Dez características por trás dos discursos do MBL e consortes

Por: Thiago Lisboa, mestrando em filosofia pela UFABC

É de conhecimento comum ver como o MBL (Movimento Brasil Livre) e seus consortes, como Arthur do Val, youtuber do canal “mamãe falei”, abordam e lidam com seus opositores, principalmente aqueles que se situam à esquerda do espectro ideológico e político. Já está mais do que claro que a difamação, ridicularização e desmoralização de seus oponentes políticos constituem o método e a finalidade dos discursos deste movimento.

No entanto, não sei se alguém já se deu ao trabalho de delinear os elementos básicos que compõem os discursos do MBL e seus consortes, elementos que são fundamentais aos métodos de difamação e desmoralização de seus oponentes. Se não, aqui vai alguns elementos que identifiquei na raiz dos discursos desse movimento neoconservador:

1) Monopólio da verdade – apenas os valores e princípios morais, políticos e econômicos defendidos pelo movimento são considerados verdadeiros. Nesses termos, todos os valores e princípios morais, políticos e econômicos que diferem, ou que se opõem aos deste movimento, são considerados falsos, mentirosos, equivocados e, portanto, devem ser combatidos. Nesse sentido, qualquer um que se oponha, pense diferente ou divirja das ideias (valores e princípios) do movimento é visto como mentiroso e desonesto;

2) Monopólio da bondade – a prática aqui é semelhante à do item anterior, ou seja, o ‘Bem’ e o ‘Bom’ são todos os valores e princípios defendidos pelo movimento. Com isso, todos os valores e princípios contrários ou distintos ao do movimento representam o (ou são a encarnação do) ‘Mal’ e do ‘Mau’. Nesse sentido, qualquer um que se oponha ou divirja das ideias (valores e princípios) do movimento é visto como maldoso, mau caráter e desonesto;

3) Teologização e polarização do discurso político: os dois itens anteriores demonstram o caráter maniqueísta, bipolarizado e teológico (não político) do MBL e consortes. Dado o monopólio da verdade e da bondade, as ideias (valores e princípios) defendidos pelo movimento viram dogmas, isto é, princípios que não podem (e não devem) ser questionados, pois representam o Bem, o Bom e a Verdade, isto é, tudo aquilo que eles defendem e que servem para combater o Mal, o Mau e a Mentira, isto é, tudo aquilo que é oposto ao que eles defendem.

Com base nisso, MBL e consortes encaram a política sob uma ótica simultaneamente teológica, maniqueísta e bipolarizada: Bem e Mal, Bom e Mau, Verdade e Mentira, Nós e (ou contra) Eles. Veja que a construção do discurso torna-se binária, ignorando assim a diversidade e complexidade do real;

4) Narrativa infantil binária – identificada essas características, o movimento costuma construir narrativas infantis muito batidas, isto é, inventam estórias de fácil compreensão e absorção pelo público leigo em ética, política e economia. Tais narrativas (que fariam inveja às fábulas da Disney e Hollywood) são estruturadas apenas a partir do que eles mesmos entendem por Bem e Mal, Bom e Mau, Verdade e Mentira (portanto, a partir da teologização e polarização dos discursos). Com base nisso, o MBL (a exemplo de Hollywood) só pode construir histórias de mocinhos versus bandidos, ou de heróis versus vilões (polarizando a realidade).

Feito isso, esse tipo ou método de narrativa é aplicado à situação ética, política e econômica do país. O resultado disso é a demonização de setores progressistas e da esquerda (e que não é tão progressista e tão de esquerda assim, como o PT e simpatizantes) e a santificação de setores conservadores e de direita (a exemplo de Sérgio Moro, considerado um herói que salvará o país do mal da corrupção). Mais uma vez, percebemos aqui a construção de um binário, ignorando a diversidade e complexidade do real;

5) Adjetivação – dado o monopólio da bondade, todas pessoas, lideranças e práticas de movimentos dissidentes e contrários a todos os valores e princípios do MBL são acintosamente adjetivados (pejorativa ou negativamente), expressando, assim, muito mais um juízo de valor e um moralismo do que uma análise objetiva dos fatos e acontecimentos. Se o leigo concorda e partilha dos mesmos valores e princípios do MBL, os ataques pessoais e a difamação dos opositores ao movimento ocorre naturalmente, soando como uma verdade inquestionável;

6) Seletividade dos fatos – dado o monopólio da verdade, todos os fatos e acontecimentos que atestam as ideias (valores e princípios) do movimento são considerados válidos e verdadeiros, sendo, portanto, destacados e evidenciados em seus discursos. Já fatos e acontecimentos que não se enquadram (que contradizem ou ponham em xeque) os ideais a priori do movimento são considerados inválidos e não-verdadeiros, sendo, portanto, omitidos, como se não tivessem acontecido, ou simplesmente não existissem;

7) Poder de difusão – outro elemento inerente a este movimento é o seu poder de difusão em geral. Quando digo “poder de difusão” estou me referindo não só aos veículos utilizados para propagar suas ideias (como twitter, facebook, youtuber, whatsapp, página na internet, jornal, entre outros), como também: a) à quantidade de “conteúdo” que se produz nesses meios utilizados; b) ao público-alvo que se quer atingir; e c) ao tipo de abordagem e interpretação dada aos fatos cotidianos (de acordo com o exposto nos itens 1 a 6).

8) Leitura tendenciosa/distorcida/equivocada da base teórica adversária: é muito comum ver o pessoal do MBL e consortes dizendo que as teorias de esquerda (principalmente as de Marx e marxistas, que, diga-se de passagem, são coisas distintas) foram “refutadas” por “grandes pensadores” (na verdade, alguns economistas específicos) do século XX.

Visando passar um ar de embasamento, primeiro costuma-se apresentar “o que a teoria refutada diz” e, depois, apresentar a “contradição inerente ao que ela diz”, apresentando em seguida quem identificou o problema e a contradição da teoria esquerdista e, por isso, refutou-a. O que precisa ser esclarecido aqui é que, quando se apresenta “o que a teoria refutada diz”, o que é apresentado não é (na maioria dos casos) um trecho da fonte primária (isto é, a passagem do livro do autor refutado), mas o que seu crítico disse ou interpretou sobre isso, o que além de configurar a falácia do espantalho, é ainda uma informação secundária ou de segunda mão, passível de equívoco interpretativo.

Não obstante, geralmente eles “analisam” um conceito (ou uma categoria de análise) de uma teoria oponente não com base nos fundamentos e pressupostos teóricos de seu oponente, mas com base em seus próprios pressupostos teóricos, o que configura naturalmente, aos olhos do movimento, a tal contradição passível de refutação. No entanto, essa prática é incomensurável teoricamente, o que costumamos chamar (na brincadeira, mas que contém um fundinho de verdade) de “anacronismo teórico”.

9) Modernismo reacionário – termo originalmente cunhado por Jeffrey Herf (e título de seu livro, no qual tece uma análise histórica dos elementos inerentes à cultura germânica apropriados pelo nazismo) o termo nos serve aqui em outro contexto: revelar o profundo conservadorismo e anti-progressismo por trás de uma roupagem aparentemente nova, moderna e descolada destes movimentos.

Autodeclarados liberais, o liberalismo pregado por esse movimento não é o liberalismo político progressivo do século XX (tal como o engendrado por John Rawls em sua obra “Liberalismo Político” que, diga-se de passagem, hoje seria considerado como um “esquerdista” por parte do MBL, pois Rawls defende veementemente os princípios da liberdade e da igualdade, afirmando que se as desigualdades sociais e econômicas não puderem ser eliminadas, elas até podem ser toleradas, desde que altamente contidas e minimizadas o máximo possível pelas instituições sociais).

O liberalismo pregado por esses movimentos é o liberalismo europeu e norte-americano do século XVIII, isto é, uma tendência política e ideológica enraizada no conservadorismo moral da época, que ainda preservava muitos traços aristocráticos e antidemocráticos. Apesar de se dizerem liberais (e, às vezes, libertários), a maioria dos integrantes e simpatizantes deste movimento são contrários ao aborto, à legalização das drogas, à desmilitarização da polícia, aos movimentos feministas, aos direitos LGBT, etc., bem como apoiam Donald Trump, corporativistas e a família Bolsonaro, que não possuem quase nenhuma tendência liberal.

Ou seja, a maioria dos integrantes desse movimento são neoconservadores e o fato de se autodeclararem liberais significa o quanto eles estão equivocados e desinformados a respeito do próprio desenvolvimento do movimento liberal e do liberalismo no decurso da história moderna aos dias atuais. Peno que isso configura, de fato, o modernismo reacionário desse movimento (com todas as desculpas a Jeffrey Herf).

10) Incitação ao ódio passional – junte todos os itens anteriores e construa um discurso que tente responder às constantes crises políticas e econômicas e “voilá”. Temos aí um discurso perfeitamente ajustado à descrença e à indignação popular frente aos descasos e desmandos no âmbito econômico, político e cultural nacional. Em momentos de crise econômica e política generalizada (principalmente quando estas são acentuadas vertiginosamente pela mídia) é comum que a primeira reação coletiva seja emotiva, passional, pautada muito mais em afetos do que na razão.

Diante desse contexto, não há discurso e visão de mundo melhor do que a produzida e propagada pelo MBL e seus consortes, principalmente quando a junção de todos os elementos indicados (do 1 ao 9) incitarem o ódio coletivo às instituições estabelecidas, o que esse movimento faz com maestria. O que quero dizer com isso, no fundo é que os discursos construídos pelo MBL nada mais são do que o produto dessa crise generalizada e desse “estado de espírito” passional em que vivemos no momento. Dito de maneira mais direta: todos os elementos e toda base dos discursos do MBL e consortes são irracionais.

Espero ter contribuído com o debate. Espero que este texto forneça as bases para que se construa 10 meios para combater a irracionalidade (e o irracionalismo) político destes movimentos neoconservadores.

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