Carnaval em Porto Alegre: agoniza, mas não morre

Por Matheus Gomes, de Porto Alegre

O tucano Nelson Marchezan não ameaça inviabilizar os desfiles do carnaval de 2017 para priorizar investimentos em outras áreas sociais. Ainda exercendo seu mandato na Câmara dos Deputados, ele e toda a sua base aliada votaram a favor da PEC 55, que tornou o Brasil o único país do mundo a congelar por 20 anos o teto dos gastos públicos.

Esta medida cria um efeito cascata da esfera federal para os estados e municípios, afastando qualquer possibilidade de resolução de problemas urgentes na capital, como a falta de creches, moradias e ampliação do atendimento nos postos de saúde. Mais ingênuo ainda é pensar que o desejo deles é que as escolas vivam essas dificuldades para se “reorganizarem” e “voltarem mais forte no ano que vem”.

Porto Alegre já investe migalhas na cultura: em 2016, apenas 0,79% do orçamento da prefeitura foi para a área e a dura realidade é que 88 % dos espaços de cultura, que absorvem a maior parte dos investimentos, estão na região central, bem distantes das quadras onde pulsam as baterias o ano inteiro. O objetivo deles é enfraquecer a cultura negra e popular.

O desprezo pelo carnaval vem de longe

Conhecer a história ajuda a entender por que os governantes não apoiam o carnaval. Há uma conexão intrínseca entre o desprezo pelo carnaval e o processo de “higienização” sócio racial promovido pelo poder público em Porto Alegre.

Os primeiros blocos de carnaval surgiram na “Colônia Africana”, região que hoje compreende os limites das ruas e avenidas Ramiro Barcelos, Protásio Alves e Oswaldo Aranha, Mariante e Mostardeiro.

“Quem ri por último”“Aí vem a Marinha”“Prediletos” “Namorados da Lua” eram alguns dos blocos que no início do século XX se destacavam no bairro, formado essencialmente por trabalhadoras e trabalhadores negros que se libertaram das amarras da escravidão nas chácaras da cidade.

Os festejos eram momentos de intensa comunhão, produção cultural e elevação da autoestima negra. A pompa das fantasias revelava uma ideia de que o negro queria e poderia, nesse novo momento histórico, ocupar um outro lugar na sociedade e ascender socialmente. Ou seja, a manifestação cultural era em si um ato de resistência, uma expressão alegre de uma luta política travada há séculos, que também tinha um caráter inclusivo e agregador.

No Areal da Baronesa e na Ilhota, dois territórios negros que ocupavam os arredores da Cidade Baixa, antigamente conhecida como a “primeira estação da liberdade”, também fervilhava a manifestação popular. Foi nessa região que surgiu a Imperadores do Samba e viveu Lupicínio Rodrigues.

A partir de 1954 novas legislações de urbanização começam a mudar o perfil dos bairros centrais. Já na década de 60, a prefeitura criou o projeto “Remover Para Promover”. O slogan chama a atenção pela “sinceridade”, parece que na ditadura os políticos de POA preferiam ser diretos.

A elite e a classe média branca, vinculadas a especulação imobiliária, almejavam pintar uma nova Porto Alegre, o que exigia não ter mais como “vitrine” da cidade bairros ocupados pelos descendentes de escravizados e trabalhadores pobres, estes não tinham nada a ver com o “progresso” desejado pelo Estado, logo, deveriam ser removidos.

Até 1971, o Departamento Municipal de Habitação removeu cerca de 13.303 famílias ou aproximadamente 61.154 pessoas da região central de Porto Alegre. A maior parte dessas famílias povoaram bairros a quilômetros da área central, como a Restinga e Lomba do Pinheiro. É importante citar que os políticos eram vinculados a ARENA e o MDB, ou seja, os antecessores diretos dos administradores de POA hoje.

Ampliar a resistência com a força das comunidades

Demorou três décadas para que a prefeitura conseguisse extirpar o carnaval do Centro após a retirada das comunidades. Em 2004, ainda sob a gestão do PT, iniciaram os carnavais no Porto Seco, chamado de “Complexo Cultural” apenas por quem quer fazer demagogia, pois o projeto inicial nunca foi finalizado e sequer as arquibancadas fixas existem.

A agonia do carnaval portalegrense começou ai, quando fomos afastados do Centro, quase 20km. O 20 de setembro tornou-se a única manifestação popular abraçada pelo poder público e, convenhamos, os quase um mês de acampamento devem gerar transtornos muito maiores que os três ou quatro dias de desfile, se o argumento na época era a incompatibilidade do Centro com o carnaval, devido aos “excessos” dos foliões, que ocasionaram abaixo-assinado e mobilização da classe média, aliás, a base eleitoral de Marchezan.

Não nos enganemos com a ideia de que “se fosse com o Melo seria diferente”. Ano passado, a essa altura do campeonato, a prefeitura ainda não tinha definido a instalação das arquibancadas e estávamos aflitos com a possibilidade de não realização dos desfiles, aliás, foi a gestão de Fortunati/Melo que negou-se a assinar o convênio que poderia garantir as verbas.

A angústia também atinge os blocos de rua. Ainda no mês de novembro o Afrosul Odomodê foi impedido de desfilar na Semana da Consciência Negra e diversas restrições têm sido aplicadas sobre os grupos que há alguns anos retomaram as festas de massa na Cidade Baixa.

Imagino como devem estar se sentindo os carnavalescos do Estado Maior da Restinga que serviram de estandarte num programa eleitoral do PSDB em 2016. Marchezan é contra o carnaval, ele representa a continuidade dos que queriam “remover pra promover”.

Em meio a guerra que atinge nossas comunidades, limitar o acesso à cultura é oferecer duas alternativas aos nossos jovens: a consternação de trabalhar duro e, mesmo assim, não conseguir sobreviver ou o crime organizado e a violência. As escolas de samba em Porto Alegre precisam demonstrar sua força e se mobilizar, chega de acordos de mesa e papo furado. Nos dias de hoje, nada se consegue sem luta e resistência, façamos assim!

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