Não precisamos do seu perdão

Por: Janaína Oliveira, colunista do Esquerda Online

As tristes imagens divulgadas pela imprensa nesta semana sobre a situação do Haiti após passagem do furacão Matthew são duras, mas não podem ser debitadas apenas neste fenômeno natural, considerado por cientistas o maior em nove anos que atinge a região do Caribe. Embora tenha perdido força na chegada à costa estadunidense, o fato é que a frieza dos números revela que o maior desastre do Haiti não é o Matthew, mas a ganância infinita dos países ricos.

Enquanto na Flórida foram registradas até o momento quatro mortes, o pequeno país localizado na América Central já acumula quase 900 vítimas fatais e mais um milhão de pessoas afetadas pelo desastre, de acordo com a Agência Reunters. As casas estão no chão, cidades e vilarejos localizados principalmente na parte do sul quase sumiram após as chuvas e inundações decorrentes do furacão. Hospitais estão lotados e nos abrigos a situação, sem água potável e energia, é precária. Na última quinta-feira (6), a Organização Pan-americana da Saúde – OPAS apontou para a real possibilidade de surto de cólera após a chegada do Matthew, lembrando que só neste ano já havia sido registrado 28 mil casos.

Antes de tudo é preciso dizer de qual Haiti estamos falando. São falsas as lamentações dos grandes órgãos de imprensa, assim como são hipócritas as declarações publicadas pelos países a frente da ONU, como é o caso dos Estados Unidos. Ambos utilizam o mesmo discurso para ‘envernizar’ com lágrimas de crocodilo os seus reais interesses. Na boa, já se passaram seis anos desde o terremoto que deixou o país em ruínas e até a chegada do furacão Matthew a maior parte da população ainda se mantinha em moradias improvisadas, sem direito nem mesmo a saneamento.

Vejamos o principal projeto humanitário destinado ao Haiti: A MINUSTAH. A Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti é composta por soldados e policiais a serviço da ONU, estimo cerca de 5000 oficiais, sendo deste total 970 soldados brasileiros ( Gente, esse foi um cálculo que eu fiz baseada nos números disponíveis nos sites UOL e Estadão). Desde 2004 quando a MINUSTAH foi criada milhares de militares vindos do nosso país foram recrutados pelo exército e se revezaram para manter a suposta ação “missionária”. De acordo com o Ministério da Defesa em 2016 os cofres públicos destinaram R$120 milhões para essa força-tarefa, sendo que a fatura total desde a sua criação já bateu mais de R$1,8 bilhão. Em matéria do Estadão, uma das justificativas utilizadas pelo Ministério é de que a missão tem possibilitado aos soldados brasileiros adquirir conhecimentos e treinamento em situação real (Tá de brincadeira! Eles treinam lá pra depois aplicar a sua linha genocida aqui? Vai segurando…).

De lá pra cá, qual o saldo?

O Haiti segue sendo o país mais pobre das Américas;
60% da população está abaixo da Linha da Pobreza;
A expectativa de vida é de 63 anos;
Após o terremoto 25 mil famílias vivem em condições precárias; (Imagina agora?)

A mortalidade infantil chegou a proporção de 71/1000; (Nos municípios mais pobres do Brasil a média é de 5/1000)
Por outro lado as Zonas Francas, conhecidas como obras de bondade do imperialismo para a reconstrução do Haiti, são mais rentáveis do que qualquer Mega Sena. Com isenção de tarifas aduaneiras e fiscais as grandes fontes de lucro são certas! Por isso recebem tantos ‘incentivos’ externos como do Canadá, União Européia e dos Estados Unidos. A verdade é que são as mãos haitianas que produzem as roupas de marca que nenhum haitiano com salário de 300 gourdes, o equivalente a U$ 4,84, pode comprar!

[…] Contudo na realidade, as zonas francas constituem, para muitos países pauperizados tais como o Haiti, a única estratégia concebida para diminuir o desemprego e diversificar a produção. Isso com o apoio de instituições internacionais tais como a SFI, instância do Banco Mundial responsável pelo financiamento da CODEVI no Haiti, no seu início. Ora, a produção industrial da CODEVI fora do alcance do poder aquisitivo da maioria dos haitianos inclusos na classe trabalhadora no país onde todos os serviços básicos tais como a saúde, a educação são pagos. No Estado, este pagamento pode ser menor, no entanto, o conceito de serviço público gratuito é inexistente no Haiti quer seja no que diz respeito à saúde quer seja à educação. (DESROSIERS, 2014, p.64). Gostou? Essa citação foi extraída da tese de doutorado da Michaelle Desrosiers, orientada por Ricardo Antunes. Chama-se Trabalho, Mulheres Negras e Zonas Francas no Haiti Contemporâneo: O ‘Empresariado Humanitário’ neocolonial em Movimento. (Vale a dica, porque o texto é maravilhosoo!!)

Estamos falando do Haiti! Dos quase brancos, quase pretos de tão pobre são tratados, como dizia Caetano. A colônia mais rica ao final do séc. XVIII, a mais rebelde do início do séc. XIX e a mais saqueada desde então. A São Domingos que sob o comando negro de Toussaint Louverture insurgiu a base preta escravizada até se tornar Ayti (De origem indígena, significa terra de altas montanhas). A primeira república negra da história. País marcado pelo regime de Papa Dock e que derrotou nas ruas o seu filho, Baby Dock.Território em que 1% dos ricos concentram metade da riqueza nacional.

Não há como negar que o imperialismo desde 1804 tem feito o Haiti pagar em infinitas parcelas de humilhação, endividamento, massacre e exploração pela ousadia de ter enfrentado as grandes potências do mundo para conquistar a sua soberania. Essa não é apenas a história de um povo que sofre. Essa também é a história de um povo que luta e por isso não desiste.

Mal sabem eles que isso é o que o que há de mais precioso, o anseio de liberdade. Isso não se compra, nem se comprará. Por menos que contém a história eles jamais poderão nos negar que o Haiti não é apenas um país, mas sim uma força que pulsa em cada coração negro revolucionário.

O Haiti é aqui. Não precisamos do seu ‘perdão’.

Comentários no Facebook

Post A Comment