Primárias argentinas: uma primeira análise

Por: Renato Fernandes, de Campinas, SP

Nesta terça-feira (15), o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, fez uma visita à Argentina. Em um dos seus discursos, na Bolsa de Valores, parabenizou “as reformas políticas e econômicas” do governo neoliberal do presidente Mauricio Macri  e disse que o “modelo da Argentina é o futuro” de toda a América Latina.

Essa visita, para Macri, aconteceu numa boa hora: nas primárias disputadas no último domingo, 13, a coalizão Cambiemos do presidente ganhou em 12 das 24 províncias do país. Os emblemas dessas primárias foram a vitória do ministro da educação Esteban Bullrich (34,19%) nas eleições para o senado sobre a ex-presidenta Cristina Kirchner (34,11%) na província de Buenos Aires e a ampla vitória da lista ligada a Cambiemos e encabeçada por Lilita Carrió na capital Buenos Aires com 49,55% frente a lista de Union Porteña (peronistas ligados a Cristina) com 20,73%.

Dois elementos são centrais para compreendermos as primárias e também o entusiasmo de Pence com a Argentina. O primeiro, e mais importante, é que o giro neoliberal no campo eleitoral parece se consolidar na Argentina e fortalece as frações políticas burguesas que defendem as políticas de austeridade e de retirada de direitos como a contrarreforma trabalhista que já está sendo discutida no país. Esse fortalecimento é regional: Temer no Brasil, a direita venezuelana, entre outras frações políticas que são expressão concreta deste giro nos governos latino-americanos. É justamente o fortalecimento desta fração política que tanto entusiasma Pence e setores da burguesia imperialista.

O segundo elemento é que o peronismo está dividido e sem uma liderança capaz de unificá-los. Essa divisão não é de agora, porém se aprofundou nos governos Kirchner (2003-2015). Na maior parte das províncias, a maioria da população votou nos setores peronistas: a Unidade Ciudadana (Kirchner), 1País (Sergio Massa) e do Partido Justicialista (Florencio Randazzo) ganhariam as eleições. Apesar da vitória nacional de Cambiemos, a projeção realizada a partir das primárias é que a lista oficialista consiga 104 deputados enquanto o peronismo unificado conseguirá 137 do total de 257.

É por isso que todos os setores da oposição, incluindo o peronismo, farão campanha com a ideia de que a maioria da população argentina votou contra “o governo e a austeridade”. É importante ressaltar que os setores peronistas, em determinado sentido, foram vítimas das suas próprias políticas. Tanto na Câmara de Deputados, quanto no Senado são os setores peronistas que estão garantindo a aprovação das principais medidas do governo de Macri. Esse apoio velado em nome da governabilidade do país parece ter sido castigado nas urnas e fortalecido ainda mais a coalização governamental. Porém, isso ainda são as primárias e até outubro, data das eleições oficiais, ainda tem muita coisa para acontecer.

As eleições na esquerda socialista
É neste marco do fortalecimento da fração política governamental e da divisão do peronismo que devemos localizar os resultados da esquerda socialista e radical: de um lado a Frente de Izquierda y de los Trabajadores (FIT), composta pelo Partido Obrero (PO), o Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS) e a Izquierda Socialista (IS) e do outro lado, a Izquierda al Frente por el Socialismo (IAF), composta pelo Nuevo MAS e o Movimiento Socialista de los Trabajadores (MST).

A FIT obteve quase 1 milhão de votos em todo o país, crescendo 30% em relação a PASO de 2015. Ao todo a FIT ou seus partidos componentes se apresentaram em 22 províncias, conseguindo em 21 dessas passar o piso proscritivo de 1,5%. Em algumas delas, como Jujuy, obteve 12,55% na lista de deputados, duplicando os resultados obtidos em 2015. Na província de Santa Cruz, governada por Alicia Kirchner, cunhada de Cristina, a FIT obteve 8,25%, colocando-se como terceira força política da província. Em Córdoba, a FIT conseguiu 4,32%, enquanto em Neuquén obteve 6,7%.

Em Buenos Aires, os números da FIT foram mais baixos e muito próximos para garantir, se repetirem a votação em outubro, um deputado para a FIT: 3,62% na província e 3,79% na capital. Apesar deste crescimento na votação, que é importante, as projeções para a FIT não são das melhores: ao contrário do anunciado no início das eleições, a projeção atual é que a FIT consiga apenas um deputado, mantendo o mesmo número no parlamento – caso não consiga aumentar as votações entre as primárias e a eleição oficial.

A IAF não teve o mesmo sucesso da FIT, apesar de que devemos considerar que houve um crescimento da votação dos dois partidos que compõem a frente: comparando com 2015, no qual os dois estavam separados, subiu a votação de quase 200 mil para quase 300 mil votos nacionais. No total, foram 12 províncias em que conseguiram passar o piso proscritivos se considerarmos todas as regiões nas quais a IAF ou um de seus partidos componentes participaram (sendo que na província de Santa Fé, o MST compôs a Frente Social y Popular com organizações neorreformistas).

O principal revés da IAF aconteceu em Buenos Aires: na província, Manuela Castañera ficou com  1,14%, enquanto na capital Alejandro Bodart conseguiu quase 1% não conseguindo ultrapassar o piso proscritivo. Uma das razões dessas derrotas no terreno eleitoral está na hegemonia da FIT, que está muito mais consolidada e também a novidade que é a IAF. No entanto, algumas derrotas têm explicações particulares, como a votação em outras listas de esquerda, como a encabeçada por Luis Zamora de Autodeterminación y Libertad (AyL) que disputou na capital em Buenos Aires tendo obtido 3,69%, superando a PASO e capturando votos da esquerda socialista e radical.

Uma primeira conclusão a se tirar é que o espaço da esquerda radical e socialista em todo país é expressivo, dado que esse espaço é ocupado por organizações que se reivindicam trotskistas. É nesse sentido que, com mais força que antes, as eleições primárias demonstraram a necessidade de maior unidade entre essa esquerda socialista e radical. A unidade de forças entre FIT e IAF poderia significar muito mais do que os quase 1,3 milhões de votos que conseguiram separadas – esse índice é de aproximadamente 5,4% do eleitorado que participou da PASO (pouco mais de 24 milhões).

Poderiam ser uma alternativa política eleitoral para o país neste momento em que, apesar de reforçada, a direita neoliberal não detém a maioria do país e  o peronismo está dividido. Essa unidade, que para nós deve ir para além das eleições e se expressar em outras lutas políticas e sindicais, seria um grande passo em frente num momento que o imperialismo busca avançar ainda mais sobre nossas economias como declarou abertamente Mike Pence. Além disso, essa unidade mais ampla seria um grande exemplo para esquerda socialista e radical internacional que tem suas esperanças jogadas neste espaço construído e conquistado pela esquerda argentina.

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