seguido de morte ou coisa do tipo. Não foi a violência cotidiana que matou Marielle. Foram quatro tiros na cabeça muito bem disparados em um atentado premeditado. As balas que tiraram a vida de Marielle também levaram a de Anderson mas é bom que não se perca a noção de que elas, as balas, eram e foram tão somente para ela. Anderson, um trabalhador precário como tantos outros fazendo bico pra ajudar a sustentar a família, foi uma perda irreparável para os seus, mas ele, como dizem matadores, foi “dano colateral”, ela era o “alvo”.

Não faltam gritos e textos por todos os lados afirmando que Marielle foi morta por ser mulher, preta, favelada e LGBT. E sim, isso é verdade. Mas também é bom que se saiba que é só parte da verdade. Todo dia se mata mulheres, pretos, favelados e LGBTs nesse país. Foi parte disso mas não foi isso e ponto final. Se matam mulheres, pretos, favelados e LGBTs porque na brutalidade cotidiana brasileira é como se esses não valessem nada. Marielle não era isso e seus assassinos assim o sabiam. Esperaram duas horas do lado de fora da reunião onde ela estava antes de a executarem. Os que a mataram, não mataram porque sua vida “não valia nada”, mas porque sua morte valia e muito.

Também se diz que foi morta por ser ativista e defensora dos direitos humanos. E mais uma vez é certo o que se diz mas da mesma forma não foi só isso. O Brasil vem matando líderes comunitários, camponeses, indígenas e quilombolas a torto e a direito desde sempre. Chico Mendes, Zé Maria do Tomé, Dorothy Stang e uma lista sem fim de homens e mulheres. Sua morte também foi parte disso mas também não foi isso e ponto final. Marielle era uma das principais vozes na luta contra a intervenção federal e a violência policial no Rio de Janeiro.

Todas as justificativas até aqui são certas mas ainda assim não são suficientes nem dão conta da gravidade de tão dura morte. Não foi mais do mesmo e se não entendemos isso corremos o risco de sermos arrastados pelo discurso e narrativa dos que nos querem ajoelhados, amedrontados, divididos e, quando não, mortos.

Mataram uma vereadora do PSOL, uma parlamentar da esquerda socialista e isso sim, é novidade. A democracia brasileira sempre foi muito violenta mas jamais tinha feito algo assim. É diferente na democracia mexicana por exemplo, onde se mataram 111 prefeitos nos últimos 12 anos, a imensa maioria executados a sangue frio. É verdade que também aqui em especial nas cidades tomadas pelo tráfico, e ainda que em pequenas proporções se comparado com nossos irmãos mexicanos, há mortes de candidatos e até parlamentares como parte da disputa de poder e território. É o crime matando rivais que se metem na política. Mas não se trata disso. É preciso enxergar que uma linha foi ultrapassada. A morte de Marielle foi uma execução com motivações abertas e descaradamente políticas com imensas possibilidades de ter sido praticada por agentes do Estado.

Até a noite do último dia 14, parlamentares de grandes capitais eram “peixes grandes” demais para serem mortos. Não estamos diante de “somente mais uma” de tantos e tantos dos nossos mortos a anos a fio. Nada disso. Essa foi a primeira. E isso é tão verdade que praças e ruas de todo o país foram ocupados fazendo alguns lembramos até de junho de 2013.

E ou se torna ainda maior e contundente com uma unidade da esquerda socialista e os movimentos organizados a frente, ou, por um lado, ganha a narrativa do combate a violência com o fortalecimento da Intervenção Federal como saída, ou por outro, ganha ares de rotina e depois de Marielles poderão vir Sônias, Marcelos, Renatos e Guilhermes.

Não foi mais do mesmo e não poderá ser respondido como tal. Não é hora para permitir que ganhe peso quaisquer discursos de divisão dos nossos. Não é hora para pedir que se calem os indignados independente de quem sejam ou onde venham. Não é hora de deixar crescer o discurso de “sem partidos” como bem querem alguns. Ousadia e ainda mais coragem para lutar em unidade contra os poderosos que avançam sobre nós.

Para os nossos mortos nenhum minuto de silêncio, mas uma vida inteira de luta. Que essas não sejam palavras vazias.

* Giambatista é militante da Nova Organização Socialista (NOS) e membro do diretório nacional do PSOL

Publicado originalmente no site da NOS

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