A reorganização dos revolucionários e a militância no século XXI

Por Carol Coltro, do ABC, SP

Estamos diante de uma reorganização da esquerda revolucionária e socialista. O fracasso do programa de conciliação de classes do PT e o crescente avanço da direita impõem, por um lado, uma alternativa de independência de classe que possa ser uma ferramenta imediata para que a classe trabalhadora enfrente a ofensiva da burguesia.

Hoje, a unidade da esquerda, daqueles que acreditam que só venceremos esse difícil período confiando apenas nas forças da classe trabalhadora, se faz necessária e urgente.

Mas há outra tarefa colocada, especificamente, para as organizações revolucionárias, que acreditam que somente a imposição de outra ordem social, pelas mãos da classe trabalhadora, pode resolver de forma definitiva as contradições do capital. Esta tarefa é a construção de uma alternativa em torno de um programa socialista, que possa caminhar no sentido da superação do longo período de fragmentação. Essa unificação dos revolucionários só pode se dar em torno a um profundo debate programático a partir das análises científicas do nosso tempo e todas as atualizações necessárias.

Porém, um debate acerca de como devem se organizar os revolucionários também precisa ser feito por nós. Assim como necessitamos construir um programa para a realidade do nosso tempo, necessitamos também elaborar sobre que organização necessitamos. Precisamos fazer isso à luz da realidade de nossos dias, das nossas tarefas históricas e das experiências que tivemos até aqui. Não só as experiências de um passado vitorioso, mas também do, demasiado longo, período de fragmentação dos revolucionários. Humildemente, este texto busca contribuir com esta tarefa.

Em torno de que se agrupam os revolucionários?

Nas lutas, como greves, passeatas, ocupações, há uma adesão voluntária, pois aqueles e aquelas ativistas se entregam de corpo e alma àquela causa. Entendem a necessidade de disciplina para vencer. Sendo assim a disciplina não é para eles um jugo, mas a máxima expressão de liberdade. Já que é a máxima insubordinação contra a ordem vigente. É a insubordinação organizada.

As lutas da classe não são ininterruptas, elas explodem, são vitoriosas ou derrotadas e só depois são retomadas, com novos membros. Já os partidos ou organizações políticas possuem uma atividade de enfrentamento ininterrupta, que nem sempre se expressa em conflito físico, militar ou em ação concreta, embora também se expressem aí. Mas em essência, e inclusive nestes casos, a luta que o partido revolucionário trava é política. Luta de ideias. Sua luta é para que os interesses históricos dos explorados e oprimidos sejam abraçados por eles próprios, e é nesse sentido, que manter a organização para além das lutas específicas da classe é uma necessidade e também e condição para a vitória. A organização revolucionária, por ter um objetivo de mais longo alcance não se dilui após esta ou aquela luta.

Porém, assim como nos enfrentamentos da classe, não há disciplina se não há adesão voluntária. Mas neste caso não é como concluir que devemos defender a nossa escola, ou a nossa aposentadoria e a partir disso nos entregar a essa causa. No caso da organização socialista se trata de uma consciência histórica e também de um projeto que extrapola o que a realidade imediata pode fazer concluir necessariamente. Com isso a coesão das organizações revolucionárias é mais complexa, pois em última instância é atividade imediata para um fim nem sempre imediato.

Ainda assim, a condição para unificar seus membros é, em primeiro lugar, a consciência da tarefa histórica a qual essa organização se propõe. O marxismo revolucionário. Mas isso não é suficiente, já que a tarefa histórica nem sempre está ao alcance das mãos, unificando a todos em um mesmo objetivo. É então necessário uma segunda condição, que tal organização se mostre no caminho correto, que conquiste os objetivos relativos à sua tarefa histórica. Esses objetivos são relativos, já que são passos no sentido correto, mas ainda não se trata da conquista final. Neste caso a política correta é condição para que uma organização revolucionária esteja unificada e, portanto, mais forte para enfrentar um inimigo forte e coeso. Por fim, a coesão total só pode se dar se a política se transforma em ação de massas, se é abraçada pelo proletariado a ponto do próprio movimento de massas disciplinar a todos.

Qual o lugar do programa, da disciplina e da democracia interna?

É preciso romper com a transposição mecânica das experiências histórica, mas estuda-las de forma marxista. O exemplo do Partido Bolchevique é sempre elemento de estudo no que toca os temas organizativos. Seus acertos políticos e a situação da própria Rússia e de suas forças políticas e sociais proporcionou ao partido bolchevique agrupar e coesionar milhares e milhares de trabalhadores atualizando as teorias sobre organização existentes até então. Lênin afirma que as condições para a mais absoluta coesão e efetividade do Partido Bolchevique foram: a “consciência da vanguarda proletária”, sua “ligação com as amplas massas” e pela “justeza da linha política”, não sendo a disciplina uma necessidade em si, mas consequência do desenvolvimento desses três fatores[1]. Lênin ao explicar a relação da disciplina com essas três condições afirma, contrariando a visão propagada pelo estalinismo:

“Sem essas condições, os propósitos de implantar uma disciplina convertem-se, inevitavelmente, em ficção, em frases sem significado, em gestos grotescos. Mas por outro lado essas condições não podem surgir de repente; vão se formando através de um trabalho prolongado, de uma dura experiência; sua formação é facilitada por uma acertada teoria revolucionária que, por sua vez, não é um dogma e só se forma de modo definitivo em estreita ligação com a experiência prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário” [2].

Por ser uma atividade extremamente consciente, a militância revolucionária deve ser avessa a passividade, ao autoritarismo e etc. O cotidiano da militância revolucionária não pode ser pautado no cumprimento de ordens às quais não se vê sentido, a disciplina neste caso, diferente dos exércitos, da igreja e das corporações capitalistas, é na verdade, consciência e acordo programático. Assim como um jovem que ocupa uma escola só o faz porque acredita, só se subordina as estritas regras da ocupação porque deseja vencer e não porque lhe foi ordenado. O ativista sabe que isso não é jugo, mas liberdade, já que a ordem geral é outra: que ele não ocupe em hipótese alguma.

A disciplina é consequência e não causa da atividade revolucionária. A inversão dessa lógica pode ter consequências graves para a tarefa de agrupar os sujeitos mais conscientes do projeto revolucionário.

Já as formas, como se dava a própria organização dos revolucionários na Rússia, a disciplina férrea, característica usada de forma anacrônica por muitas organizações nos dias de hoje para defender regimes internos sufocantes, era uma condição imposta pela própria realidade: os bolcheviques e os trabalhadores russos enfrentavam uma ditadura cruel, o que forçava a qualquer movimento revolucionário a uma disciplina militar para poder sobreviver. O que nunca foi defendido por Lênin como virtude, mas como necessidade, já que o regime do partido, apesar de guardar certa autonomia, deve corresponder as condições gerais da luta de classes.

Polemizando contra os chamados Komitetchiks, que pretendiam controlar toda a atividade do partido, Lênin dizia, segundo relata Pierre Broué em O Partido Bolchevique:

“É preciso recrutar novos membros entre os mais jovens e com critérios mais amplos possíveis, sem medo, e esquecer todas a práticas complicadas, o respeito à hierarquia etc. (…) Devemos dar a cada comitê de base, sem colocar muitos empecilhos, o direito de escrever panfletos e distribuí-los. Não é grave se eles cometeram algum erro; nós o corrigiremos no Vperiod. O próprio curso dos acontecimentos vai ensiná-los em nossa concepção[3].” 

Outra condição para a construção de uma organização revolucionária é inerente a sua democracia interna.

A democracia nas organizações não se trata de um direito individual, mas de uma necessidade de se manter o caráter consciente e científico da atividade revolucionária. Ainda que apareça como liberdade individual. É, em última instância, condição para dar coesão a centenas, quiçá milhares de revolucionários em permanente combate. Se trata de entender que todas as ações devem ser absolutamente conscientes, portanto, refletidas, balanceadas, problematizadas, colocadas diante do seu contraditório, experimentadas.

Pierre Broué nos mostra que Lênin já em 1894, afirmava:

“É rigorosamente correto afirmar que não existe entre os marxistas completa unanimidade. Esta falta de unanimidade não demonstra a debilidade, mas sim a força dos social-democratas russos. O consenso daqueles que se satisfazem com a unânime aceitação de “verdades reconfortantes”, essa tenra e comovente unidade foi substituída pelas divergências entre pessoas que precisam de uma explicação sobre a organização da economia real, sobre a organização atual da Rússia, uma análise de sua verdadeira evolução econômica, de sua evolução política e do restante de suas superestruturas[4].”

O impacto das derrotas da classe trabalhadora para a organização dos revolucionários

Em nossos tempos é evidente que tais elementos, que podem conferir coesão a uma organização revolucionária, encontram-se em extrema fragilidade. Em primeiro lugar pela derrota sofrida no século passado, onde a burguesia retoma o poder nos estados que haviam sido conquistados pelo proletariado. O socialismo, tarefa histórica sob a qual se organizam os membros de uma organização revolucionária, é questionado não só pelas amplas massas do proletariado, como por parte dos ativistas das lutas cotidianas dos trabalhadores e da juventude. Se o marxismo é a primeira condição para a coesão de uma organização revolucionária, devemos admitir que diante de tantos questionamentos a estratégia socialista e da derrota das experiências históricas anteriores torna essa coesão muito mais difícil.

Essa derrota histórica distanciou ainda mais a organização revolucionária das massas oprimidas e exploradas, ou seja, a consciência histórica dos interesses do proletariado está mais distante de si próprio, o que torna mais difícil a relação dessas organizações com os próprios trabalhadores, tornando sua política mais passível de erros, e em menos condições de se provar correta, sendo mais difícil ainda a tarefa de unificar os revolucionários na ação cotidiana, já que a política não passa pelo crivo das massas.

Podemos concluir que a organização de militantes em torno de um projeto revolucionário está extremamente mais difícil que outrora. Temos visto uma grande fragmentação de organizações que se intitulam revolucionárias, o que expressa essa dificuldade.

Em poucas palavras podemos dizer que o questionamento a organização revolucionária advém do questionamento do programa revolucionário.

Dificuldades objetivas e os perigos ao enfrenta-las

Diante das dificuldades objetivas podemos cair em dois extremos perigosos: o primeiro é dar como impossível a organização de revolucionários e passar a defender exclusivamente a organização dos oprimidos e explorados por suas lutas pontuais, como se progressivamente pudesses se unificar por mágica chegando a abalar a estrutura do capital.

Diante das difíceis condições dadas muitos revolucionários passam a acreditar que não há como ter uma organização em torno de um programa contra o capitalismo como um todo. Passam a defender que essa coesão seria impossível, devendo haver uma coesão em torno de temas pontuais, como a questão das opressões às minorias, a questão sindical, ou outras tantas questões que compõem o programa socialista, mas não sua totalidade.

Advém do mesmo erro a recorrente tentativa de tornar o programa mais palatável, chegando a outra totalidade. É frequente que organizações da classe trabalhadora que se reivindicam socialistas comecem a alterar seus programas com o propósito de chegar com mais rapidez às massas. Neste caso a constatação da dificuldade de organizar em torno ao programa revolucionário leva a defesa de outro programa, nos marcos do capitalismo e acabam por distanciar mais ainda o proletariado da revolução.

Outro perigo é ignorar a realidade, a derrota que culminou com o fim dos estados operários e o abalo que esta derrota e a traição de suas direções provocaram no mundo.

Há também organizações que, diante dessas dificuldades objetivas, buscam aplicar o centralismo democrático do partido bolchevique como se se tratasse de normas organizativas, fazendo uma transposição mecânica. Passam a tentar organizar a militância pela disciplina em si. Em torno a fidelidades aos seus líderes, a um certo “tarefismo” irrefletido que age ignorando a realidade, baseado em ideologias diversas que transformam a militância em uma atividade alienada e não numa atividade livre, científica e consciente.

Para manter essas organizações é necessário uma teoria objetivista que mantém seus militantes com a promessa da revolução na esquina, que não sabe lidar com as derrotas do proletariado, com os próprios erros da organização, com o crescimento de organizações contra-revolucionárias no movimento operário e com correlações de forças adversas a classe trabalhadora. Acabam por produzir organizações descoladas da realidade e transformam a militância em um jugo. Jogando nas costas de valorosos militantes o peso das derrotas e passando a ideia de que sua vontade pode mudar a realidade.

Neste caso não se busca mais a política correta para manter e ligar os membros de tal organização, não buscam mais elaborações marxistas e científicas, mas dogmas e fetiches que coesionam de forma inconsciente e independente da realidade. O resultado é a proliferação de organizações marginais e auto-proclamatórias, que se digladiam entre si. E de uma militância que ao não existir pelo acordo com um programa correto baseado na realidade, não consegue elaborar suas ações de forma independente da direção, que só pode militar a partir de previsões otimistas e centralizadas por orientações explícitas definidas pela direção.

A militância revolucionária no século XXI

Diante da crise e fragmentação das organizações revolucionárias no mundo, é preciso repensar no que é a militância revolucionária. Essa elaboração deve sim, partir da teoria, da experiência do movimento operário, porém como marxistas, é necessário elaborar a partir da realidade dada.

Estamos certos que a militância revolucionária é necessária e insubstituível por acreditarmos que se comprova a cada dia a necessidade e possibilidade da estratégia do socialismo. O ativismo em geral, parte da consciência espontânea determinada pelas contradições cotidianas do capital: a falta da moradia, do salário, a desigualdade dos setores oprimidos, os ataques à educação, etc. Já a militância revolucionária parte da consciência de que é necessário mudar radicalmente a sociedade e estabelecer uma nova. Por isso ela não pode ser substituída. O programa revolucionário precisa se fundir com o proletariado através de organizações que estejam nas lutas cotidianas, espontâneas, nos movimentos das lutas pontuais, buscando combiná-las.

Estamos, portanto, convencidos de que as organizações devam, antes de tudo, se agrupar em torno a esse programa. Só isso pode conferir a essa organização a coesão necessária para as lutas políticas e para as ações que necessita travar cotidianamente.

Da mesma forma a militância revolucionária exige dedicação e abnegação e isso não deve ser um jugo, uma subordinação, uma fé cega. Todo grande projeto exige dedicação. Exige entrega. Mas isso é feito por aqueles que realmente dominam uma ciência e estão convencidos a provar seus resultados e não por crença. Todo grande projeto passa por crises, frustrações. Mas avança também a partir delas. Portanto a militância só pode ser consciente e desalienada.

A militância revolucionária não deve ser baseada numa infinidades de tarefas irrefletidas e que não partam de uma compreensão coletiva de onde estamos e o que fazer diante da realidade. Precisamos estar conscientes da grandeza do projeto, de sua necessidade, e, portanto, também não fugir de suas dificuldades, mas encará-las como fases de um projeto de longo alcance. Só uma militância consciente pode abdicar do objetivismo: do facilismo, do otimismo cego. E substituí-lo pela análise concreta da realidade e da compreensão das tarefas colocadas a cada momento, pela atuação crítica, ativa, pela análise daquilo que fortalece a classe trabalhadora e pela sapiência de saber como fazer.

Aqueles que se dedicam a causa revolucionária é preciso saber que tão importante quanto agir é saber o que fazer.

A ação dos revolucionários deve ser consequência de uma elaboração realmente coletiva. Por isso a democracia interna é condição e não concessão. Para o marxismo o conhecimento é coletivo, portanto não individual. Não necessitamos de regimes internos fracionais, onde é mais importante mostrar quem tem razão em cada momento do que permitir que a luta de classes prive as visões equivocadas de seu conteúdo. Não podemos abrir mão de uma análise confrontada a partir das diversas visões daqueles que possuem um projeto comum. De experiências realmente avaliadas. De fracassos reconhecidos. O resultado deste processo deve colocar o acerto sobre o erro. O veredito se dará na luta de classes e no desenvolvimento da vida política. E em tempo de distanciamento das organizações revolucionárias das massas é preciso ter paciência.

As desconfianças do ativismo para com as organizações revolucionárias não deve ser motivo de irritação, nem deve ser respondida com exigências de disciplina, autoproclamação e ultimatos, mas sim com luta teórica e ideológica na sociedade, buscando a política correta, onde a ação organizada dos revolucionários seja reflexo de uma elaboração realmente coletiva.

Foto: Brasília – junho de 2013

NOTAS

[1]Citação Completa – “A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como comprová-la? Como fortalece-la? Em primeiro lugar, pela consciência da vanguarda proletária, por sua fidelidade a revolução, por sua firmeza, por seu espírito de sacrifício e por seu heroísmo. Segundo, por sua capacidade de se ligar, se aproximar, e até certo ponto se quiserem, de se fundir com as mais amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias. Em terceiro lugar, pela correta direção política exercida por essa vanguarda pelas acertadas estratégias e táticas políticas com a condição que as mais amplas massas se convençam disso por si próprias. LÊNIN, V.I, Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo, p. 48. Expressão Popular.

[2]LÊNIN, V.I, Esquerdismo: Doença Infantil do Comunismo, p. 48. Expressão Popular.

[3] BROUÉ, Pierre. O partido Bolchevique. p. 54. Editora Sundermann.

[4] BROUÉ, Pierre. O partido Bolchevique. p. 52. Editora Sundermann.

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