Primeiras reflexões sobre o Dia Nacional de Greves e Paralisações

EDITORIAL 30 DE JUNHO |

A esta altura, na maioria das cidades, já estão chegando ao fim os atos de rua e as atividades de mobilização construídas ao longo deste último mês e que culminaram no dia de hoje. O balanço mais preciso deve ser feito, claro, em base aos números concretos que forem apurados pelos movimentos sociais. Os trabalhadores precisam contabilizar suas forças com exatidão, para sabermos exatamente em que ponto estamos.

Ao que tudo indica, hoje foi um importante dia de lutas, greves, paralisações, cortes de vias e ocupação de espaços públicos. As mobilizações chegaram a cerca de 100 cidades. Mas não foi uma Greve Geral. Apesar da crise política e econômica ficar mais e mais aguda a cada dia, isso não resultou ainda em explosão social. Em algumas cidades, principalmente aquelas onde o transporte público foi paralisado, o clima foi semelhante a greve geral como Brasília, Recife, Aracaju, Belém e Fortaleza. Mas em geral, o que primou foram as paralisações de categorias específicas, já com maior tradição de mobilização. O dia 30 ficou bastante aquém do que havia sido o dia 28 de abril, quando um clima de Greve Geral realmente tomou conta do país.

Por que isso aconteceu?
É verdade que a agitação na base das categorias enfrentou uma dificuldade maior do que foi quando da preparação do dia 28 de abril. O clima já não era o mesmo. Este é um fato inegável. Mas é preciso perguntar por que foi assim. O dia 28 de abril foi uma enorme vitória. Os trabalhadores saíram muito dispostos a uma nova Greve Geral. Mas nem bem descansávamos dos piquetes, as centrais sindicais ligadas ao governo Temer, como a Força Sindical e a UGT, já começaram a negociar pelas costas de suas bases com o governo: estavam dispostos a desistir de uma nova Greve Geral em troca da manutenção do imposto sindical, que assegura o reinado inquestionável das burocracias sindicais, independente do que acontece na base. E assim foi feito. Faz quase dois meses que essas direções não fazem outra coisa além de desmobilizar: mantiveram a Marcha a Brasília no dia 24 de maio porque ficava feio desmarcar. Mas o fizeram de má vontade. E depois que passou a Batalha de Brasília, não pararam de desmobilizar e confundir os trabalhadores, primeiro questionando e jogando com as datas. Depois, quando já havia se instalado uma enorme incerteza sobre a possibilidade da Greve Geral, mudaram o nome do dia. A necessária Greve Geral virou “Vamos parar o Brasil”. Para bom entendedor, meia palavra basta. E os trabalhadores são bons entendedores. Perceberam que suas direções estavam recuando. O dia 30 perdeu credibilidade na base e o trabalho de mobilizações ficou mais difícil. Infelizmente, a CUT e CTB fizeram muito pouco para denunciar a traição da Força Sindical e da UGT.

As direções alternativas
As direções alternativas, como a CSP-Conlutas, a Intersindical e mesmo o MTST lutaram muito e lutaram bravamente, mas suas forças são minoritárias. Mas para uma Greve Geral, é preciso mais. Na atual correlação de forças, em que não existem sinais de rebelião de base, a Greve Geral pressupõe uma unidade muito importante de todas as organizações da classe trabalhadora. Foi essa unidade que a Força Sindical e a UGT romperam, e que a CUT e a CTB não lutaram para restabelecer.

Era possível uma nova Greve Geral!
A mais importante conclusão que devemos tirar desse dia 30 de junho é: era possível uma Greve Geral que encostasse Temer na parede! A denúncia implacável da postura da Força e da UGT por parte da CUT e CTB poderia forçar essas direções e a se reposicionarem novamente e construir de fato a Greve Geral. Além disso, é preciso lembrar que a CUT e CTB não são centrais secundárias, a CUT é maior central sindical do país, se todas as suas forças estivessem realmente engajadas na construção de uma greve geral o resultado seria bem diferente. Se isso acontecesse, os trabalhadores sentiriam confiança em suas forças e o clima do dia 28 de abril poderia se repetir ou mesmo ser superado, já que a crise política se agravou enormemente nas últimas semanas. Mas as maiores centrais do país preferiram fazer o cálculo financeiro e político e preferiram deixar passar esta enorme oportunidade. Agitar que hoje foi um dia de greve geral é absolver a burocracia deste lamentável balanço.

A repressão avança
O dia 30 nos trouxe também novidades negativas. Não bastasse a furiosa repressão de rua de sempre, desta vez as Polícias Militares resolveram inovar: decidiram prender sindicalistas e ativistas dos movimentos sociais, inclusive depois de encerrados alguns atos e atividades, como ocorreu em Porto Alegre, onde Altemir Cozer, conhecido dirigente sindical do MAIS da categoria dos professores foi preso já depois de encerrado o piquete na frente da Carris, a principal empresa de ônibus de Porto Alegre. Ocorreram prisões ainda em São José dos Campos, Porto Velho, Rio de Janeiro, Fortaleza e São Paulo. Em Nova Iguaçu, algo simplesmente surreal: a PM invadiu, no melhor estilo Ditadura Militar, o Sindicato dos Comerciários para tentar impedir uma ação totalmente legal que estava sendo organizada pela categoria.

Ainda é possível!
Ainda é possível derrubar Temer e barrar definitivamente todas as contrarreformas! Mas para isso, as centrais sindicais precisam mudar de postura. Força e UGT precisam romper seus acordos com o governo e voltar para a luta. CUT e CTB precisam se colocar à frente deste processo, com toda a organização, recursos e influência que possuem. Ainda é possível! Os atos e paralisações mostraram que há disposição de luta por parte dos trabalhadores. A indignação precisa ser incentivada e organizada. Precisa encontrar uma saída, uma alternativa. Do contrário, pode virar apatia. É com isso que o governo conta. Nós contamos que é preciso e possível virar o jogo!

Foto: Mídia Ninja

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