A memória e a tradição dos oprimidos

Che Guevara não foi apenas um guerrilheiro heróico, um combatente que deu a vida pela libertação dos povos da América Latina, um dirigente revolucionário que – feito sem precedentes na história – deixou todos os seus cargos para voltar a pegar na espingarda contra o imperialismo. Foi também um pensador, um homem de reflexão, que nunca deixou de ler e de escrever, aproveitando qualquer pausa entre duas batalhas para pegar na caneta e no papel. O seu pensamento torna-o um dos mais importantes renovadores do marxismo na América Latina, talvez o mais importante depois de José Carlos Mariátegui.

Por Michael Löwy, prólogo ao livro de Ernesto Che Guevara: El sujeto y el poder de Néstor Kohan. Publicado originalmente no Dossiê 55 sobre Che Guevara do site www.esquerda.net

Curiosamente, a maioria das biografias do Che recentemente publicadas não dão conta deste aspecto essencial da sua personalidade. Até os autores que manifestam simpatia pela sua figura não entendem ou menosprezam a sua obra marxista. Por exemplo, no belo livro de Paço Ignacio Taibo II, os escritos do Che por ocasião da discussão sobre a lei do valor são postos de lado como “um labirinto de citações” inspirado por um “marxismo bíblico”. Quanto ao jornalista francês Pierre Kalfon, considera o apaixonante ensaio “O Socialismo e o Homem em Cuba” como “um monte de fórmulas”, inspiradas por “um dogmatismo de outras épocas”, quer dizer, pela “logomaquia marxista tradicional”!

Ora se se ignora ou se despreza o pensamento de Che, as suas ideias, os seus valores, a sua teoria revolucionária, o seu marxismo crítico, como se pode entender a coerência da sua vida, os motivos essenciais da sua acção, a inspiração político-moral da sua prática, o fogo sagrado que o movia?

Guevara não chegou ao marxismo pela experiência da própria revolução; pelo contrário, tentou muito cedo decifrar essa revolução recorrendo a referências marxistas, e assim foi o primeiro a captar plenamente o significado histórico-social da revolução cubana, proclamando, em Julho de 1960, que esta “descobriu também, pelos seus próprios métodos, os caminhos que assinalou Marx”. 1 Mas muito antes, em Abril de 1959, ele já previa o rumo que ia tomar o processo cubano, depois da queda da ditadura de Batista: trata-se, dizia o Che numa entrevista com um jornalista chinês, de “um desenvolvimento ininterrupto da revolução”, até abolir “o sistema social existente” e os seus “fundamentos económicos”. 2

De 1959, até à sua morte, o marxismo do Che evoluiu. Ele afasta-se cada vez mais das ilusões iniciais acerca do método soviético de socialismo e do estilo soviético – quer dizer, estalinista – do marxismo. Nos seus escritos percebe-se de maneira cada vez mais explícita, sobretudo a partir de 1963, a busca de um modelo alternativo, a tentativa de formular outra via para o socialismo, diferente dos paradigmas oficiais do “socialismo realmente existente”. O seu assassinato pelos agentes da CIA e os seus sócios bolivianos em Outubro de 1967 vai interromper um processo de maturação política e de desenvolvimento intelectual autónomo. A sua obra não é um sistema fechado, um discurso acabado que tem resposta para tudo. Sobre muitas questões – a democracia na planificação, a luta contra a burocracia – a sua reflexão é incompleta.

O marxismo de Che distingue-se das variantes dominantes na sua época. É um marxismo antidogmático, ético, pluralista, humanista, revolucionário. Alguns exemplos permitem ilustrar estas características.

Antidogmático: Marx, para o Che, não era um Papa favorecido com o dom da infalibilidade. Nas suas “Notas para o estudo da ideologia da Revolução cubana” (1960), ele sublinha: mesmo sendo um gigante do pensamento, o autor de O Capital tinha cometido erros que se podem e devem criticar. Por exemplo, em relação à América Latina, a sua interpretação de Bolívar, ou a análise do México que ele faz com Engels “dando por estabelecidas inclusive certas teorias das raças ou das nacionalidades inadmissíveis hoje”. 3

Mais grave que os erros de Marx são os fenómenos de dogmatização burocrática do marxismo no século XX: em várias ocasiões Guevara queixa-se da “escolástica que travou o desenvolvimento da filosofia marxista” – uma evidente referência ao estalinismo – e que inclusive impediu sistematicamente o estudo do período de construção do socialismo. 4

Ético: A acção revolucionária é inseparável de certos valores éticos. Um dos exemplos é o tratamento aos prisioneiros de uma guerrilha: “Uma clemência o mais absoluta possível com os soldados que vão combater cumprindo, o pensando cumprir, o seu dever militar. (…) Os sobreviventes devem ser deixados em liberdade. Os feridos devem ser cuidados com todos os recursos possíveis”5. Um incidente da batalha de Santa Clara ilustra ocomportamento do Che: a um companheiro que propõe que se execute um tenente do exército feito prisioneiro, o ocmandante Guevara responde: “Pensas que somos como eles?”6

A construção do socialismo é inseparável de certos valores éticos, contrariamente ao que defendem as concepções economicistas – de Estaline a Charles Bettelheim – que só consideram “o desenvolvimento das forças produtivas”. Na famosa entrevista com o jornalista Jean Daniel (Julho de 1963) o Che dizia, no que já era uma crítica implícita ao “socialismo real”: “O socialismo económico sem a moral comunista não me interessa. Lutamos contra a miséria, mas ao mesmo tempo contra a alienação. (…) Se o comunismo passa por alto os factos da consciência, poderá ser um método de repartição, mas já não é uma moral revolucionária”.7

Pluralista: Mesmo que o Che nunca tenha chegado a formular uma concepção acabada da democracia socialista, defendia a liberdade de discussão no campo revolucionário e o respeito à pluralidade de opiniões. O exemplo mais taxativo é a sua resposta – num relatório de 1964 aos seus companheiros do Ministério da Indústria – à crítica de “trotskismo” que lhe lançaram os soviéticos: “A este respeito, creio que ou temos a capacidade de destruir com argumentos a opinião contrária, ou devemos deixá-la expressar-se… Não é possível destruir uma opinião com a força, porque isso bloqueia todo o desenvolvimento livre da inteligência. Também do pensamento de Trotsky podemos tomar uma série de coisas, mesmo se, como penso, se tenha enganado nos seus conceitos fundamentais, e se a sua acção ulterior tenha sido errada…”8

Revolucionário: Durante anos e décadas, o marxismo serviu na América Latina de justificação a uma política reformista de subordinação do movimento operário a uma aliança com a suposta “burguesia nacional”, com vista a uma suposta “revolução democrática”, nacional e antifeudal”. Na sua “Mensagem à Tricontinental” (1966) Guevara cortou o nó górdio que atava os explorados de mãos e pés: “Não há mais mudanças a fazer: ou revolução socialista ou caricatura de revolução”.9

Humanista: A leitura de Max por Che é totalmente diferente da vulgata estruturalista, “anti-humanista teórica”, althusseriana, que tanto se difundiu na América Latina nos anos 60 e 70. A crítica do capitalismo – sociedade na qual “o homem é o lobo do homem” – a reflexão sobre a transição para o socialismo, a utopia comunista de um homem novo: todos os temas centrais da obra marxista do Che têm o seu fundamento no humanismo revolucionário. Na sua conversa com os jovens comunistas em 1962, Guevara insistiu que o revolucionário deve “colocar sempre os grandes problemas da humanidade como problemas próprios”, quer dizer, “sentir-se angustiado quando se assassina um homem em qualquer canto do mundo e para sentir-se entusiasmado quando nalgum canto doo mundo se levanta uma nova bandeira de liberdade”. Mais além dos erros tácticos ou mesmo estratégicos, o compromisso pessoal do Che com a revolução no Congo e na Bolívia, com o risco da sua vida, é a tradução nos factos destas palavras.

O mundo – e a América Latina – mudaram muitíssimo nestes últimos 30 anos. Não se trata de voltar atrás e procurar nos escritos de Che a resposta a todos os nossos problemas actuais. Mas a verdade é que os povos continuam, hoje como ontem, sob o domínio do imperialismo; que o capitalismo, na sua forma neoliberal, continua a produzir os mesmos efeitos: injustiça social, opressão, desemprego, pobreza, mercantilização dos espíritos. Pior: nunca no passado o grande capital financeiro multinacional exerceu um poder tão esmagador sobre o conjunto do planeta. Nunca, como agora, conseguiu o capitalismo afogar todos os sentimentos humanos nas “águas glaciais do cálculo egoísta”. Por isso precisamos, hoje mais do que nunca, do marxismo do Che, de um marxismo antidogmático, ético, pluralista, revolucionário, humanista.

No século XXI, quando já estiverem esquecidos os ideólogos neoliberais que hoje ocupam a cena política e cultural, as novas gerações lembrar-se-ão ainda do Che, do seu combate e das suas ideias.

II

Segundo Walter Benjamin, na sua tese Sobre o Conceito de História (1940), as forças da rebelião dos oprimidos têm as suas raízes na memória dos vencidos, dos ancestrais caídos na luta. A América Latina é um exemplo impressionante desta regra: as revoltas e as insurreições populares durante o século XX e até hoje inspiraram-se nas figuras de José Marti, Emiliano Zapata, Augusto Sandino, Ernesto Che Guevara. Lutadores vencidos, que caíram com as armas nas mãos e se transformaram, para sempre, em grãos de futuro semeados na terra latino-americana, estrelas no céu da esperança popular.

Este livro de Nestor Kohan é muito mais que uma homenagem a Ernesto Guevara: é uma importante contribuição ao debate marxista na América Latina, a partir de uma leitura humanista e revolucionária dos escritos do médico-guerrilheiro argentino. Não se trata de uma obra sistemática, mas sim de uma colecção de ensaios, conferências, entrevistas, que abordam múltiplaos aspectos do pensamento do Che e da sua herança no movimento revolucionário latino-americano (Robi Santucho, Miguel Enríquez). Esta diversidade, esta pluralidade de posições e de temas, é precisamente o que faz o interesse do livro, a sua riqueza, a sua vitalidade.

Ao mesmo tempo, é evidente a unidade, a coerência deste conjunto de trabalhos: todos têm por fio condutor a filosofia da praxis, o marxismo humanista, a perspectiva revolucionário-socialista de Guevara. E em vários discute-se o que é, creio, uma das suas contribuições mais importantes: a formulação de uma via nova para o socialismo, que não seja “decalque e cópia” (para retomar a fórmula de Mariátegui) da experiência soviética. A sua concepção – combatida como “utópica e perigosa” pelo partidário Estaline (e de Althusser) Charles Bettelheim, mas sustentada por Ernest Mandel, o principal teórico e dirigente da Quarta Internacional – acerca da contradição entre o plano e o mercado é inseparável, como muito bem defende Néstor, do seu humanismo teórico, do seu desejo de libertar os indivíduos da alienação e da “jaula invisível” das leis económicas mercantis.

Analisando vários escritos económicos do Che recentemente publicados, e dialogando com Orlando Borrego, Néstor permite-nos conhecer melhor a evolução do seu pensamento nos últimos anos (1964-67), o seu interesse pelas posições da Oposição de Esquerda (Preobrajensky, Trotsky), a sua rejeição dos “Manuais” soviéticos, a sua busca de novas soluções, a sua intuição segundo a qual a URSS ia acabar por restaurar o capitalismo.

No título do seu livro 10, e num dos ensaios, Néstor defende a actualidade das ideias – e do combate – internacionalista radical do Che para o “movimento dos movimentos” nascido em Seattle em 1999: mais além do capitalismo e do brutal domínio imperialista, “um outro mundo é possível”, baseado nos valores da solidariedade, da igualdade e da liberdade que constituem o socialismo.

O que dá todo o valor singular a este livro é a sua maneira de associar o compromisso militante com a herança revolucionária e marxista do Che, e uma reflexão teórica profunda sobre questões como a filosofia da práxis, o conceito de alienação, o estruturalismo, o determinismo, o pós-modernismo.

Podemos criticar uma ou outra formulação de Néstor, ou estar em desacordo com uma ou outra posição – por exemplo, sobre a relação entre democracia e socialismo em Cuba – mas são livros como este que nos ajudam a implementar a tarefa que Walter Benjamin destinava ao pensamento revolucionário: salvar a tradição dos oprimidos do conformismo que tenta apoderar-se dela.

Paris, 6 de Abril de 2005

1“Ao Primeiro Congresso Latino-americano de Juventudes”, discurso de 28 de Julho de 1960, em Ernesto Che Guevara, Obras 1957-1967, La Habana, Casa de las Américas, 1970, vol. 2, p. 392. Citaremos adiante esta edição como Casa.

2 E.Guevara, Selected Works, Cambridge, MIT Press, 1970, p. 372.

3 Casa, vol. 2, p.416.

4Casa, vol. 2, pp. 416, 190. Num discurso de Abril de 1962 sobre Escalante e a sua tentativa de estalinização do partido revolucionário cubano, Guevara sublinha a relação íntima entre afastamento das massas, burocratismo, sectarismo e dogmatismo. Em Ernesto Guevara, Obra revolucionaria, México, Era, 1967, p.333.

5 Che Guevara, “La guerra de guerrillas”, Casa, vol. 1, p. 46.

6 Citado em Paco Ignacio Taibo II, Ernesto Guevara, connu aussi comme le Che, Paris, Payot, 1997, p.299.

7 Em L’Express, 25 de Julho de 1963, p.9.

8 Che Guevara, “Il piano i gli uomini”, Il Manifesto n° 7, deciembre del 1969, p.37.

9 Casa vol. 2, p. 589. É impressionante o paralelo com a tese de José Carlos Maraitegui em 1929: “À América do Norte, plutocrática, imperialista, só é possível opor eficazmente uma América Latina o Ibérica, socialista. (…) O destino destes países, dentro da ordem capitalista, é o de simples colónias”. (J.C.Mariategui, El proletariado y su organización, México, Grijalbo, 1970, pp. 119-121)

10 Na sua primeira edição impressa, este livro apareceu com o título com o título Ernesto Che Guevara: Otro mundo es posible. A esse título faz referência no seu prólogo Michael Löwy. [Nota de N.K.]

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