O Queermuseu e o Fascismo em Porto Alegre

Por: Raquel Barros da Fonseca, de Porto Alegre, RS

O museu Santander iniciou em 15 de agosto uma exposição chamada “Queermuseu – Cartografias da diferença na Arte Brasileira”, com a curadoria de Gaudêncio Fidelis. A exposição ficaria em cartaz até 8 de outubro. No entanto, o museu emitiu uma nota neste domingo (10) sobre o fechamento da exposição, afirmando: “Desta vez, no entanto, ouvimos as manifestações e entendemos que algumas das obras da exposição Queermuseu desrespeitavam símbolos, crenças e pessoas, o que não está em linha com a nossa visão de mundo”.

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Breve retrospectiva
A exposição foi uma seleção de 270 obras de arte que tratavam da perspectiva de gênero ou diferença de diversas formas e narrativas. Essa seleção é assinada por 85 artistas diferentes, dentre eles Cândido Portinari, por exemplo. As artes variavam entre leituras leves sobre o tema e outras mais explícitas e chocantes para quem não está habituado com exposições artísticas. Junto à exposição, ocorria uma amostra de cinema espanhol no museu com filmes de Pedro Almodóvar, cineasta reconhecido mundialmente por obras primas como “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela”, “Má educação”, entre outras, que aborda questões de gênero e sexualidade. Essa amostra de cinema também foi cancelada por estar associada com a exposição.

Percorrendo pelas redes sociais é possível rapidamente perceber que um dos vídeos de “denúncia” sobre a exposição foi realizado por um grupo chamado “Terça Livre”, que em sua descrição no canal youtube afirma que “promove a boa cultura por meio de vídeos educacionais, políticos e sobre temas relevantes que a mídia esconde, ou, é por ela transmitida por interesses partidários”. Esse vídeo foi usado como exemplo de denúncia pela Folha de SP. Não precisamos ir muito longe, podemos afirmar que se trata de mais um grupo fascista na capital gaúcha.

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Existem várias denúncias no facebook referentes aos ataques que o MBL promoveu dentro dessa exposição. Existem relatos de pessoas sendo atacadas por pessoas com câmeras na mão ao saírem ou entrarem na exposição, sendo chamadas de pedófilos, zoofilitas, entre outros. É o modus operandi do MBL gaúcho: desde as ocupações universitárias do ano passado eles têm atacado a militância de esquerda geralmente dessa forma. Sempre com câmeras em punho, os agressores esperam serem contra-atacados por alguém para depois alegarem legítima defesa. Uma das exceções do grupo, que permanece sendo seu líder, é Felipe Diehl, que ano passado foi de arma em punho (mas sem câmera na mão) para o Campus do Vale na Universidade Federal do Rio Grande do Sul para ameaçar os estudantes e exigir o fim da greve e ocupação, e foi expulso pelos gritos da juventude universitária presente.

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É espúria a atuação do grupo na capital gaúcha. E hoje o grupo tem pleno apoio do prefeito da cidade, Nelson Marchezan (PSDB), que fez um post celebrando o fim da exposição, porém já o deletou de suas redes sociais.

No entanto, como é de se esperar da capital gaúcha, existe um número significativo de pessoas de esquerda que se colocam a favor do fim da exposição. Os argumentos da intelligentsia porto alegrense variam do “eu não apoio banco privado” para a denúncia de uma obra específica da exposição que envolve zoofilia e o suposto estupro de um homem negro (coloco “suposto” porque não entrei em contato com o artista da obra, nem vi a arte de perto para saber sua descrição, portanto não posso afirmar com certeza se trata de um retrato de estupro ou não).

Estamos em setembro de 2017, perdemos todas as batalhas com relação à salvaguarda da democracia e dos direitos de minorias de 2013 até aqui. Estamos assistindo ao governo golpista vender a Amazônia sem sequer prévio conhecimento do povo. Assistimos ao prefeito da nossa cidade em reunião exclusiva e fechada com o MBL (apartidário, claro). E ainda como se não bastasse os Quatro Cavaleiros do Apocalipse da Direita Fascista trotando em cima da gente, precisamos lutar contra o fascismo que nasce entre nossos companheiros ou aliados.

É impressionante ter que fazer um texto sobre isso, mas me sinto obrigada: muito cuidado ao explanar opiniões e argumentos que facilitam a atuação de fascistas. É completamente plausível argumentar contra qualquer obra de arte. Mas há uma diferença entre ser contra, e argumentar abertamente sobre isso, e fechar uma exposição inteira. No caso da pintura que mais gerou controvérsia na esquerda, a da zoofilia e estupro do homem negro, que fizessem inúmeros posts diferentes expondo o racismo da obra. Nossa cidade foi privada de toda uma exposição, de mais de 270 obras de 87 artistas diferentes, mais uma coleção de filmes do Almodóvar, que é talvez um dos únicos cineastas do mundo que tem a coragem de realizar filmes com temáticas de gênero e sexualidade com narrativas impactantes.

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A esquerda não pode sob hipótese alguma ter qualquer postura que dê biscoito para fascista. Fascismo é fascismo, não existe meio termo nisso, nem que esse meio termo seja “não gosto de banco privado”. Ninguém aqui gosta de banco, mas no momento que existe uma exposição desse tamanho e é fechada porque o MBL assediou todo mundo, nós enquanto esquerda não podemos ter uma postura de “nossa, tinha que fechar mesmo”. A questão não é salvar o banco privado, é parar de dar forças para os grupos fascistas que não param de crescer na nossa cidade.

Não caio no discurso unitário da esquerda, porque sei que ele não existe. Somos diversos, e acredito que apesar das mazelas nossa força reside justamente no fato de sermos diferentes. Mas que a nossa diferença não se traduza em alavanca para o fascismo.

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