Philippe Poutou: ‘As eleições não mudam a vida, são necessárias lutas sociais’

Por: Editorial Internacional

Philippe Poutou, operário da Ford de Blanquefort, é o candidato do Novo Partido Anticapitalista (NPA) na França. Militante sindical, representante da CGT em sua região, iniciou sua militância no movimento estudantil nos anos 1980. Militou por dois anos no Lutte Ouvrière (Luta Operária), entre 1995-97, e somente em 2000 entrou na Liga Comunista Revolucionária (LCR), organização trotskista predecessora do NPA. Ele disputa as eleições pela segunda vez – em 2012 teve 1,15% dos votos (411 mil votos).

Poutou estava passando desapercebido, boicotado pela mídia, porém depois do debate na televisão, no último 4 de abril, com a presença dos 11 candidatos presidenciais, sua candidatura conseguiu um maior espaço de divulgação. Principalmente por suas tiradas contra Marine Le Pen, candidata da extrema direita, e François Fillon, candidato da direita conservadora.

Divulgamos, abaixo, entrevista realizada por Aurélie Delmas e publicada no jornal Libération no último dia 13.
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Liberation: Você teve 1,15% dos votos em 2012. Você não tem a intenção de tornar-se chefe de Estado e quer mesmo suprimir a presidência da República. Por que você é candidato?

Não é porque você não está de acordo com o funcionamento da sociedade que não deve estar ali quando há um compromisso político. Pois há um fracasso total de todas as ideias e de todas as políticas liberais, com as quais nós temos um profundo desacordo, e consideramos legítimo que outras ideias sejam defendidas. Nós desejamos que as pessoas façam a política por elas mesmas, que elas tenham confiança na sua força coletiva. A história mostra: sem luta social, sem intervenção da população, sem relação de forças entre os campos sociais, nada muda de verdade. A imagem é a de “retomar as ruas”, mas é necessário também retomar o controle sobre a economia e, portanto, das empresas e dos bancos. Não há nenhuma razão de submeter-se e calar-se. Por que a redução do tempo de trabalho e a proibição das demissões estariam fora do debate? Isso é tão importante quanto o resto! Nós temos todas as razões para participar e para defender uma outra maneira de enxergar a sociedade.

Liberation: Você marcou o debate, o New York Times chegou a escrever que você “explodiu a bolha política francesa”. Você conseguiu ser escutado?

É fabuloso, mesmo em relação ao fim da campanha de 2012, quando nós pudemos ser um pouco escutados. Eu vi que há hostilidade e raiva nos tweets. Mas na rua, felizmente, eu me saí bem. As pessoas vêm nos dizer “obrigado” ou “bravo, é necessário continuar”. O fato de ter dito na cara de Fillon e Le Pen, ao vivo na TV, nos permite ver que há uma verdadeira cólera e uma satisfação de ter dito aquilo que ninguém podia ou não sabia falar.

Liberation: Suas proposições são escutadas?

Sim, as pessoas não lembram apenas a imunidade operária. Elas esperam também a solidariedade com a Guiana, o fim das intervenções militares na Síria ou a proibição das demissões, uma ideia que é amplamente aceita porque há mais de 6 milhões de pessoas na merda. Estes não são apenas números, algo está preste a explodir. E isso vai continuar. Esta cólera não vai embora. Nossas ideias e nossa mensagem passam. Gostaríamos que isso se traduzisse em votos, pois pode ser importante ter um discurso anticapitalista um pouco radical que emerja desta eleição e ouvir outra mensagem [diferente] que “Le Pen ao segundo turno”.

Liberation: Além do NPA, quem são seus eleitores potenciais?

Militamos em meios mais abstencionistas, ao lado de manifestantes zadistes [que ocupam lugares para barrar projetos empresariais ou governamentais], libertários, em que alguns poderão votar. Além disso, sabemos que podemos desgarrar alguns eleitores da Front National. Isso seria bom, porque há bastantes trabalhadores, desempregados, pessoas que estão na merda que votarão Le Pen. Depois, vemos pessoas que estão diretamente de acordo com o que falamos, mas que vão votar Mélenchon porque ele está numa dinâmica boa e é quem poderia chegar ao segundo turno.

Liberation: Você disse que Mélenchon não é teu adversário. Sobre quais pontos vocês estão em desacordo?

Ele não é um adversário porque o meio que vota em Mélenchon são camaradas de luta com quem nos encontraremos amanhã nas batalhas sociais. Temos reivindicações comuns como a redução do tempo de trabalho ou parar as demissões. Mas como obter isto, é hipernebuloso com Jean-Luc Mélenchon. Ele está na linha do PS de Miterrand, na linha de Jospin, ele jamais negou isso. Nos anos 80, ele nos explicou que era necessário calar-se, que era necessário votar pelo PS. Ele diz que é necessário que fiquemos quietos e que é necessário votar por ele. Para nós, as eleições não mudam a vida, são necessárias verdadeiras lutas sociais, é necessário se enfrentar com o sistema capitalista. Além disso, temos um desacordo enorme com ele sobre o aspecto “chauvinista”: as bandeiras azul-branca-vermelha [francesa], não existirão entre nós. Nós não nos endereçamos aos Franceses e às Francesas, mas à população, portanto, também aos imigrantes e estrangeiros. Não podemos estar com Mélenchon desde o primeiro turno, pois queremos falar da liberdade de circulação, da abertura das fronteiras, do acolhimento de todos os imigrantes e da regularização de todos os sem-papéis.

Liberation: O que diferencia suas propostas das de Nathalie Arthaud?

Há diferenças programáticas, eu não vou listar, pois elas são fáceis de ver. Isto não é uma novidade, já faz quase quarenta anos que há duas candidaturas da extrema esquerda e isso não é preocupante. Há nove políticos profissionais dos onze candidatos e somente dois trabalhadores e somos nós que deveríamos explicar por que estamos lá?

Liberation: Em seu programa, a preocupação principal é com o trabalho. Como pensa, por exemplo, proibir as demissões?

Infelizmente, é o que se destaca, mas a questão ambiental, aquelas do antirracismo, das violências policias ou da igualdade de direitos são tão importantes quanto a questão do emprego. Como proibir as demissões? Da mesma maneira que hoje as demissões são impostas pelo alto, queremos impor o inverso por baixo. Não é mais complicado do que isso. Nós temos o direito de ter nosso próprio emprego e é necessário impedir a remoção dos meios de vida de qualquer pessoa. Se isso parece surpreendente ou anormal, diz bastante sobre a violência da sociedade na qual estamos.

Liberation: Podemos taxar suas propostas de irrealistas ou utópicas…

Sim. Mas há cem anos, férias pagas eram completamente utópicas. O progresso social nunca veio do alto. Os patrões jamais falaram: “Mas é claro que é bizarro que as crianças trabalhem”. Na Guiana, deve ter havido muitas pessoas que pensavam que era impossível e utópico. Mas, em determinado momento, a cólera explodiu, se generalizou e a população disse: “Parem, estamos cansados. O desemprego é alto, não há escolas e nem bastantes colégios, nem hospitais, tudo isto não é normal”. Veremos até onde isso pode ir, mas quando a população luta, há possibilidades de desbloqueio.

Liberation: Por que você não é escutado pelos temas ambientais?

Por que nós nunca fomos questionados sobre isso. Isto não é porque não me importo ou porque não conheço nada. Eu estive várias vezes em Notre-Dame-des-Landes. Sivens, nós militamos lá. Bure [local de despejo de lixo radioativo a ser construído em Meuse], os camaradas estão militando na ocupação da floresta. Eu posso falar horas sobre o tema, mas não me perguntam sobre: o fim da utilização da energia nuclear, dos gases do efeito estufa, das pesquisas sobre o gás de xisto, do produtivismo na agricultura, fungicidas, fertilizantes, de tudo que é destruidor, sobre todos os temas, que comemos mal e que morremos devido ao que comemos. A questão ambiental está ligada à questão social. Não é justo as árvores que morrem, as florestas que desaparecem, matas que se desvanecem. Há um mundo que está sendo destruído.

Liberation: Você votou [no segundo turno] por Hollande em 2012. Você já sabe o que vai fazer no segundo turno?

Não, não sabemos. As sondagens nos anunciam Macron-Le Pen, mas as coisas mudam. Evidentemente, se for Fillon-Le Pen, não votamos; se for Mélenchon-Le Pen, votamos Mélenchon. Mas a batalha contra a extrema direita, não é só no segundo turno das eleições, pode não ser necessário acordar nesse dia… Para o NPA, podemos, ao menos, reivindicar a participação na batalha contra a extrema direita e o racismo ao longo de todo ano.

Liberation: Vocês apresentarão candidaturas as legislativas?

Claro. Mas não estaremos presentes em todos os locais. Há candidaturas do movimento social que se somam e nós não nos apresentaremos nesses locais. Há debates com zadistas, com François Ruffin, mas não com Mélenchon.

Liberation: Você tem notícia da acusação de Fillon contra você?

Não, nenhuma novidade. Mas acho que não vai prosseguir. Ele já tem uma agenda judiciária bastante carregada.

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