OPINIÃO | Já não deu certo

Por: Evila Almeida, da comunicação do Instituto Marx e Engels

Sempre tive exemplos próximos do que é garra diante de dificuldades diversas, sorriso no rosto e muita sabedoria. Mesmo em um trabalho que não valorize suas forças, minha mãe é uma pessoa muito forte, trabalhou e trabalha diversas vezes como empregada domiciliar. Não uso o termo doméstica porque me remete a limitação e obediência, submissão mesmo. E tantas outras pessoas tenho como exemplos próximos. Tias, avós, amigos da construção civil, e outros. E se tem uma coisa que esse povo me ensina é a respeitar todas as profissões e saber que ter o alimento e as contas pagas é se sentir digno. A mesmo com muita dificuldade, conseguir tomar aquela cerveja no final de semana e seguir, mesmo com um governo e patrões que não respeitam setores profissionais.

Maio de 2017. O Colégio Marista Champagnat e o Instituto Evangélico de Novo Hamburgo (IENH) ficaram conhecidos por terem promovido a atividade recreativa “Se nada der certo” entre suas turmas do 3° ano. A atividade, que aconteceu no mesmo mês deste ano, no IENH e em 2015 no Marista, é como uma festa à fantasia dos horrores e falta de respeito. Os alunos se vestem com fardamentos de dito subempregos, aqueles que não exigem diploma, dizendo que se a vida acadêmica não der certo eles podem recorrer a esses trabalhos para se manterem, passando a ideia de que quem não conseguiu estudar e fazer uma faculdade não deu certo na vida.

A escola que deveria ser lugar de ensinar que o diferente é bem vindo e que respeitar a todos é a lei número um, está se tornando um espaço de segregação e julgamentos errados, opressão e reforço ao comportamento elitista branco, reforçando o racismo. Os pais têm uma responsabilidade muito importante com essa juventude, mas ao invés disso, andam de mãos dadas com essas escolas e enaltecem todos esses preconceitos de classe, gênero e raça.

As bases de tudo que há em pé nesse país são construídas pelas mãos de todos esses trabalhadores e trabalhadoras, são essas pessoas que fecham, abrem, limpam, compram, vendem, trocam, estocam, transportam, plantam e tudo o mais que os nossos olhos alcançarem e a nossa mente imaginar. Imaginem ó o caos que seria se todas essas pessoas simplesmente resolvessem se permitir fazer alguma outra coisa que não seja trabalhar.

Essa segunda escola que promoveu esse momento de desrespeito ao trabalhador tem orientação evangélica. Esquece que, segundo o evangelho, Jesus era carpinteiro e essa profissão não exige diploma. Segundo o evangelho, ele não deu certo?

Por fim, deixo aqui a minha alegria particular, porque sei que tem uma outra parcela (e grande) de juventude, que milita e se indigna, que luta para que essas diferenças sejam sanadas, ou no mínimo diminuídas, que celebra o respeito acima de tudo, ao amor ao trabalho e à força do povo brasileiro que mais sofre. Que continuemos assim, tendo a possibilidade de lutar a favor de quem não pode gritar. Sermos a voz.

 

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