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O discurso “eu acuso” de Lindbergh Farias

Valerio Arcary

Professor titular aposentado do IFSP. Doutor em História pela USP. Militante trotskista desde a Revolução dos Cravos. Autor de diversos livros, entre eles O Martelo da História.

Por Valério Arcary, colunista do Esquerda Online

Lindbergh Farias fez ontem um discurso intenso no Senado com a forma “eu acuso”, mimetizando o artigo-manifesto de Emile Zola quando do caso Dreyfus na França, o que me pareceu curioso.

Tinha a oportunidade rara de fazer um discurso para a história. Porque o Impeachment de Dilma foi, em sentido histórico, o inverso do impeachment de Collor, e Lindbergh teve um papel chave em 1992.

O triste é que Lindbergh perdeu a oportunidade de estar em 2016 à altura do Lindbergh jovem de 1992.

Para o fazer teria que ter a coragem de acusar, também, Lula e a direção do PT. O desenlace dramático da ruína do governo Dilma não se explica somente pela conspiração de seus inimigos. Isso era previsível.

O pior de tudo foi como a direção do PT, Lula e a própria Dilma foram derrotados sem lutar de verdade.

A derrota sem luta autêntica desmoraliza. Conheci Lindbergh Farias, pessoalmente, no dia 11 de agosto de 1992 quando aconteceu a primeira grande manifestação pelo Fora Collor. Anos depois militamos juntos no PSTU e desenvolvemos uma relação amigável. Sempre o considerei um agitador poderoso, um Saint Just que veio da Paraíba para o Rio de Janeiro.

Em 2001, depois de um debate interno no PSTU em que estivemos juntos na mesma tendência minoritária, ele decidiu romper, e eu decidi respeitar o resultado do Congresso, como já tinha feito em algumas outras ocasiões em que estive em minoria, desde a militância na Convergência Socialista.

Lindbergh resolveu unir-se ao PT, esteve entre os dissidentes que em 2003 ficaram conhecidos como os radicais, mas não avançou até a proposta de fundar o PSOL.

Mas o que quero recordar é que às 8h da manhã daquele dia de agosto de 1992 éramos somente nós dois que tínhamos mais de vinte anos em cima do caminhão de som no vão do MASP. Descendo a Brigadeiro para o centro velho uniu-se a nós a Fafá de Belém que estava em um hotel e se entusiasmou. Veio com vontade de cantar o hino. Naquele dia, dezenas de milhares de estudantes saíram das escolas e faculdades com os rostos pintados. Nas seis semanas seguintes os atos do “Fora Collor” levaram alguns milhões para as ruas como não se via desde as “Diretas já” em 1984.

Ele era presidente da UNE. Eu tinha sido membro da executiva nacional do PT até maio daquele ano. Tinha sido expulso do PT porque a Convergência Socialista foi acusada de desrespeitar a resolução do I congresso Nacional do PT, em dezembro de 1991, quando se votou que a campanha pelo “Fora Collor” era uma “estratégia golpista”. Votou-se que o PT faria uma campanha para desgastar Collor, mas respeitaria o mandato até o final, para não dar à direita pretexto algum para tentar derrubar um governo Lula que se considerava iminente. Presumia-se que Lula seria eleito em 1994.

A ironia da história foi que Lula perdeu a eleição de 1994 e de 1998, venceu somente em 2002, dez anos depois do “Fora Collor”, o PT governou por treze anos, mas o impeachment acabou chegando.

Lindbergh fez ontem um discurso emocionante, porém, escolheu o caminho mais fácil. Isso nunca é o melhor.

Acusou aqueles que todos já sabemos que estão envolvidos na manobra parlamentar, na conspiração política, na farsa jurídica: Cunha, Temer, Aécio, o PSDB, a burguesia, a mídia e a Rede Globo.

Eles todos merecem mesmo ser acusados. Lindbergh esqueceu de explicar como este bloco politico reacionário conseguiu vencer. Porque não deveria surpreender ninguém que eles conspirem.

As perguntas importantes são:
Governos de coalizão liderados por Lula e Dilma governam desde 2003 e só agora a classe dominante decidiu romper e derrubá-lo. O capitalismo brasileiro passou mais de uma década em lua de mel com o PT. Por quê? A campanha que levou algumas centenas de milhares das camadas médias exaltadas às ruas desde março de 2015 só conseguiu apoio da imensa maioria da classe dominante no início deste ano. Por quê? Não será porque, até a demissão de Joaquim Levy, a maioria da burguesia apostava que o governo Dilma seria capaz de fazer o ajuste que agora exige de Temer?

Não foi Lula quem primeiro defendeu a indicação de Henrique Meirelles para ministro da Fazenda?
As resposta são incômodas. Por isso, Lindbergh foge delas. Porque sabe muito bem que o PT só dissimulou que estava disposto a lutar contra o impeachment. Porque sabe que Lula declarou no ato mais importante, na Avenida Paulista, diante de 80.000 ativistas que quem tomava a palavra era o “Lulinha paz e amor”. Porque sabe que o PT sabotou a proposta de um plebiscito por eleições gerais. Porque sabe que o PT participa de coligações em centenas de municipíos com o PMDB de Temer e Renan Calheiros, o PSDB de Aécio Neves, e outros.

O tema do discurso é curioso por outra razão. O caso Dreyfus foi uma manifestação do crescimento do antissemitismo, o racismo contra os cidadãos de origem judaica.Tratava-se de uma injusta acusação de traição orquestrada contra o oficial do exército francês de origem judaica Alfred Dreyfus. Ele foi acusado de espionagem – a entrega de planos de defesa – ao serviço da Alemanha por um tribunal militar do país. Dreyfus sofreu um processo fraudulento, de portas fechadas. Dreyfus foi condenado à prisão perpétua e exilado para a Ilha do Diabo, na Guiana Francesa.

Não fosse isso o bastante Zola foi, também, processado e condenado. Fugiu da França, refugiou-se na Inglaterra e só anos depois retornou, quando anistiado. O caso Dreyfus dividiu a sociedade francesa. De um lado estavam o governo reacionário, os partidos conservadores, o exército nacionalista e a Igreja. De outro lado republicanos liberais, socialistas e anticlericais. 

O caso Dreyfus provocou uma divisão na Segunda Internacional.
Prevendo que poderia ocorrer um golpe de Estado patrocinado pela hierarquia militar apoiada nos partidos burgueses nacionalistas, a maioria da direção do Partido Socialista defendeu a participação do PS em um governo de coalizão, e Millerand, um de seus líderes, aceitou ser ministro.
A imensa maioria da II Internacional condenou esta participação em um governo de colaboração de classes. Millerand rompeu anos depois com o socialismo, e foi eleito presidente da República.
Zola entrou para a história pela coragem de seu texto.
Lindbergh foi leal até aqui ao PT, Lula e Dilma, o que é um pouco decepcionante.

Porque não se pode ser leal a eles e, ao mesmo tempo, à classe trabalhadora.
Mas ainda há tempo.
Lindbergh já provou no passado que não lhe falta coragem.

É hora de dar um passo em frente.

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