’13 Reasons Why’: os porquês do suicídio

Por: Micael Carvalho*, de São Luís, MA
*Professor e militante do MAIS

Terminei de assistir a nova série da Netflix “13 Reasons Why” (Os 13 porquês) e decidi escrever sobre uma temática que ainda é tabu na sociedade: o suicídio. Não vou me ater aos comentários específicos sobre os episódios, para não dar spoiler aos que ainda não assistiram, mas às questões principais que me fizeram refletir ainda mais sobre o assunto.

Apesar de abordar o “bullying” como a causa que levou a personagem principal ao suicídio, no Brasil e no mundo as causas são bem mais abrangentes e têm a ver diretamente com o tipo de sociedade que temos hoje, sociedade com base na exploração e opressão. A depressão é o fator que mais acomete esse tipo de ação. Mas, vocês já se perguntaram quais as causas da depressão? Já se perguntaram quantas pessoas próximas, ou não, passam por esse tipo de transtorno e distúrbio mental?

Sensação de fracasso, inutilidade, insônia, desinteresse por atividades e apetite, cansaço exagerado, sonolência, indisposição, inquietação e ansiedade são apenas alguns dos sintomas. Essas características remetem diretamente a problemas sociais, maioria de saúde pública.

A relação direta do problema com o modelo social está refletida nos países de baixa e média renda (são 75% dos casos mundiais). Crises, guerras, genocídios, fome, desemprego fazem parte desse sistema desigual e combinado.

Há ainda o fator geracional para acrescentar na discussão. O alvo possui faixa etária definida: os jovens e os idosos. Em primeiro lugar, a juventude, depois, a terceira idade. Nos jovens podemos associar a fatores como pressões sociais, instabilidade financeira e emocional, modelo tradicional de educação, falta de diálogo com amigos e famílias, delinquências acadêmicas, comparações, sexualidade e um longo etc. Nos idosos, o isolamento social, abandono de familiares e amigos, desesperança, dentre outros.

A opressão machista, racista, xenofóbica e LGBTfóbica, portanto, são essenciais para a reprodução dessa violência. Na série são categóricos os casos de estupros – “a retirada da ‘alma’”. Bastemos analisar com mais detalhes as consequências dos fatos nos episódios seguintes.

Aqui em nosso país, o suicídio perde apenas para os acidentes de trânsito, segundo os dados do Relatório “Violência Letal. Crianças e Adolescentes do Brasil”, da Faculdade Latinoamericana de Ciências Sociais (Flacso), divulgado em 2015. A cada 45 minutos, uma pessoa retira sua vida no Brasil. O aumento em dois anos foi de 20,3%, conforme o Mapa da Violência do ano passado (2016).

Infelizmente, essa situação ainda é tratada de forma inadequada. Há além do senso comum (“fraco”, “inseguro”, “querer chamar atenção”, etc), as questões religiosas que implicam fatores ligados exclusivamente à espiritualidade (a famosa “doença espiritual”).

É necessário dar o tom do debate fazendo o recorte dos tratamentos adequados por profissionais habilitados para lidar com o problema. Discutir e combater as causas e não analisar as consequências somente.

Enfim, gostaria de aprofundar muitas coisas desses parágrafos, mas a publicação é numa rede social e não num artigo acadêmico. É um tema sério necessário ao debate, preocupante, estarrecedor e que me despertou certa angústia, porque enquanto você lia esse post, mais uma pessoa (segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS – 2015) cometeu suicídio no mundo.

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