Trump anuncia a retirada dos EUA do Acordo de Paris sobre o Clima

Por: Davide Santo, do Movimento Alternativa Socialista (MAS), de Portugal, Lisboa

Era um acordo de cavalheiros. Depois do fracasso do Protocolo de Quioto negociado em 1997, a Conferência do Clima de Paris de novembro 2015 era mais uma tentativa de minimizar os efeitos do aquecimento global.

As metas são pouco ambiciosas e não vinculativas. Barack Obama sabia que se Paris fosse um tratado internacional e não um mero acordo, a maioria republicana no congresso não o ratificaria tal como aconteceu com Quioto.

Os Estados-Unidos são, pois, uma das poucas nações onde a realidade do aquecimento global ainda é debatida, mercê do lobby das empresas petrolíferas e das empresas carboníferas ainda sobreviventes. Mesmo a própria administração Trump parece dividida sobre esta questão com Steve Bannon, um negacionista do aquecimento global, antropogênico, e Rex Tillerson e Ivanka, aparentemente favoráveis ao Acordo de Paris, o que espelha bem o caos e divisão que reina na Casa Branca.

O Acordo de Paris pretendia limitar o aumento da temperatura global abaixo dos 2º centígrados, estabelecendo um mecanismo de revisão em que de cinco em cinco anos reavaliaria os compromissos de redução de gases de estufa, sempre voluntários, de cada país.

Além disso, uma ajuda financeira na ordem dos 3 mil milhões seria fornecida, através de um “Green climate fund”, às nações pobres para ajudá-las a lidar com as mudanças climáticas. Este é, pois, não um acordo com medidas concretas, assertivas e urgentes, mas sim uma declaração de intenções. E de boas intenções está o inferno cheio, especialmente este em que estamos lentamente a arder: secas, tempestades, incêndios, cheias, subidas do nível do Mar, fomes e cerca de 100 milhões de pessoas no hemisfério Sul que poderão ser atiradas para a pobreza nos próximos quinze anos, segundo números do Banco Mundial.

O discurso de Trump

Mesmo esta tímida tentativa de minimizar os efeitos das emissões de gases de estufa é posta em causa pelo atual inquilino da Casa Branca. Numa conferência de imprensa, que seria uma obra prima da comédia, se fosse ficção, anunciou a retirada dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, comprometendo seriamente o objectivo estabelecido. Os Estados Unidos tinham se comprometido em reduzir suas emissões de 26% a 28% abaixo dos níveis de 2005.

Os Estados Unidos são atualmente responsáveis por mais de 22% das emissões de dióxido de carbono e o maior emissor per capita de todas as nações o que implicaria que sem o esforço americano de redução da poluição atmosférica 0,3 graus dos 2 acordados como limite ficariam já comprometidos.

Populista como sempre, Trump retomou uma das suas promessas de campanha, de recriar postos de trabalho na extração de carvão, uma indústria que o gás natural já tinha tornado obsoleta muito antes da exploração em massa de energia solar e eólica. É um discurso que fala para suas famigeradas bases, as populações dos Estados economicamente deprimidas da chamada cintura de ferrugem, acenando com a possibilidade de um regresso de um tipo de indústrias que há muito tempo deixou aquele território.

Neste momento, mais de 370 mil pessoas trabalham no sector da energia solar, o dobro dos que trabalham no carvão. Foi também um discurso profundamente paranoico que acusa o acordo de ser um embuste, um instrumento de guerra econômica contra os Estados-Unidos e de extorsão de fundos americanos, quando na verdade a burguesia americana se conta entre aqueles que mais exploram e contribuem para a degradação da ecosfera. Das sementes transgênicas da Monsanto à maré negra do Golfo do México, passando pelo lixo eletrônico largado em lixeiras a céu aberto em vários países africanos e asiáticos, entre outros crimes ambientais, a dívida ecológica americana é avassaladora.

Retirada do acordo, protecionismo e ordem mundial
Algumas questões também se levantam com este rasgar do acordo, no que a ordem política mundial diz respeito. Este isolamento auto-imposto dos Estados-Unidos em questões ambientais revela ser mais um sintoma da perda de poderio e protagonismo do imperialismo americano.

A decisão de Trump é coerente com a ideologia protecionista que ele vem anunciando desde a sua campanha eleitoral e satisfará uma parte da burguesia americana, como os Irmãos Koch[i], que vê qualquer tipo de regulamentação ambiental como um entrave ao lucro. Por outro lado, multinacionais do sector das tecnologias da informação e das energias renováveis como a Microsoft, a Google, a Tesla, a Shell e a Disney criticaram veementemente esta decisão que cria assim profundas divisões na própria burguesia americana.

No fim, a China poderá ser um dos grandes beneficiários da decisão de Trump. Depois do Acordo de Paris, já anunciara o cancelamento da construção de uma centena de centrais de carvão e decidiu investir 361 mil milhões de dólares em energias renováveis até 2020. A China é já hoje o maior produtor mundial de painéis solares, um título que já pertenceu em tempos aos Estados-Unidos.

Uma improvável aliança parece ter-se formado, nesta questão, entre as maiores economias da Zona Euro, – a Alemanha, a Itália e a França – e a China. Temos Macron na televisão a convidar cientistas e engenheiros americanos a vir trabalhar para a França, e onde estes irão, obviamente, o investimento em tecnologia também seguirão. Temos ainda a possibilidade de uma “taxa de carbono” sobre as exportações americanas a ser sugerida pelo governo mexicano. Será que estamos perante o princípio de uma guerra comercial, aquela mesma que Trump ameaçava começar? Se a primeira declaração de guerra é, pela boca de Trump, a retirada dos Estados-Unidos do Acordo de Paris, o primeiro tiro poderá não ser o seu, já que neste momento ele encontra-se completamente isolado.

Os negócios se sobrepõem a qualquer regulamentação: é preciso se opor
Durante anos, alguns sectores da burguesia americana lançaram a desinformação, a suspeita sobre a realidade do aquecimento global para proteger os seus negócios. O resultado está à vista: uma grande parte da população elegeu um magnata da construção civil com um discurso anti-intelectual, com promessas vãs de recuperar empregos graças ao desmantelamento de regulamentação ambiental. E agora mesmo o muito insuficiente Acordo de Paris é posto em causa pela maior potência industrial do mundo.

Até que ponto os objetivos deste acordo podem estar comprometidos, tanto em graus Celsius como no empenho dos signatários, está ainda por determinar. Mas uma coisa é certa: enquanto formos dominados por uma classe privilegiada, para a qual os negócios se devem sobrepor ao clima, este problema tenderá a agravar-se. É isto que o capitalismo tem para nos oferecer: destruição climática, muros, exploração, opressão e miséria.

 

[i] Nota da publicação: Segundo artigo da revista Carta Capital: “Os irmãos Charles e David Koch são sócios e possuem, segundo a Forbes, 42,9 bilhões de dólares cada um e estão em sexto e sétimo lugar em sua última lista de bilionários. Há ainda Bill Koch, o caçula, brigado com os irmãos e com um império independente de “apenas” 2,8 bilhões (o número 603 da Forbes), mas também financiador ativo de políticos conservadores e o primogênito Frederick Koch, mais interessado em coleções de arte, teatro e cinema do que nos negócios da família. São todos filhos de Fred Chase Koch (1900-1967), empresário do petróleo, admirador de Benito Mussolini e um dos fundadores em 1958 da ultradireitista John Birch Society, cuja sede foi estabelecida ao lado do túmulo do paranoico senador anticomunista Joseph McCarthy e foi notória pelo combate à lei dos direitos civis promovida pelo presidente Lyndon Johnson nos anos 1960.

Suas fortunas, somadas, superam folgadamente as de Bill Gates, Carlos Slim ou Warren Buffet, os primeiros colocados. Seu grupo Koch Industries é a segunda maior empresa de capital fechado dos EUA, depois de Cargill. Possui refinarias em vários estados, seis mil quilômetros de oleodutos, madeireiras, indústrias de papel e celulose e a Invista, ex-divisão de fibras têxteis da DuPont dona de marcas como Lycra e Cordura.

É cada vez mais notório o apoio de irmãos Koch a campanhas e institutos conservadores e libertarians por meio de várias organizações por eles financiadas, incluindo Americans for Prosperity e o Cato Institute. Documentos obtidos pelo Greenpeace através do Freedom of Information Act revelaram que a Charles G. Koch Charitable Foundation, organização para financiar programas de ensino e pesquisa, fez doações para Wei-Hock Soon do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics, um dos raros cientistas a insistir em que a mudança climática é um fenômeno natural, não causada por atividades humanas. Outro tema caro aos Koch é o do armamentismo. Doam milhões à National Rifle Association (NRA) e outros lobbies que combatem restrições à posse e porte de armas nos EUA, que retribuem fazendo campanha a políticos conservadores do agrado dos irmãos.

Os Koch organizam reuniões periódicas com líderes republicanos e comunicadores ligados ao Tea Party, como Glenn Beck e o senador republicano Mitch McConnell.”

 

 

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